Pessoa amiga chamou-me a atenção para o discurso proferido pelo Cardeal D. José Tolentino Mendonça na cerimónia do 10 de Junho de 2020. Esse discurso está disponível no You Tube. São 22 minutos de reflexão sobre a nossa condição de portugueses. Foi pensado com um espírito positivo e uma visão generosa do que podemos ser. Por vezes é um pouco lírico, mas vale a pena ouvi-lo. O Senhor Cardeal representa o que de melhor existe entre os nossos intelectuais. Comparar as suas palavras com as dos comentadores do costume é como contrastar um dia de Sol com uma tarde feia de neblina e sem visibilidade.
Para certas cabeças, a História é tão incerta como o futuro. Pode mudar quando mudam as relações de força numa determinada sociedade, quando acontece uma reviravolta profunda ao nível de quem está no poder ou quando o relato do passado precisa de ser contado de outra maneira, para dar legitimidade a quem acaba de conquistar a liderança. O exemplo mais frequentemente citado é o relativo ao Partido Comunista da União Soviética. A narrativa histórica foi sendo modificada à medida das alterações radicais na composição do Bureau Político. Personagens desapareciam, os factos eram narrados de outra maneira ou suprimidos, o que fora positivo no passado passou a negativo ou foi esquecido, e vice versa. No todo, quando Gorbachev chegou ao poder, nos anos 80 do século passado, já se estava na terceira versão da história da União Soviética. Um amigo meu, homem que tinha as suas raízes familiares na vizinhança do Kremlin, no sentido figurado, para dizer que vinha de uma família que havia beneficiado do regime, embora não estivesse no centro das decisões, costumava dizer-me que a História é imprevisível.
Lembrei-me disto, agora que vejo uns vândalos e uns intelectuais de meia tijela empenhados em julgar o passado com os olhos dos extremismos de hoje e dos radicalismos com que sonham. Lançam-se às estátuas e aos personagens do passado com a mesma estreiteza com que vêem a política do presente. Perante isso, há que dizer-lhes que não. Que destruir ou danificar representações do passado não é um acto político, mas sim um crime. Que atacar o Infante D. Henrique ou outra personagem de outrora, com toda a cegueira que caracteriza os primários da nossas cenas políticas de agora, é pôr em causa os genes históricos e sociais que nos definem.
A História deve ser interpretada. À luz do seu tempo, porém. Mas não é para escaqueirar nem para servir os populismos e as modas do tempo presente.
O meu amigo passa os dias a dizer que somos os melhores do mundo. Respondo-lhe que isso é populismo barato. Não contribui um grama ou milímetro que seja para a resolução dos nossos problemas. Também não nos ajuda a ter uma visão mais equilibrada da nossa intervenção fora de casa. No fundo, andar a espalhar essa pretensão faz de nós uns meros bacocos. Badalamos o sino, olhamos para a nossa capela e acreditamos que estamos a competir com a Sistina.
A verdade é que uma aldeia de simplórios não voa muito alto. Sobretudo nestes tempos, que exigem muita argúcia.
O meu amigo presta-nos um mau serviço. Sendo quem é, poderia puxar-nos para a frente em vez de nos entreter com uma ilusão parola. Mas acha que fica melhor na fotografia se pintar um céu azul.
O gigante que estacionou esta manhã à minha porta tinha 17 metros de comprimento. Na sua viagem para Norte, viera cheio de pacotes de batata frita, produzida na região de Mafra e transportada para a Alemanha, para responder à procura interna desse país. Tudo bem português, mas escrito em alemão. Na volta para Portugal, o gigante levará na sua enorme barriga – uma maneira de falar – os meus pertences. Assim funciona o mercado comum. E só assim é possível transportar mercadorias a um preço competitivo.
O motorista trabalha nisto há 12 anos. Reside em Peniche e anda sempre para trás e para a frente. Conhece as estradas desta parte da Europa, incluindo as voltas que há que dar para que se evite os engarrafamentos à volta de Paris. Para além das estradas e das áreas de repouso, pouco mais conhece. Por isso, convidei-o a ver a vivenda que agora passou à minha história. Nunca havia entrado numa casa desse tipo. Ninguém vê nele a pessoa que está por detrás da função de motorista de pesos pesados. Creio que não se irá esquecer do convite.
Certos políticos inventaram agora a expressão “soberania industrial”. O Presidente francês utilizou-a esta manhã, com um sentido muito preciso: o Estado ajudará e financiará a empresa A ou B, na condição de que esta traga de volta para França as fábricas e as cadeias de produção que entretanto haviam sido montadas noutros países. Por exemplo, em Portugal, ou na Roménia, para mencionar apenas exemplos europeus. A intervenção veio a propósito da indústria automóvel, para a qual disponibilizou 8 mil milhões de euros de apoios estatais. Mas tem um intenção mais ampla. É o nacionalismo económico que a inspira. Curiosamente, o Presidente é um dos grandes defensores da União Europeia. Só que esta afirmação de hoje tem muito pouco que ver com uma Europa economicamente mais integrada.
A política é assim. Diz-se uma coisa aqui e o seu contrário acolá.
Entretanto, com estes apoios estatais maciços, que só os países mais avançados economicamente podem fazer, está-se a alargar o fosso entre os diferentes membros da UE. Uns, irão fazer da crise uma oportunidade para reorganizar as suas economias e desenvolver tecnologias de ponta. Outros, ficarão à espera de Bruxelas e dos fundos que de lá possam vir. Também isso entra em contradição com a intenção que está na base da criação do fundo de recuperação europeia. Sem esquecer que o fundo em questão ainda está longe de ver a luz do dia. Assim, os países com menos recursos vão ter que esperar. E quem espera e fica parado, deixa-se ultrapassar.
