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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Ficar para trás

Por estupidez ou para fazer um jogo barato e enganador, há por aí quem diga que certos Estados membros têm como modelo de união monetária uma Europa de desigualdades, com níveis económicos diferentes. É falso.

Que existem diferenças, é um facto. Mas o objectivo tem sido, nomeadamente através dos fundos de coesão e outros, a promoção da convergência económica e social. Nalguns casos, a convergência ganha terreno. Por exemplo, na República Checa ou em Espanha. Noutros, ainda há muito caminho para percorrer. Para esses, com o tempo, o atraso acumula-se e em vez de haver convergência, há, isso sim, divergência. O que acaba por provocar novas tensões entre os Estados e dá espaço aos que têm como postura criticar a União Europeia, por tudo e por nada. Mas, quem é responsável por se deixar ficar para trás?

Os franceses são difíceis de governar, dizia De Gaulle

Segui cada palavra do Presidente Emmanuel Macron, que este serão se dirigiu aos franceses, para falar da luta que o governo e a nação estão a travar contra a pandemia. Falou bem e de maneira completa, não esquecendo nem a dimensão europeia nem a necessária solidariedade para com África. Mencionou igualmente as desigualdades sociais, que permitem a alguns passar um longo período de confinamento de modo mais aceitável ou dar a oportunidade aos seus filhos de melhor aproveitar as aulas à distância. Também procurou definir, tanto quanto é possível neste momento, uma perspectiva temporal, uma visão de como se irão passar as coisas nos próximos tempos.

O que a mim pareceu equilibrado e claro não foi bem aceite por metade dos franceses. Uma sondagem feita minutos depois da comunicação ao país mostrou antipatia e falta de confiança nas acções do Presidente. Apenas 41% dos eleitores acham que a resposta do governo à calamidade é adequada. Emmanuel Macron não consegue ganhar terreno para além das profissões liberais, dos quadros e de uma certa elite urbana. As pessoas comuns, o cidadão da baguete, não vê o Presidente como alguém próximo das preocupações populares. Esta crise poderia ter dado a volta a essa fraqueza política, mas não está a dar. É algo de preocupante, na medida em que as alternativas são populistas e ultranacionalistas. A França continua insatisfeita.

A direita em transformação

A direita política portuguesa, incluindo a sua versão extremada, está num processo de redefinição. Os principais protagonistas são o CDS e o Chega. A Iniciativa Liberal não parece contar, tem um cunho demasiado elitista e cheira a privilégios de gente da cidade grande. Não terá muito que ver com o que, por convenção, se apelida de povo. Os outros dois partidos têm um carácter mais terra a terra. Mas aí quem parece poder vir a ganhar mais terreno é o Chega. Tem muito mais protagonismo que o CDS. A isso, junta um discurso básico, anti-políticos profissionais e com umas boas pitadas de antagonismo contra certas minorias. Poder-se-á transformar num movimento Le Pen ou Salvini à portuguesa. A decisão do seu líder se candidatar às próximas presidenciais é mais um golpe político cheio de oportunismo. O candidato vai aparecer numa série de palcos, onde se poderá mostrar e fazer a propaganda que é a sua. Há que estar atento.  

Os extremistas estão a ficar ousados

O meu amigo António mora em Évora. É artista plástico e projecta, como muitos dos que praticam a sua arte, um ar de uma certa rebeldia. Fica-lhe bem, é uma expressão da sua criatividade e dá-lhe uma ar mais jovem, a ele que anda na mesma casa de idades que eu. Já tivemos menos rugas, é verdade. Mas a vida é assim.

O que não pode ser assim é o que ele conta na sua página do Facebook. Ontem à tarde, num supermercado da cidade, foi gratuitamente ameaçado por um jovem que disse não gostar de “comunas”, ou qualquer coisa desse género, e que berrou umas palavras a favor do nazismo. O António não o conhecia de parte alguma, nem andava a fazer propaganda partidária. Tinha ido, pacificamente, fazer umas pequenas compras.

Este tipo de agressividade é inaceitável. O extremismo, seja ele pró-nazi ou de qualquer outro tipo, é um problema social, para além de ser também uma questão política. Quando toma a forma de violência verbal e de intimidação, é um crime.

Aqui fica a minha solidariedade para com o António e o meu não a que tudo o que seja bestialidade em matéria de política.  

 

 

Holocausto, memória e presente

Neste 75º aniversário da libertação do campo de extermínio de Auschwitz, seria imperdoável não mencionar a data e o seu significado. 27 de Janeiro marca o dia da memória das vítimas do Holocausto. Lembra-nos que este horror, o genocídio dos europeus judeus e a execução em massa de muitas outras pessoas, aconteceu na Europa do Século XX e foi levado a cabo por gente que se achava superior aos outros. O racismo, o ultra-nacionalismo e a exaltação patriótica sem limites, a obediência cega, alimentada pelo mito da excelência da disciplina colectiva, a ditadura política, tudo isto levou o regime nazi alemão à loucura e à chacina de milhões de seres humanos.

