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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Abrir um postigo não é solução

Abrir as portas do espaço Schengen aos cidadãos de uma quinzena de países, como deverá ser decidido amanhã, é pouco. Não servirá para grande coisa, para além de mostrar que a crise irá continuar. O mundo não pode continuar fechado durante muito mais tempo. É fundamental aplicar outras medidas de prevenção, que não sejam o fecho das fronteiras e as quarentenas aplicáveis a todo e qualquer um. Testes expeditos, controlos de temperatura, seguimento dos casos suspeitos, promoção de comportamentos responsáveis, harmonização das políticas de saúde ao nível mundial, tem que haver maneira de encontrar um equilíbrio entre a pandemia e o funcionamento das relações internacionais, entre a prudência e a revitalização das economias. Cada dia que foge e que mantém a interdição de viajar para além da nossa vizinhança política é mais um passo para o abismo económico e social. O bloqueio sem esperança nem horizonte é um falhanço da comunidade internacional.

Três grandes conclusões

Ontem ao serão e hoje durante o dia, falei com antigos colegas e outros, espalhados por vários pontos do mundo. Esta é a vantagem da era digital e das aplicações de comunicação entre as pessoas. Fala-se para toda a parte, a custo zero, basta haver internet. Para mim é importante manter o contacto com gentes de outros horizontes, que fui conhecendo ao longo do meu percurso pelo mundo.

Das conversas, saíram três conclusões, partilhadas por todos.

Estamos mais pobres. Nalguns países, a pobreza atingiu níveis que nos fazem lembrar a miséria em que essas populações viviam há trinta e tal anos, na década de 80 do século passado. Noutros, são os esquemas de financiamento do desemprego e do subemprego que disfarçam a coisa. A França, por exemplo, adoptou hoje um sistema de financiamento do desemprego parcial que irá durar dois anos e custará vários milhares de milhões. Ou seja, um mecanismo que esconde a crise e que procura dar uma prancha de salvação às famílias que se encontram perdidas no alto mar de um profundo choque estrutural. Ao aprovar uma duração de dois anos, o governo francês mostrou que isto está para durar.

Estamos mais provincianos. Cada povo fecha-se dentro das suas fronteiras, reais ou imaginárias. Os outros representam uma ameaça de contágio. Não há ligações aéreas ou de outro tipo, só aparecem voos de emergência ou de repatriamento, como a Índia fez este fim de semana, ao fretar, uma vez mais, um avião entre Nairobi e o regresso à terra. Até as rotas de navegação comercial estão ameaçadas, porque as companhias de frete marítimo não conseguem fazer a substituição das tripulações e os navios vão ter que deixar de navegar, por razões de regras, de seguros, que não podem ser renovados se não houver uma tripulação fresca a bordo. Voltámos ao vício dos controlos alfandegários, por tudo e por nada. Os exportadores chineses, por exemplo, têm milhões de pacotes acumulados nas alfândegas nacionais do seu país à espera de ser inspeccionados, uma inspecção sanitária sem critérios definidos mas que justifica todo um novo corpo de inspectores do empata o jogo. Mais perto de nós, ali para os lados da nossa fronteira com a vizinha, temos gente nas aldeias que fica nervosa quando vê um carro espanhol passar.

Estamos a assistir ao estado de coma das instituições internacionais. As Nações Unidas e outros actores globais perderam a voz e a iniciativa. Não há nenhuma tentativa de governação internacional. A um problema que é de todos, global, responde-se com o silêncio das agências da globalidade. Aceita-se o princípio do salve-se quem puder. As missões de paz não recebem direcção política de Nova Iorque e as agências do desenvolvimento, nomeadamente o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), foram enfraquecidas por tudo, por todos e por reformas inspiradas por quem não conhecia o funcionamento do sistema. O Banco Mundial e o FMI também não aparecem na praça pública.

Não quero ver estas conclusões com pessimismo. Mas que são um grande desafio de liderança, isso são.

 

Acreditar é a melhor solução

Dizem-me que não se deve falar de austeridade, que não será com austeridade que a economia se irá levantar. Não sei como responder. Vejo a economia de rastos, com quase todos os sectores parados e a acumular dívidas, com excepção do que se relaciona com a comercialização de alimentos, vejo os governos a falar em milhares de milhões que não estão ainda disponíveis nem sei quando e em que condições o estarão, percebo que há um empobrecimento acentuado ao nível de muitas famílias, mas quero acreditar que tudo se recomporá. É um acto de fé, que é o que resta quando não se vê uma outra solução. Ou, então, fala-se de fé, para não se falar de coisas tristes ou que estão fora do alcance.

De qualquer modo, ganha-se mais sendo-se optimista. 

O frio que por aí anda

Uma parte dos meus amigos em Portugal está com gripe. Alguns, com broncopneumonia. Sem contar, claro, com os que tremem de frio. Aqui, nestas terras mais gélidas do Norte da Europa, não tenho, nas minhas relações, quem esteja em situações similares.

Só posso desejar boa e rápida recuperação aos que dela precisam, nas terras lusas.

 

Um frio de rachar

Morre-se de frio em Portugal. Quando telefono aos amigos, está tudo a tremer com frio, nas suas casas, nas repartições públicas, nas escolas, nos hospitais, em toda a parte. Esse é um dos sinais das imensas dificuldades que a maioria das famílias sofrem. O dinheiro não chega para tudo, em particular para o aquecimento. Temos aqui mais uma prova que os salários médios estão abaixo das necessidades básicas. Tudo isso causa um grande desconforto quotidiano e acarreta problemas de saúde.

