Portugal é grande quando abre horizontes

21
Ago 19

O SAPO anda por aí a perguntar a certas pessoas qual seria a sua prioridade número um, se fossem o próximo Primeiro-Ministro, após as eleições legislativas de Outubro. Acho que é uma boa iniciativa. Mais ainda, creio que cada português – homens e mulheres – se deveria interrogar da mesma maneira. Daí resultaria, certamente, um sentido mais apurado do que falta fazer no nosso país. Todos ganharíamos com esse exercício.

publicado por victorangelo às 21:00

18
Ago 19

Uma boa parte das colunas de opinião que aparecem nos nossos jornais são chatas como a ferrugem. A expressão é velha, mas traduz bem o que penso. Imagino que a maioria das pessoas – os poucos que ainda compram papel – não terá paciência para as ler. Na generalidade dos casos, nem valerá a pena. Os autores repetem-se uns aos outros, copiam de jornais estrangeiros, e têm, acima de tudo, uma posição ideológica pré-determinada, onde tudo o que escrevem deve caber. À esquerda ou à direita. São os articulistas quadrados da mente, que o divino tenha piedade deles. Nós, é que não temos tempo e pachorra para lhes dar.

Um dos meus amigos escreve sobre política internacional e europeia. Cada texto parece escrito à metralhadora, com rajadas em todos os sentidos, que só há burros à sua volta. E ataca sempre o que está na moda, depois de ter lido um ou dois sítios estrangeiros. É um guerrilheiro das questões internacionais. Outro, escreve sobre política nacional. É um ver se te avias, um activista mental contra o governo, os liberais – embora não entenda bem o que significa ser-se liberal na Europa macroniana de hoje – e os fantasmas da direita. Sim, porque à direita só já temos fantasmas e outros espíritos invisíveis. Esta quadra de greves e requisições civis deu-lhe muito pano para mangas.

E assim sucessivamente.

O que também me deixa boquiaberto é o espaço que a comunicação social dá a esses intelectuais da pena grande. Fico a perceber melhor quando sei que essa gente sai barata e enche páginas a custo zero ou quase inútil. Com os jornais em falência, este é um recurso de gestores pretensamente espertos. O problema é que tais cronistas e opinadores não atraem leitores nem vendem papel. E papel que não se vende significa que não há receitas publicitárias que prestem. E a pescadinha enfia o rabo na boca, volta a ter mais opinião barata e menos vendas. É o carrossel da miséria.

Nestas coisas, lá bem no fundo, o essencial é que haja o culto dos egos. E isso não parece faltar.

 

 

 

publicado por victorangelo às 20:06

16
Ago 19

Estamos em meados de Agosto. Este é o fim de semana que mais sabe a férias, a praia ou campo. Escrever sobre coisas sérias – ou fazer greve – nesta altura do ano, é tempo perdido. As preocupações são outras. Mesmo para quem não tem a possibilidade de ir para fora, a cidade fala-nos de férias, das dos outros, das ruas mais calmas, dos inúmeros grupos de turistas, dos dias quentes.

Não é que o mundo pare. Mas, a nossa atenção anda por outras paragens.

publicado por victorangelo às 21:53

11
Ago 19

Ninguém fala nas implicações estratégicas de um greve que tem que ver com a disponibilidade de combustíveis. Fico com a impressão que já não está na moda falar em termos de interesse nacional. É tudo reduzido a interesses específicos e a oportunidades para fazer política partidária, para atacar à esquerda e à direita. E para pôr em causa a autoridade legítima do Estado. Não andaremos um pouco confusos dos miolos?

publicado por victorangelo às 22:54

09
Ago 19

Não sei se já tentou explicar ao seu gato que, num Estado democrático e com um governo constitucionalmente legitimo, é essencial reconhecer a autoridade do governo. Claro que não é fácil convencer o bicho, mas há que insistir, repetir e não perder a paciência. Se o seu gato lhe falar do 25 de Abril e da liberdade, diga que sim. São aspectos determinantes da nossa vida. Mas repita que sem um Estado forte, a agir dentro da lei, não há sociedade que se entenda nem respeito pelos interesses de todos, que são mais importantes que os interesses específicos do seu gato e dos seus companheiros de goteira.

