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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

Coronavírus ocupa o espaço todo

O vírus Covid-19 voltou a ocupar todas as primeiras páginas, nos mais diversos cantos do mundo. É a globalização da ameaça. O recordar que estas e muitas outras coisas não têm fronteiras, no mundo de agora. Mas não é apenas a questão de saúde pública que está em foco. Uma boa parte das atenções esteve centrada nos efeitos económicos da epidemia. São muito significativos, têm uma grande amplitude, acarretam prejuízos de enorme envergadura. Todavia, ainda não são devastadores. Mas esse risco existe. O que se espera é que não se materialize. Neste momento, ninguém sabe se isso acontecerá ou não. A verdade, para já, é que a epidemia tem custos económicos muito superiores ao impacto em termos de saúde pública. E por detrás dos custos económicos existem pessoas, empregos, encargos financeiros, vidas.

Ver e aprender

Os eleitores do Partido Democrata no Estado do Nevada estão, neste momento, a votar para escolher quem poderá ser o candidato presidencial do partido. Os resultados só serão conhecidos amanhã, em virtude da diferença horária com Lisboa. Mas já é claro que um dos temas que mais mobiliza é o que diz respeito à protecção na doença. O acesso a serviços de saúde é uma questão fundamental para os cidadãos, ali, noutros estados e noutras partes do mundo. Incluindo em Portugal. Nenhum político pode ignorar esse assunto.

NATO aos 70: desafios de um mundo novo

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/victor-angelo/uma-estranha-festa-de-aniversario--11588995.html

Acima vos deixo o link para o texto de opinião que publico no Diário de Notícias. Nessa escrita, levanto algumas questões menos ortodoxas, no seguimento da celebração dos 70 anos da NATO.

Faço-o num estilo diferente do que me é habitual. Que acham dessa maneira de escrever? A preocupação foi a de não chover no molhado, de fugir ao que muitos dos outros dizem e repetem.

Pistas de reflexão em curso

Uma década de grandes transformações – 2010-2019:

  • Aceleração dos movimentos migratórios internos e internacionais
  • Acentuação do extremismo político
  • Retorno dos nacionalismos radicais
  • Desigualdades crescentes, precariedade e sentimento de insegurança
  • Entrelaçamento (emaranhar) de desafios complexos (ex: o clima, o terrorismo, a segurança humana, as mega-metrópoles urbanas, a robotização, etc )
  • Emergência da China como uma super potência
  • Marginalização da ONU; o regresso à política do poder - a razão da força.

 

 

Sobre o terrorismo

O atentado de Berlim veio uma vez mais lembrar-nos que é preciso encarar a questão das câmaras de captação de imagens com outros olhos. Temos que nos adaptar às circunstâncias actuais, às novas ameaças, e aceitar que os poderes públicos instalem as câmaras que forem necessárias, sobretudo nas ruas e nas praças de maior concentração de pessoas.

Londres e muitas outras cidades europeias já estão equipadas para recolher imagens de tudo o que se passa nos lugares públicos. O mesmo acontece nos Estados Unidos. Cheguei a ver, nesse país, mais de uma dezena de câmaras de vigilância focalizadas num mesmo espaço, sob vários ângulos, tendo em conta a natureza particularmente sensível do local.

No caso de um incidente grave, a exploração posterior das imagens permite compreender o acontecido e identificar os responsáveis. E daí não advém nenhuma ameaça à vida privada dos cidadãos. Nem nenhum cerceamento das liberdades e dos direitos das pessoas.

Na Alemanha tem existido alguma resistência à recolha de imagens. Penso que o drama de Berlim vai alterar a maneira de ver o assunto.

Como também o deveria fazer em Portugal. Temos aqui, mais uma vez, uma oportunidade de aprender com as hesitações e as dificuldades dos outros. Não podemos pensar que estas coisas do terrorismo só ocorrem noutras paragens, longe das nossas santas tranquilidades.

 

 

Desafios a prazo

Na opinião de um conjunto de especialistas em geopolítica, os grandes desafios globais em 2050 serão, por ordem de importância, os seguintes:

  • Escassez de recursos naturais
  • Excesso de população
  • Extremismo violento
  • Guerras entre estados
  • Conflitos civis, no interior das fronteiras nacionais

O primeiro da lista, relativo aos recursos naturais, é o mais consensual. Quase metade dos especialistas consultados considera que se trata da questão central.

A sobrepopulação é vista com ansiedade por um quarto dos participantes na discussão.

