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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Com o parafuso avariado

A primeira fase da minha transição tem sido laboriosa e demorada. Ontem à tarde tive que ir comprar uns parafusos, brocas e outras quinquilharias à grande superfície que se situa ali para os lados de Alfragide. Quando lá cheguei, aquilo parecia um arraial popular. Havia mais gente na loja do que num comício de certos partidos políticos. Fiquei a pensar que os portugueses devem andar todos de berbequim na mão e de pincel em riste, a aproveitar o confinamento para reparar os trastes que têm em casa e para pintar o futuro a cor-de-rosa. O distanciamento social seria do tamanho de dois parafusos de rosca gasta.

De avião e vamos à vida

O voo de Frankfurt para Lisboa estava a abarrotar. A bordo, a única diferença de monta era o porte de máscara. Todos a tinham, a começar pelos tripulantes. O resto, parecia um voo da época antiga, de antes da pandemia. O embarque fora feito sem qualquer tipo de controlo ou questionamento sanitário. É verdade que antes do embarque, na véspera, havia sido necessário responder a um breve questionário sobre o passageiro e a sua saúde, bem como sobre os motivos da viagem e mais nada. À saída do aeroporto, já em Lisboa, foi obrigatório passar por um sistema de controlo de temperatura. Depois, cada um foi à sua vida, que nestes tempos de recuperação não há tempo a perder.

O novo normal

A mensagem fundamental, que é preciso repetir várias vezes ao dia, é muito simples: o vírus continua presente nas nossas vidas e pronto para infectar quem não se precaver. É simples, na verdade, mas parece que alguns não a estão a entender. Pensam que, com a retomada das actividades económicas, a situação voltou ao normal. Longe disso. Estamos, para já, no que alguns chamam “o novo normal”, que exige comportamentos diferentes dos praticados até Março. Não se trata de viver com medo, mas sim com prudência e respeitando as regras sanitárias que os especialistas consideram essenciais.

A responsabilização de cada um de nós

Pouco a pouco, a nossa parte da Europa volta a um certo grau de normalidade. Fazê-lo com prudência, por etapas, é boa política. A principal mensagem que deve ser transmitida aos cidadãos é sobre a responsabilidade de cada um. O vírus ainda não está vencido, continua a circular entre nós, por isso, cada pessoa tem que assumir uma atitude que mostre cuidado e precaução. É nisso que se deverá insistir.

Digo-o por ter falado com pessoas que entendiam o relaxamento das regras como um regresso aos velhos hábitos.

Tempo de mudança

Às oito da noite, o meu vizinho do lado direito sai à rua, com o seu acordeão e toca uma ou duas músicas para todos nós, os outros vizinhos. Saímos à rua, cada um no seu espaço, para aplaudir os profissionais de saúde em geral e a mulher do acordeonista, em especial, que é médica de cuidados de urgência. Como os dias têm estado bons, este é um momento de convívio, ao fim de um dia de isolamento, numa quarentena que já vai longa e que ainda vai continuar mais uns tempos. A rua é composta por vivendas, temos a impressão de estar na aldeia, sentimento que o acordeão ainda acentua mais. Na realidade, estamos numa zona central da cidade, a poucos minutos de carro das instituições europeias. Viver no campo, dentro da cidade, é um privilégio. Que para nós, acaba no final deste mês, depois de dezenas de anos de ligação à casa que agora irá ficar para trás. Mudanças, mudanças e andanças, diria o outro.

 

O papel da Comissão Europeia

Ursula von der Leyen presidiu a uma conferência internacional de mobilização de fundos destinados ao financiamento da investigação científica de combate à Covid-19. Também foram recolhidas contribuições para ajudar as nações mais frágeis a fazer frente à pandemia. As somas prometidas ultrapassam os 7 mil milhões de euros. Foi um sucesso e a Presidente da Comissão ficou numa posição mais forte. Deve agora aproveitar a embalagem e tomar as rédeas de uma resposta europeia coordenada para o período que agora se inicia, o desconfinamento. O desconfinamento tem várias dimensões, para além da questão sanitária. Deve ser feito de modo harmonioso, tendo em conta a interdependência que existe entre as economias e as sociedades europeias. Cabe à Comissão propor as linhas mestras que deveriam ser seguidas. Depois, cada país fará as adaptações que achar necessárias.

