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Crescemos quando abrimos horizontes

20
Jan 20

Donald Trump completa agora três anos de presidência. Por coincidência, o processo da sua eventual destituição começa amanhã no Senado. É quase certo que não será destituído, porque não há uma maioria suficiente para que isso possa acontecer. O clima político está profundamente radicalizado. Os senadores irão votar com base em posições partidárias e não terão em conta o mérito ou desmérito dos argumentos contra o Presidente. Donald Trump continuará na Casa Branca e irá tentar tirar um imenso proveito político da tentativa de destituição. Saberá fazê-lo, não tenho dúvidas.

Será o candidato oficial do seu partido nas presidenciais de Novembro. Olho para o lado oposto, para quem possa ser o possível contendor vindo do Partido Democrata, e não vejo quem possua a genica suficiente para ameaçar a reeleição de Donald Trump. Olho também para o panorama político que existe agora nos Estados Unidos e fico ainda mais convencido das dificuldades que qualquer um dos possíveis candidatos democratas terá que enfrentar.

Donald Trump tem aprofundado as fracturas existentes na sociedade americana. Vai continuar a fazê-lo. Sabe jogar nesse tabuleiro, que é o tabuleiro da divisão e do antagonismo. Fala e pensa como muitos dos cidadãos falam e pensam, cidadãos que vêem as mudanças sociais e o mundo como ameaças aos seus interesses. Quando existe medo do futuro, o homem forte, com voz grossa e frases brutais, tem imensas hipóteses de ser escutado. É, à partida, um ganhador.

Os americanos decidirão. Mas essa decisão tem um impacto bem maior do que o limitado pelas fronteiras dos Estados Unidos.

O meu conselho, para quem tem responsabilidades políticas na Europa, é muito directo. Contados a partir de hoje, são mais cinco anos de imprevisibilidade à moda de Donald Trump. A resposta europeia deve passar por um reforço da unidade no seio da UE e por um afastamento discreto, que não diga o seu nome, mas determinado, da política americana. Quanto mais depressa isso acontecer, quanto mais fortes nos tornarmos, mais resguardados estaremos das surpresas que Donald Trump nos poderá criar.

 

 

publicado por victorangelo às 20:54

08
Jan 20

Aqui, na nossa rua, nós chamamos-lhe o Matulão. Não é o verdadeiro nome do vizinho, mas é a alcunha que melhor traduz o que dele pensamos. Só mencionamos o seu nome oficial na sua presença. Por respeito, mais ainda por razões de medo, que o Matulão é mesmo enorme e quando se chateia ameaça partir a loiça toda. Diplomaticamente, até o tratamos por aliado, uma palavra que soa bem, mas que esconde a nossa enorme dependência em relação à força bruta desse vizinho. Também esconde as nossas fraquezas.

Cada vez nos sentimos menos à vontade na sua presença. O Matulão está a portar-se, cada vez mais, como um rufia, que só faz o que lhe passa pela real gana. Quando se lembra de nós, aperta-nos o pescoço e obriga-nos a dizer que sim, a cantar as suas canções e a jurar que a nossa aliança está forte e promissora. Na verdade, a aliança está desarticulada e desorientada, parece cada vez mais uma marionette sem tino. Mas as aparências são o que são e, perante o Matulão, tem que se cantar o hino da união e dos vencedores, dos imbatíveis.

O Matulão gasta uma fortuna em fisgas e varapaus. Não hesita e endivida-se até à raíz dos cabelos para adquirir os melhores cacetes que o mercado oferece. Está sempre a inventar novos tipos de objectos para uma porrada mais pesada. Nós, o restante pessoal da rua, não vemos essa coisa da força da mesma maneira. As nossas famílias não aceitam que se gastem fortunas na aquisição de novos cajados e outros bastões. E nós, o resto da vizinhança, a que o Matulão gosta de chamar aliados, também não nos entendemos nessas matérias. Por isso, continuamos nas mãos do Matulão. Coisas que aconteceram recentemente mostram que isso é um risco enorme. Incontrolável.

 

 

publicado por victorangelo às 22:10

03
Jan 20

A decisão de autorizar o ataque mortífero contra o General Qassem Soleimani levanta muitas questões e abre a porta a um bom número de incertezas. Na minha opinião, foi tomada no seguimento de dois acontecimentos que a Administração americana considerou como especialmente marcantes.

Um, foi o ataque, por manifestantes próximos das milícias que o Irão apoia no Iraque, contra a embaixada dos Estados Unidos em Bagdade. Nos círculos dirigentes, em Washington, esse incidente é visto como muito sério, para além de lembrar o que aconteceu em Teerão há quarenta anos. Para a liderança americana, a investida contra a embaixada é algo que não pode ficar sem resposta.

O outro acontecimento foi o exercício militar naval que o Irão levou a cabo, há uma semana, em conjunto com a China e a Rússia. A actual Administração americana não queria que qualquer desses três países pensasse que essas manobras marítimas teriam qualquer possibilidade de a intimidar ou diminuir o seu espírito de resolução. E essa determinação e firmeza tinham que ser demonstradas sem margem para equívocos.

