Portugal é grande quando abre horizontes

18
Nov 19

 

Não sei se é por estar em convalescença, ou por causa do tempo cinzento e frio, mas estes dias considero que a política portuguesa se transformou numa grande maçada. Não há nada de novo, é a rotina habitual, com a falta de visão que nos caracteriza. Somos pequeninos nas ideias e nas ambições.

 

Fico mesmo a matutar como é possível aos comentadores políticos do costume arranjarem temas para escrevinhar. Depois, percebo que continuam a rabiscar frases, uns sobre os outros, e a discorrer sobre as idiotices dos últimos tempos. Provavelmente ninguém os lê, nem mesmo os reformados que matam as horas do dia em frente dos ecrãs dos seus computadores.

 

Há falta de ideias mas não há falta de quem comente. Parece-me, aliás, que cada vez há mais comentário, que, sendo produzido a título gratuito ou muito mal pago, é escrito em cima do joelho, a despachar, mas sobretudo à espera da sorte grande. Mas esta está reservada para uma meia dúzia, que pouco acrescentam à inovação do pensamento que por aí aparece. Têm, todavia, os contactos que o pretenso sucesso exige. Dão nas vistas, porque sabem como navegar nestas nossas águas pouco profundas.

 

No país, o que conta são as redes de amigos e de compadres, não o mérito. Acho bem, pois assim é fácil de perceber como se consegue vencer na vida.

 

E haja conversa.

 

 

 

publicado por victorangelo às 19:49

09
Nov 19

A luta política portuguesa ainda está debaixo da influência de escolas de pensamento totalitárias. Em ambos os lados, à esquerda e à direita, não estamos preparados para aceitar outros pontos de vista, para ver qualquer tipo de mérito nas opiniões de outras famílias políticas.

A maioria dos defensores das ideias de esquerda vê as outras correntes de opinião como inimigas do povo. Só eles é que têm razão, cada um na sua capela ideológica e entre os seus fiéis amigos. Se tivessem o poder, um poder absoluto, praticariam aquilo que Estaline e outros praticaram, quando se tratava de lidar com pessoas com um pensar diferente. Talvez a uma escala menor, que nós somos uns meia-tigelas, mas o princípio seria o mesmo: esmagar quem não pertence à nossa família política.

À direita, também se faz política assim. Os adversários são vistos como inimigos e os inimigos só podem ter um destino.

A intolerância e a incapacidade de dialogar e de chegar a compromissos têm muitos adeptos entre nós. Fomos formatados pelo fascismo e pelo outro lado da medalha, pelas ditaduras que invocavam em vão a classe operária e o proletariado. Ou seja, a nossa cultura política é uma cultura que procura excluir e derrotar, em vez de construir e harmonizar. É uma maneira de ver que não deixa espaço para um equilíbrio de interesses e para uma inclusão inteligente dos cidadãos, sobretudo daqueles que menos sabem de política e que, por isso, andam mais indefesos.

Toda esta intolerância revela uma grande imaturidade política. Sobretudo, ao nível de quem manda na política, dentro ou fora do governo, nos jornais, nas assembleias, na praça pública. Os actores políticos são infantis, apenas pensam na imagem da sua pessoa e na maneira de bater nos outros, forte e feio.

Há aqui uma revolução cultural que precisa de ser levada a cabo. O problema é que não vejo como se pode iniciar o processo.

 

publicado por victorangelo às 16:32

03
Nov 19

Por vezes, é necessário chover no molhado. Assim, volto ao tema de ontem. E digo que se fosse o Primeiro Ministro deste país teria instruído o Secretário de Estado da Administração Interna que tem a pasta dos bombeiros para que fosse a Borba, numa expressão de solidariedade para com os bombeiros da terra. A violência de que foram vítimas não pode ser vista como um mero acto de polícia, como o fulano que tem o título de Ministro da Administração Interna parece querer dizer. Estas coisas têm um grande significado político. Por isso, para além da dimensão justiça, tem que haver um gesto político, equilibrado, é verdade, mas inequívoco. Se isso não acontecer, está-se a cometer um erro. E a faltar ao respeito aos voluntários que compõem a maioria das nossas corporações de bombeiros.

publicado por victorangelo às 20:05

30
Out 19

Quando uma parte da elite intelectual se entretém com reflexões sobre um homem de saias, podemos ter a certeza que algo está muito mal, neste nosso pequeno canto do mundo. Rimos e espraiamo-nos na parvoíce, como se procurássemos fazer chorar as pedras da calçada. Uma boa fatia da nossa classe intelectual é, pura e simplesmente, bacoca.

publicado por victorangelo às 19:32

11
Out 19

O novo governo de António Costa vai seguir uma política de equilíbrios, à esquerda e à direita. Tem habilidade para o fazer. A questão que resta é a de saber se certas medidas de fundo, que têm sido constantemente adiadas, serão ou não postas na agenda governativa dos próximos anos. Por exemplo, a desburocratização e a capacidade de resposta da administração pública, a política do mar e das águas interiores, o apoio à economia digital e do ambiente, a reforma dos serviços de segurança e de ordem interna, a justiça, e outros que tantos. Ou se a habilidade diz apenas respeito a uma navegação em mares pouco profundos. Com a linha de costa à vista.

publicado por victorangelo às 20:17

03
Out 19

Nunca estive com Diogo Freitas do Amaral. Nem mesmo no ano em que ele presidiu à Assembleia Geral das Nações Unidas. Eu era, na altura, Representante Residente da ONU na Tanzânia e os meus contactos profissionais faziam-se com o Secretariado-geral e com a Administração do PNUD e das Agências, tudo muito distante do que eram as funções de Freitas do Amaral. Segui, no entanto, de longe, a sua presidência, que decorreu com dignidade, equilíbrio e de maneira a honrar o nome de Portugal.

