Portugal é grande quando abre horizontes

14
Dez 13

Estive em Braga nos últimos dois dias. O motivo que me levou a essa cidade foi a realização de um seminário internacional sobre as ameaças à segurança de África e da Europa que resultam da situação de instabilidade e de má governação no Sahel.

 

Tive a oportunidade de partilhar a minha análise desta problemática com os outros participantes e também com um grupo de alunos de relações internacionais da Universidade do Minho. É verdade que cada país do Sahel é um caso, mas existem vários pontos comuns. Um deles, passa pelo cruzamento de um meio ambiente cada vez menos favorável à produção de alimentos, em virtude da desertificação crescente – o Deserto do Sahara avança em direção ao Sul cerca de 48 quilómetros por ano – com um crescimento muito elevado da população da região. Dois em cada três habitantes do Sahel têm menos de 25 anos de idade, o que irá contribuir, por vários anos, para que a população continue a crescer de modo acelerado.

 

Como não há meios de vida, muitos desses jovens são, pura e simplesmente, candidatos à emigração. E uma pequena franja, mas significativa, será apanhada pelas redes radicais e pelo crime internacional organizado.

publicado por victorangelo às 20:38

10
Nov 13

Um especialista em matéria de segurança, antigo colega meu das Nações Unidas, dizia-me há dias que o Sahel é terra de contrabandistas armados. Como qualquer bom velho contrabandista, os que percorrem o Sahel fazem “negócio” com tudo o que lhes passa à mão de semear: armas, drogas, candidatos à emigração ilegal, raptos, tráfico de gado, tabaco, combustíveis e bens alimentares. Um grupo ou outro mistura uns pós de fanatismo religioso ao ”negócio”, como maneira de lhe dar uma “justificação moral”.

 

Os montantes em jogo são elevados. No caso recente da libertação de quatro franceses que estavam sequestrados no Níger há cerca de três anos, fala-se num resgate na ordem dos 20 milhões de euros. É um montante impressionante, que mostra bem o que está em jogo.

 

Mas a verdadeira ironia da situação reside no facto de uma parte desse dinheiro se destinar à compra de armas e veículos que irão permitir aos bandidos raptar mais franceses e atacar as tropas francesas e internacionais que se encontram em missão no Mali.

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 21:20

02
Nov 13

Kidal, uma aglomeração que é uma das capitais regionais do norte do Mali, não muito longe da fronteira com a Argélia, é uma terra do fim do mundo. Situada no meio de centenas e centenas de quilómetros de deserto – o Saara em todo o seu esplendor e com toda a sua força – a localidade é uma praça-forte da rebelião Tuaregue. Os guerrilheiros do movimento independentista – Movimento Nacional para a Libertação de Azawad – têm uma base militar na cidade, onde aguardam que o processo de paz decida que destino lhes será dado. A umas centenas de metros dessa base temos o aquartelamento das tropas especiais francesas, que fazem parte da operação Serval. E mais à frente, o campo militar das Nações Unidas. As tropas regulares do Mali também deambulam pela cidade.

 

É um sítio perigoso. Sempre o foi. Hoje, apesar dos diferentes contingentes, foi palco de mais um acto terrorista gratuito. Dois jornalistas franceses, um homem e uma mulher, foram raptados à porta de um notável local e friamente assassinados uns quilómetros mais à frente. A mensagem dos assassinos é simples: não pensem que estamos vencidos!

 

Mas acabarão por o ser. Para isso, é fundamental que a dimensão “inteligência” da missão de paz funcione adequadamente. Que existam especialistas, militares e policiais, que cooperem e que saibam recolher e tratar as informações. É para este tipo de situações que o trabalho de “inteligência” deve estar virado. Não para espiar os cidadãos e os líderes de países amigos.

 

 

publicado por victorangelo às 20:29

16
Jan 13

O ataque contra um campo de extracção de gás na Argélia, propriedade da BP, e o subsequente rapto de um número ainda indeterminado de estrangeiros que trabalhavam nessa base estão a deixar muitos governos profundamente preocupados. É um acontecimento de grande gravidade, que pode ter um impacto enorme no fornecimento de gás ao Sul da Europa e levar também a uma quebra significativa da produção de petróleo na Argélia e na Líbia. Pode igualmente fazer diminuir as receitas do governo da Argélia, numa altura em que a paz social é comprada todos os dias, pelos dirigentes desse país, com o dinheiro proveniente da exploração do petróleo e do gás. Se esses fundos falharem, a probabilidade de uma revolta social nas cidades argelinas é enorme.

