Portugal é grande quando abre horizontes

23
Out 14

Ébola: desafio à nossa consciência

Victor Ângelo

 

Muito se tem falado e escrito sobre a epidemia do Ébola. Na Câmara dos Representantes, em Washington, o assunto passou a fazer parte da histeria política. As audições parlamentares dos últimos dias mostraram que muitos políticos americanos são tão obtusos quanto os nossos. Às análises alarmistas juntaram-se proposições de resposta simplistas, confirmando-se assim a minha suspeição que os parlamentos são usados, tantas vezes, como meras câmaras de ressonância dos fantasmas populares, onde se repetem os lugares-comuns em voga. Com as eleições de 4 de novembro à porta, a epidemia tornou-se uma arma de arremesso, na disputa partidária pelo controlo do Congresso. Bem espremida a retórica, resta, do outro lado do Atlântico e por cá, a mesma obsessão: impedir que “eles” nos contaminem! Só que erigir barreiras e suprimir as ligações aéreas são ideias do passado, do tempo das fortalezas e das carroças postas em círculo, perante os ataques dos Índios. Nada têm que ver com o mundo global e interligado em que na realidade vivemos.

 

Nestas coisas, o mal corta-se pela raiz. O Ébola tem que ser combatido no terreno, na África Ocidental. E não apenas por se recear que possa ser importado para as nossas bandas. Para começar, trata-se de proteger as populações da Libéria, da Serra Leoa e da Guiné-Conacri. É uma questão de solidariedade internacional, um valor fundamental nas relações entre os povos. Se a epidemia não for contida, milhares de vidas continuarão em risco. O alastramento do vírus entrou já numa fase exponencial. Em seguida, há que ter em conta que o Ébola destruiu uma parte considerável da economia dos três países. Os mercados locais, nas vilas e nas aldeias, fundamentais para a sobrevivência quotidiana dos mais pobres, têm sido fortemente afetados, estando muitos deles suspensos. Sem contar com as quebras significativas da produção agrícola, das atividades comerciais e dos serviços. O afundamento económico está a provocar o desmoronamento das instituições públicas e políticas, que haviam sido laboriosamente reconstruídas nos últimos dez anos, após as guerras civis na Libéria e na Serra Leoa. E há uma outra consequência de que ninguém quer falar: a destruição do tecido social. Os ritos perante a morte têm um peso social importante nestas sociedades. Enterros sem cerimonial ofendem a memória dos mortos, mancham a honra da família, retiram poder e respeito a quem controla o exercício dos rituais. A suspensão das referências sociais e dos valores culturais leva à desorientação das populações, à destruição da coesão comunitária e à rejeição das instruções vindas das autoridades. Lembro aqui o caso recente de um imã muito popular em Bo, a segunda cidade da Serra Leoa. Morreu de Ébola. Ninguém conseguiu convencer os seus discípulos mais chegados que não se deveria proceder à lavagem tradicional do corpo nem à aspersão dos presentes com a água utilizada. Trinta e cinco pessoas terão sido assim contaminadas.

 

Tudo isto mostra a complexidade da questão ao nível do terreno. Ora, a África Ocidental não tem os meios suficientes, a infraestrutura, nem o pessoal apropriado para controlar a crise. Os EUA, a Grã-Bretanha e Cuba resolveram destacar técnicos e equipamento para o terreno. Mas é preciso mais, incluindo ajuda alimentar. A UE deve estar à cabeça do esforço, assim como a China e a Rússia, enquanto membros permanentes do Conselho de Segurança. É igualmente necessário reconhecer o papel de vanguarda que certas ONGs têm desempenhado, nomeadamente os Médicos Sem Fronteiras. E dar-lhes mais recursos. Temos aqui um repto que interpela a consciência de cada um de nós.

 

(Publicado no número de hoje da Visão)

publicado por victorangelo às 21:03

24
Ago 14

Critico quem tenta banalizar o impacto do Ébola nos países africanos da África Ocidental. Quem nos diz, com muito cinismo, que a OMS já declarou no passado outras crises pandémicas que afinal, com o tempo, se revelaram controláveis. Quem, com ligeireza, fala do Ébola como se tratasse de uma doença como o Sida, a malária ou a tuberculose. É verdade que estas doenças matam, cada dia mais gente que os que morrem por causa do Ébola. Mas o problema não reside aí. A epidemia está a destabilizar política e socialmente estados extremamente frágeis, que ainda não há muitos anos estavam mergulhados em profundas guerras civis. Há hoje um sentimento generalizado de pânico nesses países. Os governantes estão a perder o controlo da situação social. A unidade nacional, que estava pouco a pouco a ser reconstruída, encontra-se agora, de novo, ameaçada. O investimento político, económico e social que havia sido feito ao longo de anos de pós-crise nacional está em risco de se perder. Ou seja, estamos de novo perante uma crise estrutural na África Ocidental.

 

 

 

 

 

 

 

publicado por victorangelo às 21:35

07
Ago 14

Transcrevo o texto que hoje publico na Visão.

