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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

O texto desta semana no Diário de Notícias

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/08-ago-2020/questionar-a-obsessao-securitaria-12503101.html

O texto que publiquei no DN de sábado, 8 de agosto, já está com acesso livre.

Deixo-vos o link acima. E desejo-vos boa leitura. E peço que o comentem, se vos for possível. 

Tempos de desafios e de mudança

O mês de Maio deste ano tão especial termina cheio de contradições e interrogações. O poeta diria que vivemos tempos de desassossego. Há optimismo, mais do que havia no início do mês, uma luz que assinala uma esperança de recuperação, maior ou menor, segundo as perspectivas de quem a experimenta. Por outro lado, existe um grande nível de incerteza e de insegurança. Para uns, a vida continua, sem grandes ansiedades. Para outros, o futuro imediato tem a forma de um túnel escuro, que deve ser percorrido sem que se saiba onde nos leva.

A verdade é que o choque que a pandemia e a resposta provocaram é enorme. Ainda estamos longe de compreender a dimensão do impacto. Mas que é multifacetado, não podemos ter dúvidas. Como sempre, os mais poderosos saberão proteger os seus interesses, por muitos abalos que os mesmos possam ter sofrido. Curiosamente, as populações menos conectadas com a economia global também não serão muito afectadas. O seu nível de subsistência continuará como de costume, fechado no pequeno círculo que delimita claramente o beco a que pertencem. No meio, há toda uma massa de gentes que poderá cair na pobreza e no desespero. É aí que a instabilidade e a precariedade criarão as suas raízes e poderão ser exploradas por todo o tipo de radicalismos. Ou, visto de outro modo, poderá ser aí que o vento da mudança venha a ganhar força.

Perante a incerteza e os riscos, a melhor solução é a de desenhar um futuro mais coerente e, em seguida, iniciar o caminho que nos deverá fazer chegar a essa ambição. Essa deve ser a tarefa dos novos líderes. Esse deve ser o grito de guerra de cada cidadão empenhado na transformação social.

Não tenhamos dúvidas. Ou há transformação social ou entraremos num mundo de grande desordem política.

Não aceito o pessimismo

Não se pode confundir realismo com pessimismo. Realismo significa que se compreende bem a situação e o impacto que ela tem nos diversos aspectos da vida. O pessimismo é um sentimento de impotência em relação ao futuro. Não se acredita que existe visão, determinação e genica suficiente para mudar o curso dos eventos. O pessimismo rima com determinismo, fatalismo. Sem uma visão clara, acabamos por ter uma perspectiva confusa das soluções possíveis, andamos à nora no que respeita às prioridades que devem ser atacadas antes de tudo, criamos uma imagem negativa de nós próprios. Perdemos, igualmente, o sentido de urgência. Deixa de haver confiança. Sem confiança, cai-se no pessimismo.

É esse pessimismo que é preciso evitar, neste momento de grande crise. A enormidade da crise pede respostas claras, rápidas e um diálogo permanente com os cidadãos. Não se sai de uma crise destas sem se ter conseguido mobilizar a grande maioria dos cidadãos. A compreensão e a adesão são essenciais. Só se conseguem com diálogo e argumentos convincentes, tendo como pano de fundo um calendário de etapas. Argumentos que demonstrem que há espaço para alterar o destino.

 

Nós e os nossos farsantes

Uma boa parte da nossa política é uma farsa triste. E uma das habilidades dos farsantes é a de nos fazer acreditar em trapaças e falácias. Uma delas é que eles andam nisto por causa do bem comum, por dedicação. Quantos portugueses haverá que acreditem nisso?

Quando falo da nossa farsa triste, não pensem que fico resignado. A política praticada dessa maneira é inaceitável e cada um deve procurar ajudar a mudar a coisa. Poderíamos ter um país formidável, se a classe política sentisse que há pressão, a vários níveis, para que as coisas funcionem melhor e com mais visão.

Haverá, também que desmascarar algumas falácias, que eles conseguiram meter na cabeça dos cidadãos. Quais? Deixo, para já, a pergunta.

Você disse "ordem liberal"?

Não entendo o que querem dizer certos intelectuais, quando falam da “nossa ordem liberal” e que esta estaria a ser atacada em vários países da União Europeia. Liberal é um conceito americano, para caracterizar quem é mais progressista, perante a massa conservadora, tradicionalmente Republicana.Na Europa, liberal é uma espécie de filosofia política, mal definida, mas que pretende indicar uma opção por governos menos intervenientes nas esferas económicas e sociais. Mas, fora de tudo isso, a “ordem liberal” é o quê?

Para além da resposta que possa ser dada, quero desde já acrescentar que o que me interessa é a democracia, a liberdade de opinião, o respeito pelas minorias, o equilíbrio de poderes, o bom funcionamento das instituições e a existência de uma sociedade civil dinâmica e diversa. É por essas bitolas que meço a qualidade da governação em cada um dos Estados da UE.

Chamo a isso democracia participativa, por oposição à democracia de fachada. É a democracia participativa que está sob ameaça em vários países europeus. A democracia de fachada utiliza o voto popular, manipula as eleições, infiltra a comunicação social, para garantir a perenidade de alguns dos nossos pequenos ditadores e das suas cliques de clientes.  

