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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Você disse "ordem liberal"?

Não entendo o que querem dizer certos intelectuais, quando falam da “nossa ordem liberal” e que esta estaria a ser atacada em vários países da União Europeia. Liberal é um conceito americano, para caracterizar quem é mais progressista, perante a massa conservadora, tradicionalmente Republicana.Na Europa, liberal é uma espécie de filosofia política, mal definida, mas que pretende indicar uma opção por governos menos intervenientes nas esferas económicas e sociais. Mas, fora de tudo isso, a “ordem liberal” é o quê?

Para além da resposta que possa ser dada, quero desde já acrescentar que o que me interessa é a democracia, a liberdade de opinião, o respeito pelas minorias, o equilíbrio de poderes, o bom funcionamento das instituições e a existência de uma sociedade civil dinâmica e diversa. É por essas bitolas que meço a qualidade da governação em cada um dos Estados da UE.

Chamo a isso democracia participativa, por oposição à democracia de fachada. É a democracia participativa que está sob ameaça em vários países europeus. A democracia de fachada utiliza o voto popular, manipula as eleições, infiltra a comunicação social, para garantir a perenidade de alguns dos nossos pequenos ditadores e das suas cliques de clientes.  

 

 

 

A justiça e a política

Não podemos ser a favor de um Estado de Direito e, em simultâneo, pensar que a política está acima das leis, das regras jurídicas e dos mecanismos de administração da justiça. A política deve ser feita dentro de um quadro legal claramente definido. E os políticos têm que estar conscientes que, se pisam a linha da ilegalidade, deverão ter que prestar contas. Essa prestação de contas far-se-á perante juízes devidamente mandatados para o fazer. Quando isso acontece, não se poderá falar de judicialização da política. Dever-se-á, isso sim, dar graças ao sistema que temos, que permite colocar perante um juiz um político que, de uma maneira ou outra, abusou do mandato democrático que lhe foi concedido.

Tudo isto pressupõe, como é fácil de entender, que existe uma magistratura independente, competente e auto-disciplinadora. Para a saúde da democracia, é fundamental que os juízes tenham um estatuto que os proteja, uma preparação adequada e mecanismos próprios para limpar, no seu seio, o trigo do joio.

 

 

Complexidade é o nome dos tempos de hoje

A minha palestra de hoje em Lisboa, na PASC-Casa da Cidadania, foi sobre “geopolítica, ameaças e resposta cidadã”.

Falei sobre a sociedade civil e a sua capacidade de influenciar a agenda política, dei várias exemplos concretos, do #ClimateStrike ao #UmbrellaMovement de Hong Kong, passando pelo Sudão e a Rússia. No essencial, nesta parte da conversa, o objectivo era demonstrar que muitas das grandes mudanças políticas tiveram na base movimentos cívicos.

Depois, referi os grandes acontecimentos da década em curso, acontecimentos que influenciaram de modo determinante a agenda internacional. Comecei pela Líbia de 2011 e acabei com o lançamento pelo Facebook e mais 26 parceiros da Libra, que teve lugar a 18 de junho passado.

Foi então altura de falar do reequilíbrio dos poderes mundiais e da natureza dos novos conflitos, incluindo o novo tipo de armamentos.

Para fechar o debate que se seguiu, pedi aos participantes que evitassem respostas simples e lineares a questões complexas. Estamos num momento em as fontes de poder são variadas, não se limitam apenas ao controlo do Estado, das redes sociais, da banca ou das indústrias de armamento. Dar uma resposta simples a um período particularmente complexo da nossa história humana seria fazer o jogo dos populistas.

 

 

Os Estados Unidos e a China

O que está a acontecer entre os Estados Unidos e a China marca um ponto de viragem no sistema das relações internacionais. É o início de uma outra época histórica.

Muitas lições estão a ser tiradas deste conflito. O impacto far-se-á sentir em vários domínios, não apenas no comercial ou bolsista. O paradigma estratégico está a mudar. Profundamente.

Do lado chinês, as decisões americanas não serão esquecidas, mesmo se mais tarde houver um entendimento bilateral na área do comércio.

Do lado americano, cabe aos cidadãos e ao Congresso decidir como responder às decisões tomadas pelo Presidente.

Espero que do lado europeu também se reflicta sobre o que tudo isto significa e se tenha em conta o princípio que hoje o fogo está na casa do vizinho, mas amanhã poderá chegar à nossa.