 

Um triângulo de desgraças

Victor Ângelo

 

 

No passado recente fui um visitante assíduo da zona das três fronteiras, o triângulo de Kissi, onde a Serra Leoa se encontra com a Libéria e a Guiné-Conacri. É um canto pobre e remoto da África Ocidental, a 500 quilómetros de Freetown, dois dias de viagem com um tração às quatro rodas e apenas possível na época seca. As minhas deslocações tinham que ver com uma colina e uns pedregulhos que separam a Serra Leoa da Guiné. O exército deste último país, uma tropa de maltrapilhos abandonados à sorte no meio do mato, ocupara a colina, que na realidade pertence à Serra Leoa. Este era um motivo de tensão entre os dois estados vizinhos. Os meus bons ofícios não resolveram nada. Deram-me, no entanto, a oportunidade de conhecer bem as populações locais, dos três lados das linhas de fronteira, e o que é viver em terras que só lembram ao diabo.

 

Digo isto do diabo, por várias razões. Uma delas tem que ver com a febre de Lassa, uma doença hemorrágica aguda, letal, endémica nessas terras. Matou alguns dos capacetes azuis da ONU, por lá destacados na primeira metade da década passada. Outra, porque foi aí que começou, em 1991, a guerra civil da Serra Leoa, que iria durar onze anos e veio a ser conhecida pelas amputações sistemáticas de braços. Também, por ter sido por essas bandas que a rebelião do famoso Charles Taylor ganhou calo. Agora, desde há uns meses, a região voltou a conhecer uma outra desgraça. É o epicentro do Ébola.

 

À miséria dos habitantes, que os leva a comer qualquer espécie de animais, incluindo ratos do campo, e frutos meio ruídos por morcegos, junta-se um alto grau de desconfiança política em relação às respetivas autoridades ao nível central. O governo em Freetown, a capital do país mais democrático e aberto da região, a Serra Leoa, é visto pelas gentes de Kissi como hostil às suas vidas. A região vota de modo esmagador pelo partido da oposição, por motivos de dependência e afinidade étnica. Daí resulta que a primeira reação à epidemia é a de pensar que se trata de uma infeção provocada por agentes do governo. Do lado da Libéria, a minha antiga colega, a Presidente Ellen Johnson-Sirleaf está cada vez mais associada à oligarquia libero-americana, a pequena elite da capital, descendente dos escravos retornados da América. Os naturais do interior não podem ver isso com bons olhos e acreditam cada vez menos nos políticos de Monróvia. Quanto à Guiné, a fragmentação étnica é a norma. O que se passa num canto longínquo do país pouco pesa no xadrez nacional, a não ser que o problema toque em gente influente no círculo presidencial. Tudo isto, mais a inimaginável escassez de meios dos serviços nacionais de saúde, a que se juntam certas crenças tradicionais e práticas ancestrais perante a morte, levaram a uma situação que está hoje fora de controlo. O que se sabe sobre o impacto do Ébola é apenas uma parte da verdade. Quem está por esses lados diz-me que a crise é muito mais séria.

 

A decisão recente da OMS de atacar a epidemia como uma emergência internacional é de louvar. Demorou, mas aconteceu. A Europa deveria juntar-se a esse esforço, como os EUA o estão a fazer. Mas a experiência ensinou-me que uma resposta de saúde pública numa sociedade profundamente traumatizada e com um quadro de valores muito peculiar só dará resultado se houver uma mobilização dos chefes costumeiros. As autoridades tradicionais são as únicas verdadeiramente credíveis. A informação tem que passar por delas, para que as populações compreendam a dimensão da nova tragédia e adotem os comportamentos que as protejam do contágio e da morte.

publicado por victorangelo às 18:47

19
Mai 14

Um dos agentes que se ocupava da minha segurança pessoal na Serra Leoa, um funcionário local ao serviço da missão das Nações Unidas, B. V. são as iniciais do seu nome, escreveu-me hoje. Para informar que acabara de ser transferido para a Líbia, para integrar a secção de segurança da missão onusiana nesse país. Anteriormente, havia estado comigo no Chade, depois de Freetown, e nos últimos anos tem feito parte do grupo de segurança pessoal da Representante Especial do Secretário-geral em Abidjan.

 

A mensagem que dele recebi lembrou-me de várias coisas.

 

Da lealdade que este antigo e simples funcionário local sempre demonstrou para comigo. Na Serra Leoa, a minha intervenção fez com que o candidato presidencial do regime não tivesse a oportunidade de roubar as eleições. Ora, B. V. era apoiante desse candidato e da mesma origem tribal. Mas sempre acreditou que eu sabia o que estava a fazer e nunca me atraiçoou.

 

Da africanização das missões de paz da ONU. Hoje essas missões têm um elevado número de funcionários de origem africana. B.V. é um exemplo. Um bom exemplo. E ainda bem que assim acontece.

 

Do peso que as questões de segurança passaram a ter. A segurança é a preocupação absoluta numa missão. Depois vem o resto, a política, o humanitário, o desenvolvimento.

 

Do facto que existem actualmente vários portugueses, normalmente originários da PSP, em funções de segurança na ONU. No Mali, em Bissau, no Haiti, até mesmo em Genebra. E que há muita gente na PSP e na GNR que gostaria de partir e juntar-se aos que já foram recrutados.