 

 

 

Combater o radicalismo

A radicalização de posições faz mal à política. Um país, Portugal, por exemplo, tem sempre um tecido social diverso, por muito forte que seja a identidade nacional. Aliás, o próprio conceito de identidade nacional, em vários dos Estados da Europa Ocidental, é cada vez mais difícil de definir. Voltarei a essa reflexão um destes dias. Agora, concentro-me na diversidade de interesses e de opiniões que existe em cada sociedade. E que deve ser respeitada.

O papel dos actores políticos só pode ser o de tentar encontrar áreas de entendimento entre os diferentes segmentos da sociedade.  Nenhum país medra se passa o tempo em guerra civil consigo próprio. Apostar na divisão e no ataque sistemático contra os que pensam de outra maneira é má política, é coisa do passado. Liderar é saber construir consensos, erguer as bandeiras que contam para a maioria e ter a coragem de propor plataformas abrangentes. Liderar é unir e garantir o progresso colectivo.

Este blog não se cansará de repetir a mensagem da convergência. Como também não deixará de criticar os radicais que andam nas praças públicas e que se acham senhores da verdade. Infelizmente, temos uma boa colecção deles. E vemos, com preocupação, que fazem mais ruído e captam mais atenção do que lhes seria devido. Mas não há razões para hesitar nem para que nos deixemos atemorizar.

Um radical é um simples de espírito, uma pessoa de uma ideia só. Não creio que seja difícil demonstrar que essa simplificação do argumento não é resposta que se possa aceitar.

Também existe uma política limpa

As notícias dos últimos dias, sobre corrupção em larga escala e todas as suas ramificações, têm levado alguns dos meus amigos e conhecidos a dizer que os políticos são todos uma boa porcaria. Uns mãos sujas, de tanto as meterem no saco dos dinheiros públicos.

Perante isso, e aceitando que haja muito motivo para muita indignação, queria aqui pedir que não se generalizasse. Ainda há gente que anda na política por acreditar em ideais e por dedicação às causas públicas. Ainda há quem lute pelo bem comum.

O que é fundamental é que haja separação de poderes na vida política, instituições fortes e eficazes, e muita transparência. A corrupção começa a aparecer quando essas coisas falham e quando o poder é apropriado por caciques, por sociedades secretas e por oportunistas, os fulanos e as fulanas que vivem à sombra dos chefes eternos

O caos em muitas das escolas públicas

 

Os governos das últimas décadas deixaram a indisciplina instalar-se em muitas das escolas públicas. Muitos dos alunos fazem apenas o que lhes passa na real gana. Não se aplicam, não estudam, não sabem escrever e falar português, não respeitam nada nem ninguém. É o caos à solta. Serão, quando chegarem à vida adulta, incapazes de se adaptar às exigências do progresso e de uma vida social produtiva. Andarão por aí, a arrastar a sua indigência e o incivismo que aprenderam nas escolas.

 

O impacto de tudo isto no futuro de Portugal é imenso. A culpa terá que ser atribuída aos que assumiram responsabilidades políticas nos últimos vinte ou trinta anos e que não tiveram a coragem de agarrar o problema. A sua incompetência, falta de coragem, de patriotismo e o oportunismo político que os inspiraram irão custar muito caro ao nosso país.

 

A força da sociedade civil

Estamos a assistir a abusos sistemáticos do poder político. Mesmo em países com regimes democráticos. Essa é uma das dimensões da crise das democracias, um facto novo e verdadeiro..

O abuso do poder é claro. Uma vez eleitos, os líderes comportam-se de modo inaceitável. Como se estivessem acima das leis e de cada um de nós.

Uns, agem como se a sua eleição lhes permitisse um nível de autoridade absoluto, acima do normal funcionamento das instituições. Comportam-se como uma espécie de ditadores com cores democratas. A sua legitimidade é apresentada como sendo superior à usufruída pelas outras instituições da governação. Outros, aproveitam o poder para criar uma base populista. A posição que ocupam é permanentemente usada para alienar as massas populares, para mentir e criar ameaças e medos que não têm razão de existir mas que servem como base de consolidação do seu poder pessoal. É uma maneira moderna de dar um sentido divino ao seu papel de governantes.

Se os outros pilares da governação não conseguem responder a estas usurpações do poder – e a verdade é que o não conseguem, basta ver como os parlamentos se transformam em meras caixas de ressonância –, a resposta terá que vir da comunicação social e dos movimentos de cidadania. Mas esses líderes abusadores sabem que esse risco existe, que a contestação poderá provir dessas bandas. Por isso, tentam corromper uma parte da comunicação social. E há sempre quem, nos jornais e nas televisões, esteja pronto para desempenhar o papel de defensor intransigente de quem está no poder. Tentam, igualmente, criar barreiras que dificultem a acção das associações de cidadãos.

Nem sempre o conseguem. O que me faz dizer que, nesta altura de ataques directos ao bom funcionamento dos regimes democráticos, é indispensável dar força e asas aos cidadãos e às suas organizações. Uma cidadania activa, esclarecida e robusta torna uma nação mais livre e mais coesa. Deste modo, a resolução da crise da democracia passa pelo dinamização das associações da sociedade civil.

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