Para além de tudo o que se possa dizer sobre o Holocausto, e da tristeza profunda que nos fica quando é evocado, a grande questão que levanto é a de procurar saber se algo parecido poderá acontecer na Europa do Século XXI. Não há resposta definitiva perante uma pergunta deste género. Mas deverá haver alguma preocupação. Os herdeiros ideológicos dos Nazis estão a levantar a cabeça, quer na Alemanha, quer noutros países europeus. Por outro lado, jovens radicais islâmicos, cidadãos de vários países europeus, têm levado a cabo acções de intimidação anti-semitas. O caso francês é o mais flagrante. Em certas localidades da periferia de Paris, em certos bairros de grandes cidades, os cidadãos franceses identificáveis como “judeus” sentem-se cada vez menos tranquilos.

Tudo isto é inaceitável. E deve ser dito com todas as letras.

 

A nossa maneira intolerante de fazer política

A luta política portuguesa ainda está debaixo da influência de escolas de pensamento totalitárias. Em ambos os lados, à esquerda e à direita, não estamos preparados para aceitar outros pontos de vista, para ver qualquer tipo de mérito nas opiniões de outras famílias políticas.

A maioria dos defensores das ideias de esquerda vê as outras correntes de opinião como inimigas do povo. Só eles é que têm razão, cada um na sua capela ideológica e entre os seus fiéis amigos. Se tivessem o poder, um poder absoluto, praticariam aquilo que Estaline e outros praticaram, quando se tratava de lidar com pessoas com um pensar diferente. Talvez a uma escala menor, que nós somos uns meia-tigelas, mas o princípio seria o mesmo: esmagar quem não pertence à nossa família política.

À direita, também se faz política assim. Os adversários são vistos como inimigos e os inimigos só podem ter um destino.

A intolerância e a incapacidade de dialogar e de chegar a compromissos têm muitos adeptos entre nós. Fomos formatados pelo fascismo e pelo outro lado da medalha, pelas ditaduras que invocavam em vão a classe operária e o proletariado. Ou seja, a nossa cultura política é uma cultura que procura excluir e derrotar, em vez de construir e harmonizar. É uma maneira de ver que não deixa espaço para um equilíbrio de interesses e para uma inclusão inteligente dos cidadãos, sobretudo daqueles que menos sabem de política e que, por isso, andam mais indefesos.

Toda esta intolerância revela uma grande imaturidade política. Sobretudo, ao nível de quem manda na política, dentro ou fora do governo, nos jornais, nas assembleias, na praça pública. Os actores políticos são infantis, apenas pensam na imagem da sua pessoa e na maneira de bater nos outros, forte e feio.

Há aqui uma revolução cultural que precisa de ser levada a cabo. O problema é que não vejo como se pode iniciar o processo.

 

Racismo e civismo

Acho bem que se procure debater as questões do racismo e da xenofobia. O debate de ideias faz parte das sociedades democráticas. Uns entrarão nele com muita paixão, outros de um modo mais frio, mas todos têm direito a dar a sua opinião, desde que essa não incite ao ódio e à violência física. E que evite a difamação pessoal.

E já agora, aproveitando a onda, por que não se discute a questão do civismo, da educação cidadã? Quando olha à minha volta, parece-me importante que tal aconteça. É um dos maiores défices da sociedade portuguesa. Muitos dos outros problemas, incluindo o relacionado com as diferentes manifestações de racismo, começam por criar raízes num terreno parco e falho de civismo.

Vamos debater o nosso problema de civismo?

A Europa e a imigração

Esta manhã desloquei-me à câmara municipal da minha comuna de Bruxelas. Pouco passava das nove. O imenso átrio onde se situam os principais guichés de atendimento já estava completamente cheio de gente. Calculei que seriam umas três centenas de pessoas. A grande maioria – a quase totalidade – parecia ser composta por pessoas de outras origens que não a belga ou a europeia, em geral. O quadro humano era muito distinto do que conheci em 2010, quando, vindo de África, me fui inscrever, nesse mesmo local, como residente em Bruxelas. Mesmo diferente do que verificara em 2015, quando tratei da renovação da residência.

O átrio mostrava a importância da imigração de pessoas de fora da Europa, nesta parte do espaço europeu. Fazia-me entender, se ainda fosse necessário, a actualidade do tema em matéria política. E permitiu-me voltar a pensar que esta é uma questão prioritária, à qual os partidos tradicionais não têm sabido responder de modo que satisfaça o cidadão comum, o cidadão que não é extremista mas tem interrogações sobre a política de imigração que a UE e cada um dos seus Estados membros deve seguir.

Fora isso, fui atendido sem grandes esperas e com a eficiência habitual.

Matteo Salvini, um político perigoso

Já faltou mais para que cheguemos a uma nova crise política na Itália. Matteo Salvini quer mais poder. Tudo fará para que, em breve, seja necessário organizar novas eleições.

O problema das coligações com os extremistas de direita é conhecido. Começam por participar no jogo, mas sempre com a intenção de, com o tempo, poderem controlar o campeonato. Salvini não é nenhuma excepção à regra.

Entretanto, o governo italiano continua a contribuir para o enfraquecimento das instituições europeias. Entre outros aspectos, o país não obedece às regras orçamentais comuns. Prossegue um processo de endividamento excessivo, insustentável e demagógico. Em 2020, a dívida pública italiana deverá representar 135% do PIB nacional.

De todos os dirigentes europeus, Matteo Salvini é, neste momento, o que mais ameaça a estabilidade da União Europeia.

A Itália é um país em falência política e esta traz por arrasto um colapso económico.

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