Ao decidir, o Presidente Trump também deve ter pensado no impacto que essa acção de força teria no seu eleitorado. Estamos num ano político decisivo para ele. Precisa de mostrar que não hesita, nem tem estados de alma, quando se trata daqueles que são apresentados como os inimigos dos Estados Unidos.

Mas temos aqui vários problemas.

Um deles, é que actuar para mostrar força, na base do princípio do olho por olho, dente por dente, é inaceitável. Abre as portas à violência e deita para o lixo certas normas básicas das relações entre os Estados. É um retrocesso histórico. Não se pode construir a paz com base na retaliação. A comunidade internacional tem outros mecanismos para tratar dos conflitos e para fazer reflectir os governos que não obedecem às regras estabelecidas.

Outro, é que este tipo de decisões não pode ser tomado sem se medirem todas as consequências que poderão ocorrer em seguida. A análise que faço das declarações de Mike Pompeo é que essas consequências não foram tidas em conta. O Secretário de Estado (Ministro) fala agora de baixar a tensão na região, após um acto que leva inevitavelmente a uma escalada. Parece aquele vizinho que passa a noite com a música aos berros e na manhã seguinte me diz nas escadas que estamos todos a precisar de repouso e tranquilidade.  

Um terceiro aspecto, tem que ver com a legalidade e a moralidade deste tipo de acções. Este é um assunto que não pode ser ignorado. A própria guerra tem as suas regras. Vários académicos se têm debruçado sobre a questão. E a opinião maioritária vai no sentido contrário ao que agora aconteceu.

Como também não se pode ignorar a discussão sobre a doutrina militar que está por detrás da chamada “decapitação” dos movimentos hostis. Não me vou alongar sobre esse tema, mas a verdade é que a validade da teoria que advoga a eliminação dos líderes como maneira de solucionar um conflito tem muito que se lhe diga. Muitas vezes, o líder morto é substituído ou por outro ainda mais radical ou então pela fragmentação do movimento e um novo nível de perigosidade, amorfa e mais difícil de combater.

Ao fim e ao cabo, tudo isto é bem mais complexo do que muitos nos querem fazer crer. E essa complexidade aumenta exponencialmente quando um personagem como Qassem Soleimani é assassinado por um grande Estado ocidental.

 

 

publicado por victorangelo às 19:25

28
Nov 19

Como dizer “soft power” em português? Primeira questão.

Segunda: quais são as componentes que definem o nosso “soft power”?

Terceira e última, para já: como explicar a falta de atenção dada a este tema, nos debates públicos em Portugal?

 

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 21:22

17
Set 19

Na minha opinião, o debate político das próximas semanas deveria opor os que apenas procuram gerir a situação, com mais ou menos folgas, mais ou menos simpatia e sorrisos, aos que poderiam ter um projecto para Portugal. Um projecto que nos levasse além da mediocridade, do deixar andar e do salve-se quem puder. Que pensasse no futuro, nas bases de uma economia mais moderna e sustentável, na protecção dos recursos naturais e do ambiente, num povo melhor preparado e com maior capacidade de intervenção cidadã, numa língua portuguesa que não fosse aviltada por uma incapacidade de a defender, num país mais seguro e mais amigo dos mais fracos. Também, um país mais capaz de contribuir para o fortalecimento da União Europeia e para o reforço da cooperação e da harmonia internacionais.

Só que isso parece um sonho. O debate político continua a ser entre gestores de contas correntes.

 

 

publicado por victorangelo às 21:10

23
Ago 19

Estamos nas vésperas da cimeira de 2019 do G7. A burguesa cidade litoral que é Biarritz deve estar em pé de guerra, com seguranças por toda a parte. Vai ser um fim de semana infernal, para as gentes locais, que os banhistas já devem ter deixado as praias, e as ondas do surf, bem conhecidas que são, e voltado para as suas terras de origem.

Uma das perguntas que mais surge, nos meios que analisam estas reuniões de alto nível, é se o G7 ainda serve para alguma coisa.

O encontro do ano passado, que teve lugar no Canadá, foi um desastre. Tudo se resumiu a uma questão: o comunicado final fora ou não aprovado pelo Presidente Trump? Este é aliás um dos problemas destas reuniões. Depois de meses de preparação, o resumo que fica é uma linha ou duas, um cabeçalho na comunicação social e pouco mais.

Agora, com o Presidente dos EUA a jogar num campo com balizas que mudam de um momento para o outro, o valor destas cimeiras é ainda mais contestado.

O anfitrião deste ano diz que sim, que vale a pena, como seria de esperar. Acrescenta, todavia, que não haverá um comunicado final, para que se não perca tempo a discutir vírgulas e a rasurar certas palavras. Não me parece mal, como ideia, embora fosse importante ouvir uma declaração conjunta sobre dois ou três temas quentes, como por exemplo, o que se passa na Amazónia.

Também sou dos que pensam que, sem esperar muito destas cimeiras, elas são importantes. Os líderes que estarão à mesa, com excepção dos que estão em fim de percurso, como é o caso de Giuseppe Conte ou talvez de Justin Trudeau, são gente com muito poder. Nos seus países e nas relações internacionais. Parece-me melhor que se encontrem e confrontem à volta de uns acepipes, que partilhem tempo e momentos, que isto das relações entre as pessoas tem muito que ver com o estar-se junto, do que deixar cada um no seu canto, sem um mínimo de diálogo com os seus pares.