 

Tudo isto precisa de ser monitorizado com muita atenção. 

publicado por victorangelo às 21:33

31
Dez 12

 

Copyright V. Ângelo 


Naquele ano - 2009 - começámos o Ano Novo no Deserto de Ennedi, no meio do Sahara, uns duzentos quilómetros ao Sul da Líbia e o repasto foi um carneiro que teve que pagar as favas da nossa visita e foi "executado" ali, à nossa frente.

 

Fingimos, depois, que estávamos a saborear o mechoui, com o pessoal todo à nossa volta, a observar. Logo que dissemos que havíamos terminado (o que mal tínhamos começado) os nossos anfitriões e os soldados da escolta lançaram-se ao bicho. Em pouco tempo, creio que nem os ossos mais tenrinhos escaparam à fome do deserto. 


O champagne, como podem ver, era da marca Seven Up. 


Agora, longe, noutras circunstâncias, a entrar em 2013, desejamos umas boas festas de Ano Novo e um bom ano a todos os que seguem o blog. 

publicado por victorangelo às 16:55

22
Dez 11

Participei numa discussão sobre a Estratégia da UE para a Região do Sahel.

 

Fiquei com a impressão que a estratégia não é estratégica, não entende as causas profundas da insegurança nessa parte de África, não inclui um estado fundamental, o Chade, e tem um número excessivo de objectivos. 

 

Pareceu-me, também, que os burocratas da UE estão, também neste caso, mais preocupados em mostrar aos estados membros que não se esquecem do Sahel do que em obter resultados duráveis. 

 

E os políticos europeus, como de costume, vivem na ilusão e num mundo que tem pouco que ver com a realidade. 

 

publicado por victorangelo às 20:41

23
Ago 11

No Sahel, quem está às portas de perder o poder, retira-se, com os seus combatentes mais fiéis e mais chegados, para uma zona do deserto, que seja de difícil acesso. Normalmente, perto da fronteira com um país amigo. Estabelece aí o seu quartel-general.

 

Com o tempo, que pode demorar anos, procura reagrupar os que ficaram dispersos, pelos vários cantos do país, e preparar-se para lançar um novo assalto ao poder.

 

Será que se irá passar o mesmo na Líbia?

publicado por victorangelo às 21:23

05
Mar 11

 

Copyright V. Ângelo

 

 

 

Encontrei esta mulher no meio do deserto do Sahara. A sorrir, com tranquilidade. 

 

Por falar de mulheres e de desertos, lembro-me que, em breve, será comemorado o dia internacional da mulher. Este ano, ironicamente, cai na Terça-feira de Carnaval.

 

A Leslie, a mais velha das minhas filhas, partiu hoje para Bagdade. Vai organizar o dia internacional na capital do Iraque. O foco será nos direitos humanos.

 

publicado por victorangelo às 20:57

13
Mar 10

 

O dia de ontem terminou com uma festa de despedida. Organizada pelo pessoal da MINURCAT, os da Sede, em N´Djaména, com a participação animada de um dos melhores grupos de dança tradicional do Sul do Chade. Uns dançarinos excepcionais, que nos revelaram várias facetas das cerimónias de iniciação, que continuam vivas nestas paragens. Foi também interessante ver alguns dos nossos jovens funcionários nacionais, que normalmente andam de fato e gravata, acompanhar os ritmos, como se a música fizesse parte dos seus génes.

 

Este é um país culturalmente muito diverso. Enquanto os tambores do Sul batem com a energia da África banto, fazendo vibrar todos os poros dos que sabem viver esssas músicas, e acentuando o erotismo das florestas por explorar, os naturais do Centro e Norte mexem o corpo, lentamente, com a graça oriental das cortes dos sultões.

 

Entre os pratos tradicionais, havia uma dobrada de cabra, certamente um animal duramente experiente da vida, preparada pela minha Assistente de muitos anos, uma mulher das terras mais amenas da África Austral. Claro que tive que me servir. O resto, não digo.

