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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Russos, americanos, tambores de guerra e mercados de capitais

A geopolítica continua a ter como preocupação número um a situação à volta da Ucrânia. A reunião prevista para sexta-feira, em Genebra, entre Antony Blinken e Sergey Lavrov, é esperada com alguma ansiedade. É difícil, neste momento, prever o que poderá resultar desse encontro. Creio saber, no entanto, que não há muito optimismo do lado americano.

Entretanto, os mercados bolsistas parecem ignorar este risco geopolítico. Estão sobretudo preocupados com os níveis de inflação, em particular nos Estados Unidos, e com os aumentos das taxas de juro. Vivem numa outra realidade. Também é verdade que tem havido um fluxo de desinvestimento nos mercados russos. E quem ainda lá está investido está agora preocupado em sair. Não se nota, no entanto, um movimento de pânico.

A Rússia, a Ucrânia e o nosso lado

O encontro de hoje entre os chefes das diplomacias americana e russa foi um passo positivo no sentido do abrandamento das tensões existentes à volta da Ucrânia. 

O antagonismo entre o ocidente e a Rússia conhece agora um pico por causa da concentração de um elevado número tropas russas junto da fronteira oriental da Ucrânia. Um destacamento dessa magnitude pode ser interpretado de duas maneiras. Ou se trata de fazer pressão política sobre os adversários, neste caso sobre o governo da Ucrânia e os países da NATO, para conseguir determinadas concessões – por exemplo impedir o aprofundamento das relações político-militares entre a Ucrânia e o Ocidente – ou então, como segunda hipótese, para preparar uma operação militar de grande envergadura.

De qualquer modo, estamos perante uma situação muito grave, com acusações mútuas e uma margem de manobra muito estreita. Se houver um erro de cálculo, de um lado do outro, a possibilidade de uma confrontação armada é real e poderá acarretar enormes consequências. É isso que se tem de evitar. 

Blinken e Lavrov são dois excelentes diplomatas, pessoas muito experientes e com uma grande inteligência. A sua reunião foi profissional e abriu uma janela de diálogo.

É agora fundamental que os dois presidentes se falem directamente E assumam a responsabilidade de desanuviar a questão ucraniana.

 A única via para um futuro de paz naquela região é o reconhecimento por todos que Ucrânia é um país independente, cujas fronteiras e política interna devem ser respeitadas, mas que terá de optar por uma situação de neutralidade, tendo em conta a sua geografia e a história. 

Quando se trata de vizinhos, a geografia e a história pesam imenso e têm de ser tidas em conta. A sabedoria dos líderes políticos passa por esse tipo de reconhecimento. Uma ruptura brusca com o passado pode acarretar reacções muito fortes, sobretudo se um dos vizinhos for a Rússia. Esse país tem uma ligação sentimental muito profunda com a sua história e ao mesmo tempo uma leitura das relações internacionais que vê ameaças que são mais imaginárias do que reais. 

As coisas sendo assim é preciso aceitar esse comportamento político como um factor importante e fazer tudo o que for possível para evitar mal-entendidos. Por outro lado, a Rússia enquanto Estado moderno tem de compreender que a independência nacional é uma questão essencial de soberania que deve ser escrupulosamente respeitada. 

 

 

Um regime criminoso chefiado por Lukashenko

O regime de Alexander Lukashenko é um governo dirigido por um criminoso e administrado pela clique que ainda não saiu da mentalidade soviética. Ontem, Lukashenko deu mais um passo na direcção do abismo, ao organizar uma operação de pirataria aérea contra um voo civil, que viajava entre duas capitais da União Europeia. Foi um passo de gigante, um acto de terrorismo de Estado, inadmissível.

A resposta dos líderes da UE tem de ser tão forte e clara quanto possível. Uma reacção fraca e confusa seria um tiro nos pés, para os europeus, e um incentivo para praticar mais crimes, por parte de Lukashenko. E já começou, este serão, com a proibição de voos para a Europa da companhia oficial da Bielorrússia, e com a interdição, para as companhias aéreas da UE de sobrevoar o espaço desse país.

Mas é preciso mais e sem demoras. Devem ser adoptadas medidas políticas, diplomáticas e económicas. E a companhia aérea visada deve introduzir uma queixa formal, num tribunal europeu – em Vilnius, por exemplo – contra Lukashenko e o chefe das operações de controlo aéreo da Bielorrússia. É fundamental que eles saibam que são considerados suspeitos de crimes contra a segurança de um avião civil e de desvio – hijacking – de uma aeronave.

O criminoso que manda na Bielorrússia desafiou os líderes europeus. Estes têm de saber responder ao desafio.

 

Como evitar as ratoeiras

Sergey Lavrov humilhou publicamente Josep Borrell, o Alto Representante da União Europeia para a Política Externa, quando este foi a Moscovo para abrir vias para um melhor relacionamento entre a Rússia e a Europa. Agora foi a vez de Recep Erdogan, o ditador da Turquia, de humilhar e envergonhar os dois dirigentes máximos da UE, Charles Michel e Ursula von der Leyen. Estavam em Ancara com uma agenda positiva e de abertura à Turquia. Erdogan humilhou a Presidente da Comissão Europeia, ao não lhe dar o tratamento político e protocolar a que tem direito, e criou um enorme problema de imagem para Charles Michel, que mostrou ser ingénuo, incapaz de tratar um ditador com o rigor que é exigido.

As visitas a Moscovo e agora a Ancara foram dois fiascos. Da ida à Turquia não se falou de outra coisa, na imprensa europeia, que da ratoeira armada por Erdogan. O resto, a substância das negociações, deixou de ter importância, ninguém é capaz de sequer dizer o que estava na agenda.

Os caudilhos que estão no poder em Moscovo e em Ancara são para levar a sério. Não se pode ir de ânimo leve e com ilusões, quando se trata de negociar com eles. Uma das características dos ditadores é a sua capacidade de manipular as situações e de esmagar, mesmo que simbolicamente, os adversários. Por saberem fazer isso bem, conseguem manter-se no poder anos a fio.

 

 

 

 

 

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