 

As coisas da manutenção da paz são, na verdade, um mundo novo.

publicado por victorangelo às 20:49

19
Nov 12

Nos últimos dias, tem-se falado muito no Corpo de Intervenção (CI) da PSP. Queria, também eu, acrescentar umas linhas ao assunto.

 

Em 2007, durante o processo de reorganização da Polícia da Serra Leoa, foi um Comissário português, do CI, que dirigiu, no quadro da missão da ONU, a formação da primeira unidade antimotins do país.

 

O trabalho que esse Comissário desenvolveu foi considerado exemplar. O novo serviço da Polícia da Serra Leoa foi apontado como um modelo de profissionalismo, em termos de controlo de multidões e de manifestações, capaz de responder às necessidades da ordem pública num país que estava a dar os seus primeiros passos num regime democrático. 

publicado por victorangelo às 20:39

17
Nov 12

Tiveram lugar hoje, na Serra Leoa, eleições presidenciais e legislativas. Foi a terceira vez que o país foi chamado a votar, após anos de guerra civil, que provocaram mais de 50 000 mortos e milhares de mutilados, com braços e mãos cortados à catanada pelos rebeldes. O dia eleitoral decorreu em paz e com elevada participação popular. Um bom exemplo de exercício democrático na África Ocidental. Uma vez mais, Christiana Thorpe, a presidente da Comissão Nacional de Eleições, mostrou ser uma mulher excepcional, uma Africana de grande coragem.

 

Organizei as eleições precedentes, em 2007. Foi um dos períodos altos da minha carreira. Foi também um dos momentos de maior tensão. O candidato do partido no poder tentou, nessa altura, fazer tudo por tudo, para ganhar o voto popular. Sabia, no entanto, que a tendência geral era contra ele. Procurou, por isso, usar todo o tipo de truques e de fraudes. Um dos meus antigos colegas da ONU, que entretanto regressara ao país e era um apoiante incondicional do governo, foi um dos personagens que liderava as tentativas de fraude. Tive que o chamar à pedra, acenando com a possibilidade da sua detenção, se continuasse a tentar viciar o processo.

 

O anúncio dos resultados oficiais estava marcado para uma segunda-feira, pelas 10:00 horas. No sábado anterior, o Vice-presidente da República, que era o candidato oficial do governo, depois de uma reunião extremamente difícil comigo, anunciou-me que nessa mesma tarde iria proceder à impugnação das eleições, através de uma petição que seria entregue em mão ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Disse-lhe, com toda a clareza, que a ONU não via razão alguma para esse tipo de acção, a não ser que o objectivo fosse o de pôr em causa um processo eleitoral que fora considerado por todos os observadores como limpo. Não quis aceitar a minha recomendação. Saí da reunião e, após consultar a embaixadora britânica, dei autorização para que se “levasse” o Presidente do STJ para parte incerta, sob a custódia dos ingleses, e que só fosse “libertado” na segunda-feira, a tempo de anunciar, às 10:00 da manhã, os resultados oficiais.  

 

Assim aconteceu. A proclamação teve lugar como previsto. Ouviu-se, então, um clamor de alegria por toda a cidade de Freetown.

 

A meu pedido, a transferência de poder teve lugar nesse mesmo dia, às 17:00 horas.

 

Assim se fez história, em 2007, na Serra Leoa. 

 

A petição do candidato derrotado, elaborada com todo o rigor jurídico, nunca foi recebida pelo Presidente do STJ...

publicado por victorangelo às 21:14

15
Ago 10

 

Copyright V. Ângelo

 

Dedicada ao meu velho amigo Alfred Sallia Fawundu, que depois de muitos anos a andar pelo mundo, com a Guiné-Bissau e Angola também na lista, e a aprender pessoas e línguas, incluindo português, voltou a Pujehun, uma das mais belas regiões da África Ocidental, e à luta pelos seus. Sempre com alegria, generosidade  e muita elegância política. Era um candidato presidencial possível, às eleições de 2012, na Serra Leoa. Hoje, em Freetown, antes do nascer do Sol, deixou todos os que o conheciam mais pobres. De repente.

 

publicado por victorangelo às 23:11

26
Jan 09

 

 

Copyright V. Ângelo

 

 

Amanhã começa o novo ano judicial.

 

Este rio e estes terrenos alagadiços da Serra Leoa, vistos na perspectiva de um horizonte que se esbate numas cores pálidas,  fazem-me pensar, sem que saiba bem porque razão, em certos processos nas mãos da justiça portuguesa.

 

 

publicado por victorangelo às 20:35

17
Dez 08

 

Copyright V.Ângelo

 

 

 

Makeni, Serra Leoa.

O consultório é por detrás da cortina.

 

publicado por victorangelo às 06:47

 

Copyright  V.Ângelo

 

 

 

Makeni, Serra Leoa

 

O especialista médico do canto ao lado, cada um faz por si e é só apontar o tipo de maleita. Não há enganos.

publicado por victorangelo às 06:47

twitter
Setembro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
11
12
13

18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


<meta name=
My title page contents
mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO