Portugal é grande quando abre horizontes

05
Mai 19

Os professores estão no centro das atenções, uma vez mais.

A política portuguesa tem tido imensas dificuldades em tratar a questão do ensino, da sua modernização e o estatuto dos professores. É um problema que vem de muito longe e que tem repercussões profundas, quer no presente quer no futuro do país. Em vez de estratégia, tem-se sistematicamente recorrido ao oportunismo e ao tacticismo.

Temos aqui um dos problemas mais graves a que Portugal não tem sabido responder de modo equitativo e duradouro. Esta é uma das áreas da governação que necessitaria de uma reviravolta completa. E de muita coragem política bem como de um diálogo com a nação.

Entretanto, e apenas a título de curiosidade e de comparação, partilho alguns números relativos aos salários médios dos professores do ensino secundário na Bélgica. Trata-se de valores pagos a quem tem todas as qualificações académicas para ser professor. E deve notar-se que o custo de vida na Bélgica é mais elevado do que em Portugal.

Assim, ao fim de dez anos de serviço e com um horário completo que são 22 horas de aulas por semana, um professor recebe como salário mensal líquido – 12 vezes ao ano, não existe um 13º mês – entre 2410 e 2600 euros.

Completados trinta anos de carreira, esses valores mensais oscilam entre os 3120 e 3650 euros líquidos, segundo a região do país e o estatuto da escola. Na Flandres, os valores são em geral mais elevados.

Em termos de férias escolares, a média é 71 dias por ano civil.

Uma carreira completa, em termos de direito à reforma, exige 41 anos e 3 meses. Isto significa que a idade legalmente prevista para a reforma andará nos 63 anos, no mínimo. Mas há bonificações que podem reduzir um pouco esse patamar etário. O montante da pensão de reforma anda à volta dos 2000 euros líquidos por mês (12 vezes por ano). Mas atenção, existe um valor máximo de pensão oficial que um casal pode acumular, que não chega aos 3000 euros por mês, para a soma das duas pensões. Pensões acima desse valor correspondem ao somatório dos esquemas oficiais com sistemas privados. A preocupação fundamental é a de garantir a sustentabilidade do regime oficial de pensões.

 

 

publicado por victorangelo às 20:17

28
Fev 19

Professores, professores, estão novamente nos títulos dos jornais. Não me meto nessa luta. Mas, quando se trata do ensino, penso que andamos a ver tudo ao contrário. A fase mais importante da aprendizagem é a que corresponde ao ensino elementar, ao despertar da criança para a vida e para o conhecimento. É nessa altura que precisamos de professores de calibre excepcional. Que consigam transformar essa fase da vida das crianças num amor sem limites pela educação, a curiosidade intelectual e a criatividade. Os professores do ensino primário devem ter uma preparação muita avançada. A isso deve corresponder uma remuneração adequada e um estatuto social de grande prestígio.

publicado por victorangelo às 14:32

12
Jan 14

O Partido Trabalhista britânico está a ultimar o seu manifesto eleitoral com vistas às eleições de maio de 2015. A educação merece, uma vez mais, um lugar destacado na sua lista de prioridades. A Grã-Bretanha sabe que a sua importância na economia e na política mundiais está estreitamente ligada à qualidade do ensino.

 

Uma das medidas previstas no manifesto diz respeito à avaliação regular dos professores. A intenção é a de criar uma caderneta profissional que autorize os professores a exercer. Essa licença deverá, segundo a proposta, ser renovada cada cinco anos, após uma prova que demonstre que o professor se manteve actualizado e continua motivado para o exercício da função.

publicado por victorangelo às 21:56

17
Nov 13

A prova de avaliação que o governo quer impor aos professores que ainda não pertencem ao quadro das escolas estão marcadas para 18 de novembro. A classe professoral está contra essa medida e resolveu decretar uma greve geral e mais outras manifestações de desagrado.

 

Não me cabe fazer aqui um comentário sobre o assunto. Quero, no entanto, contar o que me aconteceu há uns anos e que tem, no fundo, algo de semelhante.

 

Em 2002, estava colocado no Zimbabué como representante da ONU. Tinha uma pasta bastante complexa, que misturava desenvolvimento, coordenação humanitária e responsabilidades políticas. Era, nessa altura, um dos representantes com mais experiência e senioridade, com competência demonstrada em vários sítios enquanto chefe de missão. Tinha, como poucos, um vínculo permanente com a organização. Isso não impediu Nova Iorque de me aplicar uma regra que havia sido iniciada uns anos antes – eu havia sido um dos promotores desse princípio, mas que na altura só se aplicava aos novos representantes. A regra era simples. Tinha que passar por um exame de avaliação, como todos os outros o já haviam feito.