 

Foi um fim de tarde quente. Durante o dia a temperatura do ar andou a namorar os 48 graus. Em Março, é assim.

 

A manhã começara com uma reunião com todos os embaixadores residentes em N'djaména. A reunião mensal, que para mim foi a última, era a oportunidade para dizer "Thank you" e passar à frente. Tudo muito correcto, sem mais. Depois, tive um longo tête-à-tête com o Presidente Idriss Deby. O encontro começou em público, com a minha condecoração com o grau de Oficial da Ordem Nacional do Chade. Um gesto raro. Uma Ordem de elite. Depois, ficámos sós, para falar sobre o Sudão, esta parte do Continente Africano, projectos, água, um tema central para as gentes do Sahel, segurança, e o futuro das Nações Unidas nestas areias. Foi um diálogo com elevação, descontraído, que as ideias são para serem confrontadas, não as pessoas.

 

Já mais tarde, à hora das orações de Sexta-feira, o Representante Especial do Presidente ofereceu-me um camelo. Lindo. Com calabaças e tudo, aparelhado a rigor. O RE, que responde pelo nome de General Dagache, quatro estrelas e muitas dunas de combate,  batalhas muitas, a morder o pó dos ventos áridos, homem com ossos e pele, mas nada mais, que o deserto não é para grandes comidas, é natural do Sahara, não muito longe do fim do mundo que é a região de fronteira com a Líbia. O camelo é a fonte da vida, nesses cantos perdidos, onde a beleza das montanhas roídas por milhões de anos de vento nos faz imaginar catedrais do surrealismo mais ousado. O camelo e água, que brota aqui e ali, nos oásis que se escondem para além das miragens.

 

O meu camelo está agora em casa, grande e majestuoso, à espera de um caixote que o leve para as terras molhadas da beira-Tejo. É uma peça de madeira que vale a pena que atravesse o deserto. 

 

publicado por victorangelo às 14:44

03
Mar 10

 

Copyright V. Ângelo

 

 

Comecemos pelas contas. Um hora no jacto, a caminho do Nordeste, 800 km. Mais 80 minutos de helicóptero, em direcção ao Norte, são à volta de 300 km. Já em terra, no deserto, 20 minutos de carro, 7 km. Uma viagem longa, com ida e volta, hoje. Mas continuemos as contas. Uma hora de permanência no local, 30 kg de areia por toda a parte do corpo e do vestuário. Fomos apanhados por uma tempestade de pó fino e areia grossa. Deu para termos um almoço de areia, que entrava por onde podia e nos arranhava a garganta.

 

Um balanço pesado. Que, todavia, valeu a pena. Inaugurámos, no sítio onde apenas a secura é abundante, um poço artesiano de 130 metros de profundidade. Os meus militares noruegueses, senhores de um equipamento de prospecção avançado, descobriram na zona, em Iriba, a mais de 100 metros no subsolo, depois de uma camada de argila quase impenetrável, um lago subterrâneo. Tem cerca de 5 km de comprimento e 200 metros, da superfície ao leito. Em pleno deserto.

 

A capacidade de produção diária é de 125 metros cúbicos. As reservas actuais cobrem as necessidades de várias gerações vindouras, se forem bem administradas.

 

Uma verdadeira revolução. Quando a água começou a sair das entranhas da terra, a população nem queria acreditar. As crianças colocaram-se à frente do jacto de água e dançavam, encharcadas até aos ossos. Claro que com o pó que haviam acumulado, foi uma limpeza.

 

Quem não gostou da festa foi o Sultão da área. Sua Majestade possuía, até agora, os dois únicos miseráveis furos da região. A venda de água tem sido uma das suas principais fontes de riqueza. E de poder, que o líquido da vida é um instrumento de controlo dos outros.

O Prefeito, que é a autoridade administrativa da região, sempre viu o poder do Sultão com maus olhos. Rivalidades. São familiares, aliás, mas cada um puxa a manta do mando para o seu lado. Agora, a dinâmica social vai ter mais água pelo meio.

 

A fotografia, no alto da página, mostra um canto do oásis de Iriba. Mesmo onde a vida é dura, há sempre a possibilidade de usufruir da sombra mais fresca de um oásis.

 

 

 

publicado por victorangelo às 18:01

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