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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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A mediação é a melhor solução

https://www.dn.pt/opiniao/mais-e-melhor-mediacao-em-tempos-de-conflitos-14219425.html

Deixo acima o link para o meu texto de hoje no Diário de Notícias. 

O texto procura transmitir duas mensagens. Uma, sobre o poder. Convém negociar com quem tem na verdade poder. A segunda, é sobre o mediador. A mediação só pode dar resultado se o mediador for credível. Menciono quatro características que, se existirem, permitem ao mediador ter credibilidade.

Transcrevo, se seguida, o último parágrafo do texto. 

"Um outro aspeto crítico diz respeito à autoridade do mediador. A credibilidade em política resulta da combinação de quatro características primordiais: espírito de missão, realismo político, equilíbrio de opiniões e confiança em si próprio. Vários mediadores nomeados nos últimos anos pelas Nações Unidas têm mostrado não possuir esse conjunto de qualidades. Por tendência, Nova Iorque presta mais atenção aos jogos regionais, à obtenção de apoios políticos em certos quadrantes, no Conselho de Segurança ou junto de Chefes de Estado influentes na região em causa, do que à experiência e personalidade dos nomeados. Daqui resulta uma certa marginalização da ONU e um esbater da sua imagem.  Durante o segundo mandato, António Guterres deverá empenhar-se na resolução desta debilidade. O reforço da capacidade de mediação deve ser uma das áreas prioritárias de um tempo que se advinha fértil em conflitos. Assim o clamam, diariamente, muitos milhões de pessoas vítimas de violências políticas ou à beira da ravina."

Ainda sobre a eleição em Lisboa

Um erro frequente em política é o de subestimar os adversários. Dir-se-ia que Fernando Medina cometeu esse erro, nestas eleições autárquicas. Ter-se-á deixado embalar pelas sondagens, que o davam largamente vencedor.

Não se percebe bem como foi possível ter sondagens com resultados tão enganadores, mas aconteceu. E o presidente cessante deve ter acreditado nelas, como aliás seria de esperar.

Temos aqui uma segunda lição, para além da que se refere ao erro de subestimar a competição. Essa segunda lição é que não se deve dar demasiado crédito às sondagens. Mesmo sabendo que a maioria das sondagens são hoje feitas com base em técnicas comprovadas, é fundamental continuar a lutar por cada voto, procurar convencer cada eleitor, mostrar que não se acredita em favas contadas.

Uma terceira lição diz respeito à arrogância. Cada candidato deve mostrar que se sente à vontade, que não se deixa levar em ondas de entusiasmo, que está ali para ser eleito e não para ser consagrado. A arrogância, verdadeira ou vista como tal, faz perder votos. É muito mal-aceite pelos cidadãos. Nos tempos da sociedade digital e do individualismo que daí nasce, cada eleitor vê-se como igual aos outros, incluindo aos candidatos. Não quer ver e não apoia quem se sente acima do cidadão lambda, do cidadão comum, do meio da escala.

Liberdade e democracia

Não se pode confundir a democracia com a liberdade. Podemos ser livres de dizer seja o que for, mas se a democracia não funcionar a sério, a nossa voz nunca será ouvida pelas elites que detêm o poder. Seremos, como muitos o são nos dias de hoje – e as manifestações de rua contra tudo e mais alguma coisa são uma demonstração do que quero dizer – uns frustrados livres. A falar para o vento que passa. 

A democracia é sobre o exercício do poder, a prestação de contas, o serviço do bem comum, a representatividade dos diversos interesses que existem numa sociedade. 

A liberdade é sobre a expressão de pontos de vista, a manifestação de opiniões, a aprovação ou a crítica do poder, sem que tudo isso traga consequências negativas. 

Ambas são fundamentais. 

A arte do engano

Os meus escritos sobre a situação no Afeganistão têm suscitado muitas reacções. O tema interpela muita gente. Por duas razões, segundo vejo. Primeiro, pela derrota que os EUA parecem ter sofrido. A política externa americana é um assunto que deixa poucos dos meus leitores indiferentes. Em geral, as suas posições são muito críticas. Segundo, por causa dos Talibãs e do que significa viver-se numa sociedade dirigida por gente que lê o Corão com os olhos do século VII. Também há alguma surpresa perante a maneira como se têm comportado até agora em Cabul. Mas atenção, uma das artes da nova liderança talibã é a de saber manejar a arte da duplicidade. Se há algo que seja novo nesta versão actual desses radicais é isso, essa maneira de saber trabalhar politicamente com o engano.

Ainda sobre a reflexão prospectiva

Depois do escrito de ontem, que discorria sobre o que significa olhar para o futuro, queria acrescentar algo mais. Mantenho que pensar sobre o futuro, ver quais são as opções possíveis e qual poderá parecer a melhor, exige uma imaginação apurada e ideias claras sobre o contexto. Também se baseia em muitos anos de experiência profissional, anos de acção e de confrontos diversos, vividos em realidades muito distintas umas das outras.

Ou seja, sem imaginação e experiência que vá além do que se poderá ler nos textos académicos, é difícil propor cenários prospectivos, traçar linhas de conexão entre as diferentes peças do xadrez.

Olhar para o futuro

Escrever umas linhas quando se está fora do ambiente normal, não é nada fácil. Como também não é fácil responder ao telefone, para ser solicitado para falar sobre o Afeganistão. Respondi que poderei falar, mas não sou um académico. As minhas intervenções públicas são sobre a formulação de linhas políticas, não para fazer o historial que outros já fizeram, alguns deles com muita informação. Contar a história é um exercício de estudo e de memória. Pensar no futuro é um exercício de imaginação, que exige igualmente ideias claras sobre o contexto e o que está em jogo.

O que aí se escreve e diz

O analista que conta, que acrescenta valor, é o que consegue ver a árvore para além dos ramos e das folhas e, depois, procede à inserção da árvore na paisagem. Quem não compreende a árvore e a paisagem, incluindo a que está para além do horizonte, não acrescenta nada de útil. Está apenas a discorrer sobre o que parece óbvio, mas que não é necessariamente a essência da matéria. Em política, a intenção esconde-se muitas vezes na ramagem dos factos e na repetição de narrativas que tocam apenas na superfície das coisas.

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