As linhas orientadoras têm que ser realistas e por etapas. Não é prova de bom senso fazer declarações com horizontes temporais muito amplos. Por exemplo, declarar, como foi dito em Bruxelas, que as ligações aéreas da União Europeia com o resto do mundo não deverão ser restabelecidas senão em inícios de 2021, é um exagero. Sem contar que a recuperação económica exige abertura, espaços e facilidades de movimento, trocas com o resto do mundo. As videoconferências são muito úteis, mas não são suficientes. O contacto pessoal, com líderes e gentes de toda a parte, faz parte da recuperação, do progresso e da modernidade.

Para além da quarentena

Ficará para a história que os governos dos países mais desenvolvidos foram apanhados de surpresa pelo novo coronavírus. Para além de outras falhas em equipamentos e materiais sanitários, não havia reservas estratégicas de máscaras, que pudessem ser distribuídas às populações, para evitar a propagação da epidemia. Ora, isso haveria feito toda a diferença. Uma reserva desse tipo teria custado alguns milhões de euros, poucos. Uma ninharia, quando comparada com os custos que agora estão em causa. Por outro lado, não existia capacidade para as produzir em quantidades maciças. Dizia-se que se estava em guerra, mas a economia não foi reorientada para combater essa guerra, ou seja, para produzir de imediato os meios de protecção necessários para evitar a expansão do “inimigo”. Guerras passadas, incluindo a Segunda Grande Guerra, haviam-nos ensinado a mobilizar todos os recursos para o esforço de combate. Esquecemo-nos, entretanto, dessa lição.

Recorreu-se, assim, à velha opção medieval, que era a da quarentena, do recolher obrigatório e do fecho de fronteiras. Exactamente como os nossos antepassados fizeram várias vezes, por não disporem de outros meios. E enquanto se procedia, com unhas e dentes e muitos polícias, a essa medida drástica, não se mexia na indústria, nem na produção das “armas” que este inimigo exigia. Vários países europeus vão sair do período de quarentena timidamente, por saberem que os meios de combate continuam a ser fracos. Prometem, entretanto, injectar na economia somas astronómicas, que ainda não existem e para as quais não se definiram as modalidades de desembolso. Nalguns casos, naqueles em que o dinheiro vai de facto circular, estar-se-á a tapar buracos, mas sem perspectivas de continuidade, sem que esses fundos representem um investimento produtivo.

Ainda não se pode prever qual será a situação dentro de algum tempo. Mas posso dizer que continuaremos com os mesmos políticos, bons palradores mas curtinhos de vistas, que se esqueceram da velha máxima que governar é prever e precaver. E acrescentarei que estaremos mais pobres, sobretudo os que vivem da economia privada, das pequenas empresas, das profissões liberais, dos empregos precários, bem como dos serviços de hotelaria, restauração e turismo, dos transportes e da aviação, da comunicação social e das pequenas lojas de comércio não-alimentar.

A pobreza é má conselheira. E a nova pobreza vai ser certamente aproveitada por todos os extremistas e populistas, para tentarem marcar pontos. Vão jogar com o medo e os traumas que se acrescentarão às dificuldades económicas. E acenar as bandeiras do nacionalismo.

Vamos ter que dizer que não a essas gentes.

Reforçar a OMS e apoiar a pesquisa

As plataformas sociais, em especial a Twitter, estão cheias de mensagens de ódio contra a Organização Mundial da Saúde (OMS) e também contra Bill Gates. Quem quiser ficar enojado pode fazer um pequeno percurso pela internet. Há lá de tudo sobre estes dois assuntos.

No que respeita à OMS, a “licença para matar” veio do Presidente norte-americano. Donald Trump viu nas hesitações da OMS uma oportunidade para atacar a China, que é um tema que dá dividendos em várias partes do mundo, sobretudo junto dos cidadãos americanos mal informados e ultranacionalistas. Atacar a ONU também possibilita angariar alguns votos, satisfazer as fobias de algumas secções da opinião pública, mas é sobretudo a China que é vista como a rival por excelência dos Estados Unidos. Por outro lado, apontar o dedo na direcção da OMS desvia as atenções, cria uma nuvem que esconde a incompetência e a confusão que têm marcado a maneira de agir de Donald Trump.  

