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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Os meus escritos e os comentários recebidos

O meu texto de ontem no Diário de Notícias foi considerado por um dos leitores que muito prezo como denso, a exigir uma segunda leitura mais atenta. Fiquei indeciso, sem saber como interpretar o comentário.

Um outro leitor, que aprecio de igual modo, disse-me que tinha gostado da minha insistência no valor da diplomacia, na importância que deve ser dada à procura de entendimentos com aliados e adversários. Assim deveria ser, nas relações internacionais e na vida quotidiana de cada um de nós. Os interesses divergentes devem ser resolvidos por meio de negociações e acordos. Assim, ganham todos. A confrontação do vai ou racha não é boa política. Tem custos elevadíssimos e acaba, na maioria dos casos, por não dar a resposta que cada uma das partes esperava.

Uma leitora que vive no Rio de Janeiro enviou-me uma mensagem no mesmo sentido. A diplomacia é a única aposta inteligente. A guerra e os conflitos armados e violentos só trazem prejuízos e sofrimento humano. Ela sabe do que fala. Vê diariamente a situação no Brasil entrar numa espiral de radicalismo e confronto. Mais ainda, andou, com o marido, por vários cantos do mundo, de Angola às Filipinas e viu os custos da intolerância.

Aprecio os comentários que me enviam. E mesmo quando não respondo, não deixo de prestar atenção à mensagem que cada um contém.

 

 

A relação entre a Europa e os Estados Unidos

A questão dos submarinos australianos alterou profundamente a política nacional francesa no que respeita ao seu relacionamento com a administração do Presidente Joe Biden. Mas é ainda mais séria, por ter feito perder a confiança na cooperação de defesa entre uma parte da Europa, representada pela França, e os Estados Unidos.

Vai, entre outros aspectos, ter um impacto no funcionamento político e operacional da NATO. A França já não se sentia à vontade numa organização que tem a Turquia como membro. E ficou ainda menos convencida, perante o comportamento americano, que decide sem consultar e tem apenas em conta a preocupação com o crescimento da influência global da China. Ora, a China, para a França e para outros dos seus aliados europeus, é um problema distante, secundário e mais aparente do que real. Para esse grupo de aliados, os desafios de defesa e segurança estão bem mais perto das fronteiras europeias, quer a Leste quer a Sul.

Temos aqui um momento de viragem. Mas ainda não é possível medir todas as suas dimensões.

Um exemplo suíço

Na semana passada, tive a honra, pela sexta vez, de liderar os dois últimos dias da formação que o governo suíço dá anualmente aos seus quadros destacados em países onde existe algum tipo de conflito nacional.

Essa formação é feita numa base militar especialmente vocacionada para o apoio a destacamentos suíços no estrangeiro. Os participantes são civis, que se encontram ou se preparam para servir as embaixadas do país em lugares como Kinshasa ou na Birmânia, ou ainda para trabalhar para operações de paz, missões de mediação política ou de capacitação policial. Dura quinze dias, em regime de internamento e dedicação exclusiva. Passa em revista questões de segurança, de política internacional, os mandatos da ONU, NATO, OSCE e outras organizações, procede a exercícios de simulação de resolução de conflitos e de análise política.

Uma das questões mais centrais tem de ver com a liderança. Que significa boa liderança? Que exemplos podem ser estudados? Como ir mais além, na compreensão da questão da liderança, muito para além de um simples enunciado de princípios e atributos genéricos, muitas vezes lidos em livros escritos por que nunca praticou uma qualquer liderança de uma operação complexa?

A Suíça investe neste tipo de matérias e acaba por desempenhar um papel bem superior ao que seria de esperar, tendo em conta a neutralidade e a dimensão do país.

 

Um momento histórico

Uma semana depois da queda de Cabul e da administração apoiada pela comunidade internacional – directa ou tacitamente – continuamos a defrontar-nos com três grandes questões. A evacuação de todos os que devem ser evacuados. O reconhecimento diplomático do governo que vier a ser estabelecido. E o impacto desta crise sobre o papel das potências ocidentais na cena mundial.

Cada uma destas questões dá pano para muitas mangas. Mostram, igualmente, que estamos num momento de viragem na história moderna da humanidade. Pode parecer um exagero dizer algo assim. Estou convencido que não o é. Que este é na verdade um virar de página com grandes consequências.

O Afeganistão que sofre

O que está a acontecer no Afeganistão é inaceitável e elucidativo.

Inaceitável porque não se pode deixar o país cair de novo nas mãos sanguinárias e primitivas dos Talibãs. Todos sabemos o que significa ter esses fanáticos no poder. A comunidade internacional não pode, de modo algum, aceitar os Talibãs como líderes do Afeganistão.

Elucidativo, por revelar as fragilidades da Aliança Atlântica, a subordinação absoluta aos interesses norte-americanos, o egoísmo político da grande potência e a pobreza estratégica dos dirigentes do mundo ocidental.

A teoria de que uma guerra só deve servir para abrir, tão cedo quanto possível, uma via de solução política foi uma vez mais esquecida. Com isso, sofrem os que combatem, os civis e todos aqueles que vêem os seus direitos serem pura e simplesmente espezinhados.

Urgências políticas

https://www.dn.pt/opiniao/clima-e-pandemia-visoes-curtas-na-hora-das-urgencias-13988080.html

Este é o link para o meu texto desta semana (hoje) no Diário de Notícias. O artigo sublinha duas questões que devem estar no topo da agenda internacional: a equidade no acesso às vacinas contra o Covid-19, de modo a que as populações dos países mais pobres possam ser também elas imunizadas; e a luta contra as alterações climáticas, para que a próxima COP26, que terá lugar em Glasgow na primeira metade de novembro, possa ter resultados concretos. 