O poder e os Jogos

A abertura oficial dos Jogos Olímpicos de Londres foi um espectáculo invulgar, com momentos geniais, particularmente em termos da encenação. Feito para deslumbrar o mundo e voltar a sublinhar que Londres tem aspirações universais - quer aparecer como uma cidade capital global -, foi um verdadeiro sucesso. Apenas a rainha destoou um pouco, pois parecia exausta e pouco animada perante uma festa de proporçõesúnicas e de importância vital para o seu país. É, de facto, a altura de ver Elizabeth II passar o facho...simbólico... que detém há 60 anos. De qualquer modo, um reino tão longo já merece uma medalha de ouro...

 

Perante o investimento feito pela Grã-Bretanha, fica-se com a impressão que organizar os jogos vai custar cada vez mais caro. Compreende-se. É a corrida pelo prestígio. É uma manifestação de poder e o poder não fica barato.

Qual é a mensagem?

Recentemente, num jantar de gente com poder -- e que por isso se considera muito importante -- o orador principal, Javier Solana, dizia que a comunicação entre as elites e as massas está emperrada, não se faz com clareza. Cada um vive, segundo afirmou, no seu círculo, sem verdadeiro diálogo e transmissão de ideias entre eles, sem se ouvirem. E falava, então, da necessidade de utilizar as redes sociais, como meio de comunicação. Ele próprio é um activo utilizador do twitter. 

 

A verdade talvez seja mais complexa. Não é apenas a questão dos meios que está em causa. Ainda hoje vi, durante uns curtos minutos, por não ter paciência para mais, um debate entre eurodeputados transmitido pela BBC World: o meio de comunicação, um canal de televisão com prestígio, era óptimo, mas a conversa era pura e simplesmente banal e confrangedoramente pobre de espírito. Ou seja, a questão dos conteúdos é fundamental.

 

As pessoas estão hoje mais informadas do que nunca. Quando um político procura comunicar com os simples mortais que nós somos, tem que ter algo para dizer, uma mensagem, um ponto de vista, uma perspectiva nova, numa linguagem directa e verdadeira. Se não proceder assim, ninguém tem tempo e disposição para o ouvir. 

 

E os políticos aproveitam os jantares nos palácios do poder de outrora para se lamentarem. Quem tem pena deles?

 

 

Haja vida

Um observador atento voltou a Lisboa há dias e diz-me agora, com muita pena, que achou as pessoas deprimidas, tristes, como quem carrega a crise às costas. 

 

Um ambiente de vencidos da vida e de descorçoados não leva a parte alguma. Só agrava a situação. 

 

Como tantas vezes o tenho dito, há aqui um sério problema de liderança.

Uns vizinhos temporários

Durante três dias, de Sexta até hoje, milhares de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus, encheram o estádio do Belenenses. Gente bem posta, com uma paciência evangélica, chegaram, cada dia, por volta das 08:30, para deixar o local cerca das 18:00 horas. Vinham às famílias, quase todos em carros particulares em bom estado.

 

As entradas do estádio eram controladas pela segurança da Igreja, tudo muito certinho e sem falhas aparentes. 

 

Foram meus vizinhos temporários. De vez em quando, olhava da minha varanda e lá estavam eles todos sentados, muitos ao Sol, cheios de fé e de calor. Eram uma paisagem humana interessante, uma curiosidade, num bairro de Lisboa que não tem grande animação de rua. O que fizeram, durante tantas horas, não sei dizer.

 

Aliás, eu nada sei sobre esta seita, para além do que é público. Mas nota-se que têm dinheiro, embora não creio que tenham poder. 

Violências contra as mulheres

 

As mulheres e as raparigas, nesta parte do mundo onde me encontro, são vítimas de violências quotidianas. Apesar da legislação o não permitir, os maus tratos, as violações, a negação dos direitos mais elementares, os casamentos em idade precoce, incluindo os que resultam do uso da força e são feitos contra a vontade das raparigas, a poligamia e a miséria, tudo isto acontece por todo o lado, à vista de todos.

 

Para agravar a situação, a mortalidade durante a gravidez e o parto faz presença na história diária de muitas famílias. Os números são impressionantes.

 

Hoje lançámos no Chade uma campanha para combater estas duas tragédias. Todos prometeram contribuir para o sucesso da campanha. Mas a cabeça das pessoas é complicada, demora tempo a mudar. Por outro lado, as instituições de saúde pública e os serviços sanitários funcionam mal, sem recursos e com muita fuga de meios para fins ilícitos.

 

Enquanto estava na cerimónia lembrei-me que em Angola e em S.Tomé, por influência do país grande, os homens do poder e os ricos andam agora à procura das "catorzinhas". Ou seja, de parceiras muito tenras, que o homem do poder é um lobo mau.

 

Catorze anos!

 

Quando se pensa que se avança, saem uns asneirentos a fazer das suas. Mas enfim. Vamos acreditar nas duas campanhas que hoje começam a ser levadas à prática.

 

 

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