As outras questões pesam menos na balança das preocupações.

 

 

70 anos de parabéns

No dia em que as Nações Unidas celebram os seus 70 anos de vida, aqui fica uma palavra grande de parabéns.


Neste dia, as mentes pequenas falam dos falhanços da organização. Os espíritos progressistas sublinham os aspectos positivos e exprimem votos para que a ONU desempenhe, no futuro que agora começa, um papel ainda mais central em matérias de paz, de direitos humanos, de desenvolvimento e de cooperação entre todos, incluindo na área do ambiente e da ajuda humanitária.

À mesa, a dar uma pequena volta ao mundo

De novo na Suíça, para mais uma reunião sobre questões de paz e segurança humana. Desta vez, a agenda passa pela Ásia Central, onde o Quirguistão é um dos países que não consegue sair da beira do abismo, continua nos Balcãs, com a Bósnia-Herzegovina fracturada por questões étnico-políticas, vai ao Sahel, claro, e acaba bem longe, na Birmânia, onde temos uma processo político complexo, que fica mais complicado ainda se lhe acrescentarmos o peso das diferentes rebeliões internas.

A manutenção da paz: uma Europa fora de jogo

Este é o texto que hoje publico na revista Visão:

 

Uma Europa ausente das missões de paz

Victor Ângelo

 

 

Os “capacetes azuis” são, para muitos de nós, a face visível da ONU no terreno. Dão corpo a uma das funções mais centrais das Nações Unidas, a manutenção da paz. Para os estados membros, as operações de paz estão entre as questões internacionais que merecem mais atenção política. Muitos diplomatas acham mesmo prestigiante trabalhar nessa área das relações multilaterais, uma espécie de bife do lombo, bem mais atrativa que os temas do desenvolvimento, do ambiente, do comércio internacional e até, dos refugiados ou dos direitos humanos.

Apesar disso, o trabalho da ONU neste campo acha-se de novo numa encruzilhada, à procura do caminho certo. Já havia estado em risco, no final da década de noventa, após a confusão dos Balcãs. Recuperou e ganhou fôlego há dez anos, com os sucessos obtidos na Serra Leoa e na Libéria. Foi então introduzida a noção de “missão integrada”, no sentido de se combinar a ação militar com as dimensões de polícia e os aspetos civis da reconstrução nacional. Surgiram, nos anos seguintes, várias novas operações onusianas, sendo o Sul Sudão, o Mali e a República Centro-africana os exemplos mais recentes. Com a expansão acelerada das missões, as inconsistências tornaram-se evidentes. Não se trata apenas do atraso nos destacamentos, embora seja relevante ter presente que uma missão como a do Mali, passados um ano e meio, ainda tem mais de 30% dos efetivos em falta. Trata-se de outras questões. As insuficiências atuais derivam da ambição absurda dos mandatos definidos pelo Conselho de Segurança, do novo tipo de conflitos armados que têm surgido e da reduzida participação dos países mais poderosos nas missões de paz.

Quanto aos mandatos, a preocupação em dar uma resposta integrada a uma situação de crise nacional caiu no exagero. O que deveria ser uma operação excecional, por um tempo determinado, passou a ser encarado como uma intervenção de anos, uma sucessão de tarefas sem fim, como tem acontecido no Haiti ou na Costa do Marfim. Perdeu-se de vista o que é prioritário. Ora, as prioridades têm que ver com a restauração da segurança interna e dos direitos dos cidadãos. E, em simultâneo, com a facilitação de um processo político que leve à estabilidade democrática e resolva as causas profundas da violência.

Mais. Os conflitos do presente são diferentes das guerras civis e das rebeliões do passado. Estamos, na maioria dos casos, perante crises de grande complexidade. A resposta deve ter em conta a existência de vários grupos armados, com objetivos ambíguos e condutas assimétricas. As novas violências combinam diversos tons de fundamentalismo com banditismo de estilo paramilitar, tudo ensopado num molho híbrido, feito na base da exclusão étnica, da má governação, do desmoronamento das instituições públicas e, cada vez mais, do ódio ao que é entendido como o mundo ocidental. Nos últimos anos, a configuração das missões de paz deixou de ser adequada face a estas misturas explosivas.

Finalmente, há que sublinhar a questão da fraca participação da Europa e dos estados mais desenvolvidos. A realidade é simples: constituímos os países com maior capacidade de desempenho mas temos, ao mesmo tempo, uma presença quase insignificante nos contingentes da ONU. Em nome da eficiência – e também dos valores, da responsabilidade internacional e dos nossos próprios interesses vitais – é premente exigir mais. Meios existem e o treino, também. Falta a vontade política nas nossas capitais. O que é um paradoxo, quando se pensa na importância que se diz dar à manutenção da paz.