Cito, como de costume, um extracto desta minha crónica. 

"Agosto é má altura para falar destes temas. Mas a rentrée em setembro terá que colocar a preparação da COP26 no topo da agenda, a par da questão gravíssima da desigualdade no acesso às vacinas contra a Covid-19, por parte dos países pobres. O desafio será o de transformar o slogan vazio, embora continuamente repetido, sobre a reconstrução de uma economia mais verde pós-pandemia, numa série de planos concretos. E tornar as vacinas acessíveis a ricos e pobres. Tratar-se-á de lembrar aos grandes e aos pequeninos chefes enleados em hesitações e oportunismos que nestas duas matérias o futuro já começou, e toca a todos."

O vírus e a cooperação internacional

Um amigo próximo está positivo há dez dias. É um homem forte, com muitas décadas de mato africano coladas à pele, um combatente em todos os sentidos. Mas vive numa plantação, algures na África Austral, e a vacina ainda está a caminho da região. Lentamente. E o meu amigo dizia-me hoje que isto da Covid não é brincadeira nenhuma. Ele, que é um sobrevivente de muitas lutas, sabe do que fala.

A sua condição actual veio uma vez mais pôr em evidência a extrema desigualdade que existe no acesso às vacinas. Num país como o seu, e em todos os outros que têm o mesmo nível de desenvolvimento – um nível baixo – a percentagem de gente vacinada é ínfima. Não há vacinas, não existe infra-estrutura nem meios.

Sem um esforço internacional, esses países continuarão a manter o vírus vivo. Depois, mais tarde ou mais cedo, ele saltará daí para o resto do mundo. Os países que contam, em termos de recursos e de capacidade, precisam de agir e de cooperar. É urgente e no interesse de todos.

 

Uma crise que está longe do fim

Meio ano já passou e a quase totalidade da população residente nos países economicamente menos desenvolvidos ainda não foi vacinada contra a covid-19. As promessas de ajuda feitas têm uma materialização muito lenta – faltam as vacinas e a infra-estrutura sanitária. Ora, sem um progresso considerável dos programas de vacinação nesses países, o risco de novas variantes continuará a ser uma realidade para todos, ricos e pobres. Por outro lado, o isolamento dessas partes do mundo continuará a ser um facto, o que levará ao um empobrecimento ainda maior. Também irá dar azo à consolidação de certos interesses, como por exemplo, os da China, em detrimento de relações económicas mais diversificadas.

É preciso voltar a sublinhar a urgência da cooperação internacional no combate à pandemia. E voltar a ver o mundo como um todo interdependente. Essa deve ser, aliás, uma das lições a retirar da crise sanitária.

Biden e Putin: dois actores com muita experiência

A cimeira entre Joe Biden e Vladimir Putin surpreendeu muitos de nós. Estava bem preparada, de ambos os lados. Havia uma vontade comum de mostrar resultados. E exibir cordialidade, apesar das posições muito diferentes e contraditórias. Mais, cada um procurou ser visto pelo seu público como sendo capaz de dar resposta às acusações vindas do lado oposto.

A declaração sobre as armas nucleares – ninguém ganha uma confrontação nuclear – foi positiva. Como também o foi a decisão de criar uma comissão mista para um Diálogo Estratégico sobre a Estabilidade.

De um lado e do outro estavam duas velhas raposas das relações internacionais.

Uma primeira conclusão sobre a cimeira do G7

A Cimeira do G7 terminou esta tarde. De uma maneira geral, a atmosfera e a retórica foram positivas. Mas genéricas, mais promessas do que verdadeiros compromissos. O único pacto concreto foi o das vacinas, a disponibilização de mil milhões de vacinas para serem aplicadas nos países mais pobres até finais de 2022. É, no entanto, uma decisão insuficiente. A OMS estima que seria necessário disponibilizar cerca de 11 mil milhões, para que a humanidade possa de facto vencer a pandemia. Estar longe desse número e demorar muito tempo até se atingir uma percentagem global de 70% de vacinados, quererá dizer que a saída da crise não acontecerá num futuro próximo. As variantes irão continuar a aparecer. E o mundo viverá, durante um longo período de tempo, em bolhas isoladas, de um lado países com a maioria da população vacinada e do outro, vários agrupamentos, segundo o avanço dos programas de vacinação. Ou seja, uns a avançar e outros a ficar para trás.

A segunda grande prioridade deveria ter sido sobre a protecção do ambiente. Esta é uma área de grande urgência. Os líderes deveriam ter indicado quais são as grandes linhas que irão defender na conferência de Glasgow sobre o clima, no final do ano. Essa indicação teria permitido uma maior focalização dos trabalhos preparatórios. As promessas feitas hoje são pouco claras e insuficientes em termos financeiros. É verdade que os diferentes líderes mostraram compreender a importância e a urgência da matéria. Isso já não é mau. É, porém, necessário agir, criar parcerias, definir melhor os planos de acção e financiar.

Estas e outras medidas foram profundamente influenciadas pela posição norte-americana em relação à China. O Canadá e o Reino Unido seguiram sem hesitações a linha americana. Já do lado europeu, houve muitas reticências. Com o tempo, a brecha entre as duas partes irá ficar mais clara. E a própria China irá adoptar contra-medidas que agravarão a fractura.

Estamos perante uma dinâmica nova, foi o que ficou claro com este encontro do G7. Mais do que nunca, é preciso muito cálculo e muita prudência.

 

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