A Rússia não estará representada, mas o tema ocupará um lugar importante nas conversas. Há quem pense que é altura de voltar a trazer Vladimir Putin para a mesa do G7, de fazer renascer das cinzas o G8. Creio que uma decisão dessas enviaria uma mensagem negativa. O G7 pode não ter grande impacto, mas é, apesar de tudo, uma reunião das democracias mais ricas. Vladimir Putin não é um democrata, não respeita as regras da liberdade de expressão e de oposição. Por isso, ressuscitar o G8 seria uma afronta que se faria aos que lutam pela liberdade na Rússia.

Há, no entanto, o risco que no próximo ano, o Presidente Putin possa ser convidado. O anfitrião da cimeira de 2020 é um admirador do autocrata de Moscovo. Ou não fosse o anfitrião o sempre em pé Donald Trump.

publicado por victorangelo às 16:33

17
Ago 19

Leonídio Paulo Ferreira é um dos jornalistas mais seniores do Diário de Notícias. E o Leonídio, com a experiência que tem, consegue fazer milagres. Sou prova disso. Publica hoje no DN uma entrevista que me fez. No final das nossas perguntas e respostas, fiquei a pensar que a coisa não tinha corrido bem. Que as minhas respostas, sobre temas que conheço de trás para a frente e com os quais continuo a conviver diariamente, poderiam ter saído com mais garras.

Ao ler o texto hoje publicado, fiquei mais tranquilo.

Só posso agradecer ao Leonídio, sem esquecer o fotógrafo, Pedro Rocha, que me apanhou ao natural, acompanhado pela estatueta gigante que defende a minha sala de estar – a minha neta baptizou esse guarda de madeira do Zimbabwe de Jorge, que isto de dar nome a um ser estranho ajuda a vencer os preconceitos e o medo.

Quanto ao resto, todos os dias há muito que dizer sobre o mundo em que vivemos. O problema é transformar a abundância de informação numa leitura que interprete o sentido das coisas e sugira soluções. A informação sem interpretação leva à confusão e ao simplismo.

publicado por victorangelo às 21:29

18
Jul 19

Observamos o que se passa à nossa volta. E sabemos ler os indicadores e as tendências. Ficamos alarmados. Os desafios que estão à nossa frente são enormes e complexos, essa é a conclusão que podemos tirar. Depois, procuramos determinar quem domina a formatação da opinião pública e constatamos que não falam destas coisas. Nem na imprensa nem nas televisões. Nem sabemos se têm consciência das transformações em curso e do seu impacto, agora e no futuro.

Perante esta constação, que responsabilidade devemos assumir?

 

publicado por victorangelo às 21:44

11
Jul 19

A minha palestra de hoje em Lisboa, na PASC-Casa da Cidadania, foi sobre “geopolítica, ameaças e resposta cidadã”.

Falei sobre a sociedade civil e a sua capacidade de influenciar a agenda política, dei várias exemplos concretos, do #ClimateStrike ao #UmbrellaMovement de Hong Kong, passando pelo Sudão e a Rússia. No essencial, nesta parte da conversa, o objectivo era demonstrar que muitas das grandes mudanças políticas tiveram na base movimentos cívicos.

Depois, referi os grandes acontecimentos da década em curso, acontecimentos que influenciaram de modo determinante a agenda internacional. Comecei pela Líbia de 2011 e acabei com o lançamento pelo Facebook e mais 26 parceiros da Libra, que teve lugar a 18 de junho passado.

Foi então altura de falar do reequilíbrio dos poderes mundiais e da natureza dos novos conflitos, incluindo o novo tipo de armamentos.

Para fechar o debate que se seguiu, pedi aos participantes que evitassem respostas simples e lineares a questões complexas. Estamos num momento em as fontes de poder são variadas, não se limitam apenas ao controlo do Estado, das redes sociais, da banca ou das indústrias de armamento. Dar uma resposta simples a um período particularmente complexo da nossa história humana seria fazer o jogo dos populistas.

 

 

publicado por victorangelo às 21:30

20
Mai 19

O que está a acontecer entre os Estados Unidos e a China marca um ponto de viragem no sistema das relações internacionais. É o início de uma outra época histórica.

Muitas lições estão a ser tiradas deste conflito. O impacto far-se-á sentir em vários domínios, não apenas no comercial ou bolsista. O paradigma estratégico está a mudar. Profundamente.

Do lado chinês, as decisões americanas não serão esquecidas, mesmo se mais tarde houver um entendimento bilateral na área do comércio.

Do lado americano, cabe aos cidadãos e ao Congresso decidir como responder às decisões tomadas pelo Presidente.

Espero que do lado europeu também se reflicta sobre o que tudo isto significa e se tenha em conta o princípio que hoje o fogo está na casa do vizinho, mas amanhã poderá chegar à nossa.

publicado por victorangelo às 22:18

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