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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

O vendedor de óculos de sol

Ninguém lhe pergunta pelo nome. Há anos que passa o dia na esplanada da rosa-dos-ventos, junto ao Padrão dos Descobrimentos, em Belém. A vender óculos de sol. Durante alguns anos, foi o único vendedor. Agora, o sítio está cheio de “ciganos”, como ele diz, todos no mesmo negócio. Ele também é cigano, mas de outra estirpe, um verdadeiro senhor, sem sotaque e sempre bem apresentado. Elegante, à sua maneira, que quem vende deve inspirar confiança.

Para quem passa, hoje ou frequentemente, é apenas um velho cigano que por ali anda, 67 anos de idade, a tentar vender uns óculos que poucos compram. Na verdade, com a concorrência que por ali há agora, tem dias em que vende apenas um par. Diz que mesmo assim vale a pena, que isso o ajuda a passar o tempo, permite-lhe sair de casa, longe do rio, na zona de Loures.

Nestes últimos tempos, anda encostado a uma canadiana. Tantos anos de pé, à volta do mundo que está desenhado no chão da rosa-dos-ventos, deram-lhe cabo de ambos os joelhos. De vez em quando não se aguenta nas pernas e cai. Mas com a afluência de turistas, há sempre quem o ajude a levantar-se. Um vendedor de óculos de sol vive e sobrevive de pé.

Está inscrito no Hospital de Loures há muito mais de dois anos, para fazer a operação que os joelhos lhe pedem. No chamado Serviço Nacional de Saúde. Já o convocaram, há cerca de um ano, para falar com o anestesista. E depois, é só esperar. E lá continua à espera, talvez mais um ou dois anos. Nessa altura, já deverá andar de cadeira de rodas, sempre à volta do mapa do mundo. O SNS pode não funcionar, mas a vida de vendedor ambulante não pode parar.

Entretanto, vai-se consumindo na resignação revoltada de quem não tem nome nem acesso. E de quem sabe o que significa ter que esperar pelo SNS.

O Diamantino é, afinal, à sua maneira, como muitos de nós.

 

Os enfermeiros

Vista com alguma distância e sabendo o que se sabe sobre as imensas dificuldades do Sistema Nacional de Saúde, e também sobre a situação económica da maioria dos que têm que recorrer ao SNS, a greve dos enfermeiros parece-me situar-se para além do razoável. É certamente profundamente questionável, quer do ponto de vista da ética social quer ainda da lei da greve. Marcadamente excessiva.

Precisa de uma resposta política coerente. Essa resposta não pode ser dada apenas pela Ministra da Saúde. Deve competir ao Primeiro-Ministro. A gravidade das implicações desta iniciativa contestatória não permite que António Costa fique calado. De modo algum. É uma questão de liderança perante uma questão de interesse nacional.

PS: Depois de publicar este escrito, vi que o Primeiro-Ministro falou e foi claro. Só posso acrescentar, muito bem! Muito bem, na verdade! Apoio o que disse.  

Ainda sobre o SNS

O meu escrito de ontem sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) mereceu um comentário muito pertinente do meu Amigo LFBT. Aconselho a ler o que ele anotou. E respondo que a solução para o que funciona mal no que respeita ao nosso SNS não é, como aliás ele bem frisou, a medicina cara e comercial praticada pelos seguros de saúde privados. A solução é um SNS mais eficiente, mais justo, mais equilibrado e mais acessível e atento aos que mais precisam. E mais médicos, de família e especialistas.

Mas, acima de tudo, há um problema de atitude que é preciso resolver. Não apenas a atitude que LFBT encontrou nalguns casos da medicina privada, que passa por tentar levar ao consumo de tratamentos que não se justificam. Falo, também, de uma atitude mais geral, que leva muitas vezes os médicos a não ver a pessoa, no sentido de não lhe dar a consideração, a atenção devida, e a tratar os pacientes por cima da burra.

 

Tenho ainda presente que os mais pobres hesitam em ir às consultas não apenas por que não querem ser humilhados mas também porque “descobrir” que se está doente acarreta despesas, que mesmo subsidiadas, são incomportáveis para quem não tem recursos.

 

Ou estarei enganado?

 

 

 

 

 

 

 

O SNS parece ser um tabu

 O Serviço Nacional de Saúde (SNS), visto donde eu me situo, funciona bem numas coisas e muito mal noutras. E quando um sistema tem muitas imperfeições, acaba por ser injusto: são os que têm menos poder económico e os pobres que sofrem mais com as falhas do sistema. Em Portugal, estar doente e ser pobre ainda é uma tragédia.

 

Assim acontece no nosso país. Quem não tem dinheiro nem cunhas, fica para trás e será atendido quando o for e, tantas vezes, sem a atenção necessária. Intervenções que, noutros países europeus, seriam feitas sem demoras, ficam meses por fazer, no nosso caso.

 

Mas, curiosamente o nosso SNS parece ser uma vaca sagrada. Todos o veneram e ninguém ousa contestar a sua ineficácia e as injustiças que lhe estão subjacentes.

Um SNS caricato

 

Diz um leitor, num comentário de hoje, que a saúde não se interessa pelos pobres. Que os pobres são humilhados todos os dias nos centros públicos de saúde.

 

Não posso estar mais de acordo. O SNS é uma caricatura.Os utentes são tratados com desprezo. Um velho senhor da política, que sempre aponta o estabelecimento do SNS como uma grande iniciativa do seu partido, um momento histórico na governação que esse partido liderou, nunca deve ter utilizado o sistema. Vive, como em muitas outras áreas, numa ilusão política.

 

Quem é pobre confronta uma realidade bem mais diferente. Veja-se, a título de exemplo, o que o meu leitor conta.

 

Este é um dos aspectos da política portuguesa que terá que mudar.

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