Não consigo falar aos meus amigos belgas sobre o frio que a as famílias portuguesas têm que enfrentar. Não entendem. Com as casas e os lugares públicos a uma temperatura confortável, não conseguem visualizar que isso não aconteça num país europeu como Portugal. Um ou outro que vai agora a Lisboa de férias acaba por sentir na pele o que eu quero dizer. Uma amiga minha esteve recentemente num estúdio B &B na zona de Santos e ia morrendo de frio. Não havia radiador algum no alojamento. Como é uma pessoa desenrascada, resolveu o problema com os meios disponíveis – ligou o forno eléctrico que estava na kitchenette, abriu-lhe a porta e aumentou a temperatura da sala única de um ou dois graus. Deu para sobreviver. Nem quero imaginar qual será a factura de electricidade que o proprietário verá aparecer no final do mês.

 

 

O vendedor de óculos de sol

Ninguém lhe pergunta pelo nome. Há anos que passa o dia na esplanada da rosa-dos-ventos, junto ao Padrão dos Descobrimentos, em Belém. A vender óculos de sol. Durante alguns anos, foi o único vendedor. Agora, o sítio está cheio de “ciganos”, como ele diz, todos no mesmo negócio. Ele também é cigano, mas de outra estirpe, um verdadeiro senhor, sem sotaque e sempre bem apresentado. Elegante, à sua maneira, que quem vende deve inspirar confiança.

Para quem passa, hoje ou frequentemente, é apenas um velho cigano que por ali anda, 67 anos de idade, a tentar vender uns óculos que poucos compram. Na verdade, com a concorrência que por ali há agora, tem dias em que vende apenas um par. Diz que mesmo assim vale a pena, que isso o ajuda a passar o tempo, permite-lhe sair de casa, longe do rio, na zona de Loures.

Nestes últimos tempos, anda encostado a uma canadiana. Tantos anos de pé, à volta do mundo que está desenhado no chão da rosa-dos-ventos, deram-lhe cabo de ambos os joelhos. De vez em quando não se aguenta nas pernas e cai. Mas com a afluência de turistas, há sempre quem o ajude a levantar-se. Um vendedor de óculos de sol vive e sobrevive de pé.

Está inscrito no Hospital de Loures há muito mais de dois anos, para fazer a operação que os joelhos lhe pedem. No chamado Serviço Nacional de Saúde. Já o convocaram, há cerca de um ano, para falar com o anestesista. E depois, é só esperar. E lá continua à espera, talvez mais um ou dois anos. Nessa altura, já deverá andar de cadeira de rodas, sempre à volta do mapa do mundo. O SNS pode não funcionar, mas a vida de vendedor ambulante não pode parar.

Entretanto, vai-se consumindo na resignação revoltada de quem não tem nome nem acesso. E de quem sabe o que significa ter que esperar pelo SNS.

O Diamantino é, afinal, à sua maneira, como muitos de nós.

 

Viagens e más notas

Passei os últimos dias em viagem. E acabei comparando o desenvolvimento de Portugal com o de Espanha, que é como quem compara o incomparável.

Viajar ao longo da Estremadura espanhola e depois passar para o lado português da fronteira, é um trajecto do dinamismo e do engenho para o abandono e a pobreza. E isto levou-me a pensar que em 2004, se não me engano, disse numa entrevista ao Diário de Notícias que havia um grande défice de liderança política em Portugal. Nessa altura, o meu amigo José Manuel, então jovem Primeiro-Ministro, ficou zangado comigo. Achou que se tratava de uma referência pessoal. Disse-lhe que não, que era um problema geral, comum à nossa classe política. A emenda terá sido pior do que o soneto.

Mas a opinião expressa então continua a ser válida. A nossa classe política não sabe puxar pelo país, não tem grandes ambições patrióticas, não se interessa pelo interior do país, não sabe o que é ser-se pobre nas terras abandonadas das Beiras e do Alentejo.

Isto de andar de um lado para o outro deixa-nos um amargo de boca quanto à falta de incentivos ao desenvolvimento de certas regiões do país. E leva-nos a pensar que a questão da liderança é uma questão fundamental.

Compreender a precariedade social

Nas nossas sociedades europeias, não há uma compreensão política clara do que significa a precariedade, apesar de ser uma situação vivida quotidianamente por muitas famílias. A política vive num mundo à parte. Deixou de ter raízes nos problemas dos mais pobres. Perdeu o contacto com quem se sente profundamente inseguro.

Os grandes desafios globais

A agência de noticias Reuters lançou um inquérito internacional sobre “o desafio global mais urgente” que deveria ser tratado no encontro de Davos deste ano. Participaram nesta iniciativa mais de 300 mil pessoas.

As respostas estavam condicionadas em virtude da pergunta só permitir uma escolha entre quatro grandes desafios, excluindo assim outros que considero igualmente importantes, como, por exemplo, os relacionados com a pobreza, o desemprego, a Inteligência Artificial, a gestão das megacidades ou ainda a questão dos direitos humanos, agora que vários autocratas estão no poder. Sem falar, claro, do populismo.

Os quatro desafios seleccionados pela Reuters tinham que ver com o clima, o comércio, a habitação e a desigualdade do género.

As alterações climáticas parecem ser o problema mais sério e urgente para 62% dos que responderam. O comércio internacional, que inclui os conflitos comerciais em curso, ficou em segundo lugar, mas apenas com 19% das respostas. Seguiram-se o acesso a uma habitação condigna (12%) e a questão da desigualdade entre os homens e as mulheres, com 7% das respostas.

Se fosse forçado a escolher, qual seria a resposta, de entre as quatro opções em cima da mesa?

 

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