 

Europa e África: uma interdependência que se ignora

 http://tinyurl.com/q92cawy

O link acima dá acesso ao meu texto de hoje na revista Visão.

 

Escrevo sobre a Cimeira Europa-África, que acaba de ter lugar em Bruxelas. Procura sublinhar que esta é uma relação estratégica, mas em relação à qual há muito ruído, muita coisa lateral e cada vez menos atenção ao que é de facto essencial para o futuro de ambos os Continentes.

 

Transcrevo em seguida o texto original:

 

 

Europa e África: paradoxos e interdependência

Victor Ângelo

 

 

Dias atrás, mais de 60 líderes africanos e europeus estiveram reunidos em Bruxelas, para fazer um balanço e olhar para o futuro. Foi a IV Cimeira UE-África. Em retrospetiva, é fácil cair no comentário azedo e dizer que estas “grandes missas solenes” não servem para nada. Ou então, do lado oficial, proclamar que se tratou de um imenso sucesso.

 

A verdade é que nem oito nem oitenta. As cimeiras são importantes. As relações internacionais têm evoluído no bom sentido graças, nomeadamente, à pressão entre pares, ao mais alto nível, que está subjacente ao trabalho de preparação e à realização de encontros deste género. A insistência na boa governação, nos direitos humanos, na paz, na segurança e na luta contra a pobreza, entre outras questões, pode não converter um ditador à democracia. Mas tem contribuído para a melhoria do clima político nestas e noutras paragens. Do lado europeu, este tipo de eventos permite à sociedade civil, à comunicação social, aos centros universitários e outros grupos de reflexão chamar a atenção, em Bruxelas e nos estados membros, para a importância estratégica da interdependência entre a Europa e África.

 

A cimeira ofereceu igualmente a oportunidade de ver o continente africano com outros olhos. Não sei se os europeus souberam aproveitar a ocasião. A declaração final, extensa de 10 páginas, tem todavia muitos aspetos positivos. É uma boa agenda para os diálogos que se seguirão. O problema nestas coisas é que muitas vezes o acordo formal passa rapidamente a letra morta e as partes voltam ao velho hábito de sublinhar sobretudo os pontos de divergência. No passado, a exclusão ou não de Robert Mugabe desviou as atenções do essencial. Agora, o assunto não passou de um parêntesis sem relevo, embora desse um pretexto ao presidente da África do Sul para não estar presente. Uma posição que teve mais que ver com os desafios de política interna que Zuma enfrenta que com qualquer real simpatia pelo vizinho do Zimbabué.  

 

Desta vez, um dos pontos de fricção ancorou-se nos direitos das minorias sexuais. Os europeus aproveitaram a ocasião para censurar os estados africanos que recentemente criminalizaram a homossexualidade. Visaram, sobretudo, o Uganda, a Nigéria e a Etiópia. No caso do Uganda, a Dinamarca e a Holanda decidiram mesmo suspender os seus programas de cooperação. O que permitiu a alguns dizer, nos sussurros maliciosos que preenchem as pausas para café, que a ajuda ao regime de Museveni deveria ter sido travada há mais tempo, quando este andava assaz ocupado com a repressão dos seus opositores políticos. E a outros acrescentar que o surto de ébola na região da Guiné também deveria ter merecido uma réstia de atenção e uma resposta rápida da UE, que teria marcado pontos.

 

Do lado africano, as recriminações foram outras. África não aceita que chefes de Estado, como é o caso de Omar Al-Bashir do Sudão, possam ser levados perante o Tribunal Penal Internacional, enquanto estiverem em funções. E não vê escusa para a falta de apoio da Europa. Sobretudo depois de ter havido um fechar de olhos face a um caso semelhante, o do presidente do Quénia, Uhuru Kenyatta. Como também não compreende um outro exemplo de dois pesos e de duas medidas: estando ambos suspensos pela União Africana, a UE convidou o grande Egipto e excluiu a pequena Guiné-Bissau.

 

Gosto de lembrar que os paradoxos fazem parte das relações internacionais. O fundamental é não perder de vista a relevância do relacionamento da Europa com a África e passar das palavras à ação. A agenda comum tem muito pano para mangas. Felizmente. Assim haja vontade política.

 

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