Também não tive qualquer tipo de afinidade social, ideológica ou política com ele.

Porém, hoje, no dia do seu falecimento, quero deixar aqui uma palavra de respeito pela contribuição excepcional que Freitas do Amaral deu à construção da diversidade democrática no nosso país. Sem esquecer, claro, o seu papel enquanto professor catedrático de direito, incluindo em matérias de doutrina e jurisprudência.

Obrigado é a palavra que se impõe, neste dia final.

publicado por victorangelo às 21:27

02
Out 19

Ao ver o que por aí aparece como sondagens, dir-se-ia que António Costa tinha a vitória nas mãos e que, entretanto, se descuidou e a deixou voar para outros destinos. O que era há umas semanas um debate sobre “uma maioria absoluta” – debate esse que até deu azo ao aparecimento de um manifesto de figuras mais ou menos públicas a lembrar que uma maioria absoluta do PS seria um desastre para as políticas da esquerda radical, que esse grupo de certo modo representava – transformou-se agora num desenho de cenários de possíveis alianças na Assembleia da República.

A descida do apoio ao PS poderia ser melhor aproveitada pela campanha de Rui Rio. Mas como não há visão, o aproveitamento é feito de modo simplista, muito à volta do que aconteceu ou não em Tancos. Ora, haveria, isso sim, que insistir na tecla de um PS refém do Bloco de Esquerda, após as eleições. E bater nessa tecla de modo a mobilizar para o PSD o voto de todos os que, incluindo dentro do Partido de António Costa, não gostariam de ver uma segunda edição da geringonça. Uma edição que agora teria o seu centro de gravidade na agenda do BE e não na moderação que Costa soube mostrar ao longo dos últimos quatro anos.

Claro que digo isto apenas como ilustração. Não me cabe fazer a estratégia eleitoral de Rui Rio. O que escrevo é apenas para mostrar como trabalham os que andam nos jogos de estratégia e não os que apenas tentam cavalgar a onda que passa.

 

publicado por victorangelo às 21:34

30
Set 19

O funcionamento das instituições e da máquina do Estado deveria ser um tema central da campanha eleitoral. Infelizmente, não é. Não há quem fale no desempenho dos serviços públicos, quem apresente uma visão clara sobre qual deve ser o papel do Estado, ou proponha um novo tipo de complementaridade entre a administração central e a autárquica. Ora, o sector público precisa de levar uma grande volta, ao mesmo tempo que se reconhece quão importante é, num país como o nosso.

 

publicado por victorangelo às 22:10

26
Set 19

A parte “justiça” do caso de Tancos não deve, na verdade, ser comentada. Um número de indivíduos foi constituído arguido, acusados de vários crimes. Cabe agora à administração da Justiça tratar desses casos, um a um. A única observação que se poderá fazer é para rogar que os processos avancem rapidamente, tendo em conta a natureza dos crimes imputados e o tipo de instituição que está no centro da questão. Certos brados são uma ilusão, reconheço, mas devem ser feitos, apesar de tudo.

Mas existe uma parte política, que não pode ser escondida por detrás do biombo da justiça. Essa parte levanta muitas interrogações. Devem ser esclarecidas. A lista dessas interrogações inclui: a responsabilidade política; o funcionamento e a circulação da informação nos órgãos de soberania directamente ligados ao assunto; a responsabilidade militar, de quem mandava e estava na linha de comando; a performance, a disciplina e a motivação de algumas secções do Exército, o que isso implica e exige como medidas de correcção; o sistema de valores que impera em certos círculos com autoridade e que terá levado alguns dos arguidos a pensar que o caso seria abafado pelos grandes do reino.

Só estas questões já dariam pano para muitas mangas, se houvesse uma vida partidária capaz de ir além do nevoeiro mental.

publicado por victorangelo às 19:37

17
Set 19

Na minha opinião, o debate político das próximas semanas deveria opor os que apenas procuram gerir a situação, com mais ou menos folgas, mais ou menos simpatia e sorrisos, aos que poderiam ter um projecto para Portugal. Um projecto que nos levasse além da mediocridade, do deixar andar e do salve-se quem puder. Que pensasse no futuro, nas bases de uma economia mais moderna e sustentável, na protecção dos recursos naturais e do ambiente, num povo melhor preparado e com maior capacidade de intervenção cidadã, numa língua portuguesa que não fosse aviltada por uma incapacidade de a defender, num país mais seguro e mais amigo dos mais fracos. Também, um país mais capaz de contribuir para o fortalecimento da União Europeia e para o reforço da cooperação e da harmonia internacionais.

Só que isso parece um sonho. O debate político continua a ser entre gestores de contas correntes.

 

 

publicado por victorangelo às 21:10

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