Bill Gates é um alvo habitual de críticas por duas razões principais: por ser um bilionário de grande porte e inteligente. A verdade é que se trata de uma pessoa com uma visão muito ampla e com uma faculdade fora de série de antecipação dos problemas futuros. Os curtinhos da cabeça têm dificuldades em aceitar pessoas assim. Através da sua fundação, Gates é hoje um dos principais financiadores filantrópicos na área da pesquisa médica. Está, neste momento, a contribuir financeiramente para que os melhores cérebros científicos possam avançar na investigação de uma vacina contra a covid-19. Fá-lo de modo global, não se limitando aos laboratórios americanos apenas. A sua atitude contrasta com a maneira de agir do Presidente. Está à vontade, fala com serenidade e profundidade, olha para cada questão sob vários ângulos. Tudo isso acaba por sublinhar e pôr em evidência a pequenez de Donald Trump.

O que eu peço aos meus amigos é que não caiam nas armadilhas que por ainda estão montadas, contra a OMS, contra a filantropia e os visionários.

A nossa confusão

Ao olhar para a cidade, nesta Primavera com sol, vejo um vazio imenso. Nem as folhas das árvores se mexem. Parece irreal, impossível, profundamente errado. Depois, pego no telefone e falo com quem sabe como está a economia. Fica-me uma mistura de confusão e de esperança. Começa-se a discussão com um aceitar do inevitável, uma compreensão dos custos que estão em causa, presentes e futuros, uma atitude de resignação, mais o medo do empobrecimento em grande escala que se antevê. Depois, com o andar da conversa, o tom ganha confiança. Dentro de umas semanas, estaremos todos de volta à vida. Mas esta certeza, noto, é mais um acto de fé do que uma conclusão racional. Desligo e digo a mim próprio, baixinho para não perturbar o silêncio que se faz ouvir nas ruas desta cidade, ainda bem que há confiança.

O debate entre a vida e a economia

Começou o debate que muitos temem: como encontrar a mancha de equilíbrio entre a luta contra a pandemia da Covid-19 e a preservação da economia? Estas são as duas grandes equações do momento.

A pandemia ameaça a vida de muitos. Quem sabe dessas coisas de surtos epidémicos diz-me que este ainda tem muita dimensão que permanece desconhecida. Pode evoluir num sentido ou no outro, segundo as oportunidades de contágio. Enquanto não houver vacina – uma perspectiva para 2021, dificilmente antes – teremos que recorrer ao distanciamento social e ao isolamento, para que o flagelo não se transforme numa calamidade geral.

Ora, tudo isso tem um impacto vastíssimo na economia. Sobretudo em certos sectores, que estão completamente paralisados e não têm perspectivas de recuperação visíveis no horizonte. Sem produção e sem comércio, sem rendimentos nem emprego, com os sistemas sociais a rebentar por todas as costuras, que modo de vida nos espera, durante um tempo relativamente longo? Como sobreviver numa economia de mercado, em que não há nem mercado nem dinheiro?

Trata-se de escolher perante um desafio que não tem paralelo na história da humanidade. Não se pode comparar à gripe de 1918 ou a outras epidemias, por um razão muito simples: o mundo é hoje, para estas coisas, uma simples aldeia, em que todos são vizinhos de todos.

Para mim, a opção primeira e absoluta é a da saúde pública. A vida de cada pessoa é um bem único, insubstituível. Deve ser preservada a todo o custo. Uma mobilização extrema de meios de combate à pandemia poderá fazer baixar a curva. É essencial. Mas não resolverá o risco. Para tratar do risco, a cooperação internacional em matéria de investigação laboratorial e de testes é fundamental. É preciso insistir nesta matéria da cooperação. Tem que se constituir uma aliança mundial que faça avançar a pesquisa a passos de gigante. Essa deveria ser umas das mensagens mais salientes que a OMS deveria repetir a todo o momento.

A economia tem que ser aberta aos poucos. Existem vários sectores que agora estão encerrados que poderiam ser autorizados. Voltarei ao assunto.

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