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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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O teatro da política

A apresentação do chamado “plano de paz”, que ontem teve lugar na Casa Branca, fez-me lembrar algo que vou dizendo de vez em quando: uma boa parte das iniciativas políticas são meros actos teatrais. Espectáculo, luz, som e espelhos. Isto é particularmente verdade nestes tempos de televisão e de imagens. Faz-se comunicação, não se resolvem problemas.

A família socialista ficou mais reduzida

A Internacional Socialista, por carta datada de 31 de Janeiro de 2011, resolveu retirar da lista dos seus membros o partido de Hosni Mubarak.

 

O Partido Nacional Democrático, o partido do regime, era membro da Internacional Socialista desde 1989. Tinha sido admitido como um meio de premiar Mubarak pelo tipo de relações que mantinha com Israel. Não por ser socialista e, ainda menos, por ser democrático. A decisão fora mais um exemplo da ambiguidade com que o Ocidente tem tratado a governação autocrática do Egipto.

Com pinças

 

Li o acordo entre o governo e o PSD sobre o Orçamento de Estado para 2011. É mais um desacordo que outra coisa.

 

O governo "é da opinião", diz o texto, assim mesmo, opinião, no que respeita às medidas anunciadas em Maio de 2010, "...que as implementou integralmente". O PSD, sobre o mesmo assunto, e cito o texto assinado por ambas as partes, "...exprimiu um entendimento diverso quanto à implementação das medidas do lado da despesa e fez uma avaliação muito crítica em relação à derrapagem muito significativa das contas públicas em 2010".

 

O resto tem um ou outro ponto concreto, sobre o IVA a 23%, e vários para serem estudados, mais tarde, provavelmente no dia de São Nunca. Tudo muito apressado, como para confirmar que este acordo é o que é, resultado de pressões externas aos dois signatários, um acordo em que se mexe com pinças e o nariz tapado.

 

Como é que se diz "du bout des lèvres", em terras lusas? Será, para Inglês ver?

Um homem grande

 

Copyright V.Ângelo

 

 

Este foi o meu carro blindado, durante dois anos, em N'Djaména.  Um carro que estava muito associado à minha pessoa. Que só saía comigo.

 

O meu motorista, Ousman Aballi, um Chadiano, foi treinado em Washington. Aprendeu a conduzir em situações de risco. Manteve sempre uma relação muito profissional com a equipa do GOE. E, tendo ouvido algumas conversas, que há quem goste de falar enquanto está a ser conduzido, foi sempre muito discreto, fingindo que não ouvia. Um homem grande. Um senhor de silêncios, que é uma das características de quem tem dimensão.

 

 

Um Portugal seco e confuso

 

Copyright V. Ângelo

 

O wadi de Iriba traz frescura à vida. Um wadi é um rio do deserto, que só corre uns dias por ano. Os animais aproveitam a sombra, ocupam o leito do rio. É como se vivessem apenas da beleza do local, que mais nada há para comer.

 

Estes bichinhos fizeram-me pensar no Bastonário da Ordem dos Advogados, em Portugal, a milhares de milhas de Iriba. O homem não andará a pedir bastão, mas anda a fazer umas declarações incendiárias sobre o poder judicial. Cada frase é mais uma acha para a confusão que se vive no nosso país. Estamos numa situação em que já ninguém acredita em nada. É o circo do desconcerto, do descrédito das instituições, do avilamento da vida pública. Os que deveriam ter uma atitude de apaziguamento e de responsabilidade estão a comportar-se como pirómanos.

 

Tudo isto só pode contribuir para que Portugal se afunde ainda mais.

 

Temos uma paisagem política que se aproxima da reflectida na fotografia.

 

 

O sapo e o elefante viajam de helicóptero

 

Entre uma viagem até à fronteira, com uma mão mal cheia de embaixadores importantes, uma entrevista à BBC (Língua Portuguesa) e outra, bem longa, à Radio France Internationale, umas reuniões com trabalhadores humanitários, e outras com autoridades da administração local, pensei numa historieta que poria um sapo e um elefante juntos, à volta da mesma poça de água. Uma lenda como muitas, em que o gigante vive sem atender aos pormenores da vida, cortando sempre a direito, e o pequenino, quando se vê ao espelho, imagina-se tão poderoso como o elefante que lhe é vizinho. Passei algum tempo a pôr contornos nesta relação estranha. Neste drama, vivido à beira da frescura da água que dá vida ao mato.

 

A historieta ficaria, no entanto, por contar. O barulho dos motores do último helicóptero do dia, o terceiro, já por volta das cinco da tarde -- "eran las cinco en punto de la tarde", escreveu Federico García Lorca, há tantos anos -- pareceu-me fora do normal. O engenho voava baixo, a cem metros do solo. Parecia que tinha dificuldades em avançar. Várias toneladas de aço soviético, produzido há tanto tempo, talvez nos momentos áureos da guerra fria. O vento, que soprava de lado, fazia-o dar golpes da cauda. Passei uma boa parte do tempo a olhar desesperadamente pela janela, a medir cada pedregulho, a estimar o diâmetro de cada clareira. Cheguei a pensar que teríamos que aterrar de emergência, no meio da desolação. Preocupei-me, então, com uma coisa estúpida: o embaixador francês havia-me dito que tinha uma jantar na sua residência, este serão, e eu comecei a pensar que o homem teria que passar a noite nestes ermos, longe dos seus convivas, que, ainda por cima, eram gente de artes e letras, de cinema e folhetins, todos muito bonitos e elegantes, e o pobre do embaixador, de botas, cheio de pó, esfomeado, a viver o frio da noite que seria passada no deserto.

 

Com tudo isto, o sapo e o elefante fugiram da minha mente. A própria poça de água, uma visão tão frequente nos desertos que me rodeiam, deixou de me parecer real. E agora, quando voltar a tentar escrever esta narração, o enredo terá sofrido e o conto será outro. É que esta vida que me ocupa não deixa grandes espaços para a imaginação.

 

 

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