 

Protestei, fiz valer os meus galões de D2 (director sénior). Em vão. Lembraram-me que eu era dos raros que ainda não haviam passado por esse teste e que tinha que o fazer, sem mais discussão.

 

E lá foi marcada a coisa. Só que o teste era um teste a sério, feito por uma empresa do Canadá. Passava-se em Londres e decorria de um domingo à tarde até quinta-feira ao fim do dia. Era um exercício complicado, que misturava jogos de liderança com análises de casos concretos, simulações de entrevistas na televisão com um profissional da matéria, e duas ou três apresentações públicas.

 

Perguntei o que me aconteceria se não tivesse sucesso no teste, no entender da empresa que me avaliava. A resposta foi clara: a sua carreira de representante da ONU termina aí!

 

Assim mesmo!

E mais. Havia dois ou três escalões de classificação positiva e, em virtude do meu nível, teria que ficar no primeiro. Essa era a única expectativa possível.

 

Devo confessar que o teste foi extremamente difícil. Cheguei a Londres no domingo de madrugada, depois de uma noite a voar de Harare para o destino. Como o primeiro briefing do teste só tinha lugar às 17:00 horas, resolvi aproveitar a manhã e o começo da tarde para ir visitar a minha filha mais nova, que estudava então na Universidade de Bath. Quando voltei, tinha à minha espera a primeira etapa: ler cerca de 200 páginas de documentos confusos e intragáveis, para poder responder, ao começo da manhã seguinte, por escrito, a três ou quatro questões de fundo.

 

Passei o serão e uma boa parte da noite de volta dos papéis.

 

No final, depois de bem avaliado pelo júri, disseram-me que afinal eu entrava no primeiro escalão dos competentes. Que alívio! E que surpresa, acrescentei eu, pois há cerca de uma década e meia que eu, na prática, já estava entre os mais conceituados.

 

Atenção: dos quatro colegas do meu grupo, dois não passaram.

 

É que isto das avaliações tem que se lhe diga.

publicado por victorangelo às 20:13

17
Jun 13

Um leitor amigo diz-me que é preciso manter o optimismo. Creio que tem razão. É preciso acreditar que o futuro será melhor que o presente.

 

Mas não é fácil. O presente está um caos.

 

Ainda hoje lia na imprensa diária que os prédios da Avenida de Roma e da João XXI estão a ser sistematicamente assaltados, para roubar os metais das entradas e os candeeiros e lâmpadas dos corredores. E alguém me dizia que na Barra Cheia, na zona rural da Moita, as casas sem gente durante o dia são alvos sistemáticos dos gatunos. Segundo parece, até os umbrais das janelas levam.  E agora, um conhecido telefona-me para dizer que ontem parou no centro do Porto Covo, uns quinze minutos, o tempo que demorou a tomar um café. Ao voltar ao carro, tinha o vidro partido e a viatura arrombada.

 

Isto para mencionar coisas que tocam de muito perto ao cidadão comum.

 

Também é verdade que muitos dos cidadãos comuns estão sem emprego. Isto talvez explique uma parte importante da coisa. Mas será explicação suficiente?

 

Quem me ler vai pensar que esta divagação pelas questões da segurança quotidiana está fora da agenda, num dia em que a notícia foi a greve dos professores. Porém, sobre esse assunto já se escreveu muito. Incluindo sobre o medo de perder o emprego, um receio cada vez mais frequente, e que certamente esteve na mente dos muitos que hoje “faltaram à escola”.

 

publicado por victorangelo às 21:08

26
Jan 13

No dia de uma nova manifestação de professores, lembrei-me que um lente da Universidade de Évora me disse, esta semana, que a maioria dos seus alunos escreve em português com erros atrás de erros e que, após ler umas linhas de um texto, é incapaz de explicar o que leu. Respondi que assim não se constrói futuro algum. O título universitário, uma vez obtido, corresponde a um diploma desvalorizado e incapaz de competir na praça global. 

 

A única vantagem de produzir diplomados assim é a de aumentar o número dos que se opõem à globalização...

publicado por victorangelo às 22:39

20
Jan 09

 

A greve dos professores, que ontem teve lugar, fez-me pensar numa escola secundária que visitei recentemente, muito longe do Centro Comercial Colombo. As autoridades locais e os professores tinham perfeita consciência das lacunas, mas, ao mesmo tempo, manifestavam uma vontade sem equívocos de fazer funcionar a escola.


Creio ser boa ideia partilhar algumas fotos com os leitores, para que se continue a ter uma perspectiva adequada da relatividade das coisas da vida.
 

 

 

Aqui se abriga o gabinete do director. O local serve igualmente de secretaria administrativa.


A bandeira nacional ficou fora da fotografia, mas flutua orgulhosamente no centro do recreio, a acenar para um futuro menos penoso.
 

 

Os bancos de uma sala de aulas. Aqui se aprende a ter ambições.
 

 

 

O tecto e as janelas. Deixam passar muita luz.

 

 

 Os alunos do Decimo Segundo Ano têm direito a carteiras. São os únicos.


O aproveitamento e' bom, a disciplina impecável, e os professores apenas se queixam do facto de ser necessário deslocarem-se 'a capital da região, a três horas de distância, para receberem os salários mensais.


Fotos Copyright V. Ângelo
 

publicado por victorangelo às 20:02

26
Dez 08

 

 
O incidente que ocorreu recentemente na Escola Secundária do Cerco do Porto, e cujo vídeo circulou na internet, imagens que falam por si,  com os alunos a apontarem uma pistola de plástico à professora e um deles à mover-se  à sua volta, com a pose de um boxista pronto a soquear, não é de modo algum " uma brincadeira de mau gosto ", como foi dito pela Directora Regional de Educação do Norte. Nem os alunos, na casa dos 17 e 18 anos, podem ser considerados, como quem desculpa,  " uns miúdos ". Mais, não é por serem de origem social modesta que não  devem ser responsabilizados.
 
É um caso de indisciplina grave e de intimidação e assalto moral e físico. A sociedade portuguesa não pode deixar passar estes casos em branco. Nem o sistema educativo pode tolerar este nível de agressão,  um comportamento que hoje começa nas escolas e amanhã estará a ser praticado na vida corrente.
 
É mais uma vez oportuno levantar a questão muito séria da disciplina e do respeito pela integridade física e moral dos participantes no sistema educativo, quer sejam professores, empregados ou os outros alunos. Queremos um Portugal onde haja respeito por todos.
 
Quando se tem a idade que estes alunos têm já não se é uma criança, nem se pode brincar com coisas sérias. A impunidade leva ao caos, à insegurança, à falta de um mínimo de  civismo. Quem, como eu, andou por esse mundo fora, percebe que fechar os olhos apenas conduz ao desastre social, à acumulação de problemas,  que a partir de determinada altura se tornam parte da estrutura da sociedade e, por isso, muito mais difíceis de resolver.
 
As sanções adequadas, que podem passar por condenação a trabalhos em benefício da  comunidade e por um registo provisório na certidão cadastral,  têm que ser impostas. É um caso de justiça e também de legalidade democrática.
 
Quem leva estas coisas com ligeireza, como a directora o fez, é um brincalhão muito perigoso. Que a senhora continue a ser  directora regional é outra " brincadeira " que o Ministério deverácorrigir sem tardar.
  
 
 
publicado por victorangelo às 20:38

12
Nov 08

Ontem fechei o país para descanso, mas o Alberto João aproveitou o feriado para classificar, por portaria transparente e verdadeiramente publicada no jornaleco local, os professores a leccionar na Madeira. Todos levaram pela mesma tabela, um Bom democrático.

 

A Madeira deu mais uma vez o exemplo da governação de portas escancaradas e mentes arejadas que gosta de praticar, brincalhona e inspirada pelo socialismo jardinês em que todos são iguais perante as portarias e as avaliações.

 

 

publicado por victorangelo às 22:00

09
Nov 08

Portugal precisa de mais diálogo social e político.

 

A manifestação pública dos professores, que ontem mobilizou a classe de uma maneira que impressionou todos os observadores imparciais, veio mostrar que há um défice de diálogo e de bom senso na nossa sociedade.

 

Não nos podemos ancorar a posições extremas, em que um lado tem toda a razão e o outro e' senhor de todos os erros. Não se constrói um país melhor assim, com posições inflexiveis e acusações mútuas.

 

É necessário encontrar um corpo de árbitros sociais, de gente sábia e independente, que ajude na resolução dos grandes conflitos sociais. 

 

O parlamento, cheio como esta' de gente do yes-man, não pode desempenhar esse papel. Os tribunais não têm vocação para esse tipo de conflitos. E os órgãos de concertação social andam a brincar aos sonâmbulos públicos, ou, por vezes, aos circos políticos.

 

Há por isso que criar um corpo nacional de voluntários de grande prestígio, personalidades que já fizeram a sua vida, dispostas a ajudar as partes em conflito a chegar a um compromisso, neste caso dos professores e noutros.

 

Ganharíamos todos.

 

publicado por victorangelo às 21:06

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