Fico surpreendido quando vejo que não se entende a gravidade da situação que temos pela frente. E mais ainda, quando não se entende a urgência da resposta e se pensa que os problemas serão resolvidos fazendo chover milhões e milhões sobre eles. Milhões que não passam, para já, de meras promessas, sem que se saiba como serão desembolsados, que mecanismos serão utilizados, quais serão os critérios de acesso e como serão definidas as prioridades.
Perante uma perspectiva assim, não podemos continuar a fazer política de grupinhos. É preciso uma estratégia nacional e europeia, uma comunhão de esforços e acção imediata.
Não podemos cair no racismo primário que alguns querem fomentar contra os chineses. A comunidade chinesa desempenha, no nosso país, como em muitos outros, um papel económico muito útil. Para aqueles de nós que não têm um grande poder de compra, as lojas que os imigrantes chineses abriram um pouco por toda a parte vendem artigos a preços acessíveis. Nalguns casos, são verdadeiros supermercados de todo o tipo de utilidades. Os seus donos são pessoas que não levantam ondas, que procuram um mínimo de integração nas localidades onde estão estabelecidos. Vi isso em várias vilas alentejanas, para não falar apenas das grandes cidades. Assim, não há razão para os ataques que vão aparecendo nas redes sociais nem para a disseminação de apelos grosseiros de boicote a essa comunidade. Espero que os meus amigos contribuam para evitar esse vírus que é a xenofobia.
Estamos convencidos, muitos de nós, que criticar mostra inteligência. Ora, isso depende. Muitas vezes, sim. E muitas outras, não. É apenas um repetir de ideias feitas, de julgamentos apressados. De conversa ligeira, ouvida nas televisões ou lida nas redes sociais.
Um dos temas que está na moda criticar é a União Europeia. Esta semana a crítica tem-se focalizado na resposta financeira à crise resultante do impacto do coronavírus, a resposta que foi aprovada pela Eurogrupo na passada quinta-feira. Já aqui escrevi sobre isso. Hoje, apenas pergunto a quem acha mal o que teria acontecido a Portugal, se o nosso país não fosse membro da zona euro? O dinheiro teria vindo donde? E a que preço? Da Casa da Moeda, com um valor que nem daria para pagar o papel e a tinta?
Também pergunto se esses críticos não notam que existe, apesar de todas as contradições e dos muitos preconceitos nacionais, que todos temos, uma preocupação de encontrar soluções? Não será a solução perfeita – o que é isso, nos dias de grande crise? – mas é a solução que resulta de um equilíbrio de políticas. Um equilíbrio que não é fácil de obter, mas que se procura conseguir. Não é fácil, porque os níveis de desenvolvimento dos países membros continuam a ser diferentes. Mas obtém-se, com mais ou menos dificuldades, porque é inspirado por uma ambição muito clara, que é a de manter a União e fortalecer os seus mecanismos de resposta às crises.
Creio ser politicamente errado continuar a atacar o governo holandês com a ferocidade a que estamos a assistir. Pode dar lucros e dividendos, na nossa cena política interna, mas não faz avançar o projecto europeu de um milímetro. Para mais, agora, que há um acordo que vale 540 mil milhões de euros, a que se juntam os 750 mil milhões que serão disponibilizados pelo Banco Central Europeu. É muito dinheiro e fácil de aceder. Cabe-nos saber aproveitar esses recursos com inteligência. É isso que a nossa população e a nossa economia esperam.
Atacar directamente os Países-Baixos e manter o silêncio perante o que se passa na Hungria, em termos de falta de respeito pelos valores democráticos europeus, parece-me má política.
Uma preocupação maior é a de salvaguardar o sistema económico nacional. Não podemos permitir que o confinamento, a suspensão de certas actividades, o trabalho ao ralenti, a crise epidémica, provoquem a destruição de tecido produtivo. Este tem que manter a capacidade necessária para arrancar de novo, uma vez passado o período crítico. Para que assim aconteça, será necessário continuar a injectar recursos nas empresas afectadas, de modo a que estas possam manter a ligação com os seus trabalhadores e um mínimo de actividade a partir da qual se fará a retoma.
Tendo presente o que outros estão a fazer, como por exemplo a Dinamarca, e as estimativas de custo conhecidas, estaríamos a falar, no caso português, de uma injecção financeira da ordem dos 20 mil milhões de euros, a repartir pelos próximos quatro meses. Esse montante permitiria pagar uma boa parte dos salários dos trabalhadores das empresas agora fechadas, manter as infra-estruturas operacionais e evitar o colapso em dominó do tecido económico. O Banco Central Europeu deveria ser a principal fonte desse financiamento.
O problema mais difícil de resolver é o da enorme dependência da nossa economia em relação ao turismo. A recuperação das viagens de lazer vai demorar algum tempo. O verão de 2020 parece estar agora muito comprometido. Não será fácil atrair grandes números de turistas enquanto durar a crise de saúde pública e na fase de recuperação económica nos nossos mercados de turismo. Mas isso não quer dizer que se baixem os braços. Tem que se fazer tudo o que for possível para que o sector reviva tão rapidamente quanto é desejável.
Quem manda deveria apresentar nos próximos dias um plano de recuperação da economia. Não se pode esperar por Junho ou Julho para lançar as bases do restabelecimento da vida produtiva.