Caso não tenha gato, experimente falar com um pássaro, um pardal, por exemplo. Há muitos, por aí.

 

publicado por victorangelo às 20:58

08
Ago 19

Depois de ter lido uma coluna de opinião, em que o autor se assanhava, sem se perceber bem a razão, sobre uma possível ligação entre as greves cá do burgo e a agenda política da extrema-direita nacional – um conceito que ficou por definir, sem que o camarada nos dissesse quais são os partidos com assento parlamentar que têm essa bandeira extremista –, só me faltava pisar merda de cão. E quase que acontecia. A rua com mais movimento aqui na vilória do Baixo-Alentejo onde me encontro está cheia de dejectos desses queridos animais. Tem sido um ver se te avias, desde o início da semana. Os donos dos bichinhos, que até nem serão cá da terra mas que por aqui estarão a passar uns dias, ficam deliciados com o funcionamento regular dos intestinos dos ditos, e querem que partilhemos a alegria.

Um articulista assanhado diria que se trata de complô contra a maioria de esquerda que governa o município. Tratar-se-ia de desacreditar a autarquia, que isso de pisar cocó leva ao reforço da oposição extremista.

Eu teria uma outra perspectiva. Inspirado pelo cheiro que os passeios nos brindam, e agradecido pela gincana que é preciso fazer, para não pôr o pé na coisa, diria apenas que se trata de duas dimensões. De um poupar de água, na altura mais seca do ano. Lavar os passeios não seria ecológico, como também não é a favor da sustentabilidade do ambiente plantar oliveiras e vinha por toda a parte do Alentejo. E, segunda dimensão, de um certo gosto que temos de andar, aqui e acolá, a fazer merda.

publicado por victorangelo às 22:19

31
Jul 19

Volto ao assunto da corrupção do poder político. Para pedir que não se aceite a ideia que corruptos, são eles todos. Na verdade, houve quem reagisse assim ao meu escrito precedente, quem pensasse que isto de se andar na política é sempre por mero interesse pessoal. E, com base nisso, desculpasse ou minimizasse o que se tem conhecido nos tempos recentes.

Não creio que essa seja uma maneira certa de ver a coisa pública. Mais. Penso que se deve combater a ideia. A liderança política, no país que queremos ter, deve ser impoluta e tem que estar acima de qualquer suspeita. Por outro lado, as instituições devem ter mecanismos de controlo e auditoria capazes de funcionar e de impedir possíveis desvios. Quando tal não acontecer, o sistema de responsabilização e de penalização tem que ser ágil e capaz de cortar a direito.

Há uma questão de valores em Portugal, de oportunismo, de abuso de poder e aproveitamento pessoal do que é de todos. Há, igualmente, um combate político possível, que tenha os valores da dedicação à causa pública, da probidade e do exemplo como estandartes. Quero acreditar nisso.

publicado por victorangelo às 22:14

28
Jul 19

Estou, por uns dias, numa pequena localidade do Baixo Alentejo. Sede de concelho, numa zona agrícola que se modernizou muito nos últimos anos, deixa-me uma primeiro impressão: não há sinais de crescimento populacional, de aumento do tecido urbano. Não vejo bairros novos, mas sim, casas à venda e outras que devem estar fechadas há muito. A Câmara tenta cativar os residentes mas, à primeira vista, os mais novos saíram e a pirâmide de idades inclina-se para os de maior idade. Dizem-me que não há falta de trabalho nos campos, nas novas culturas comerciais, mas quem, nos grupos etários jovens, quer trabalhar na agricultura? Aparentemente, uma parte desses trabalhadores serão imigrantes.

Este é um Alentejo que se transforma, mas que, ao mesmo tempo, fica igual para muitos dos habitantes mais avançados na idade. Tem-se escrito e falado pouco ou quase nada sobre as mudanças que estão a ocorrer. Os sociólogos passam pelo Alentejo sem o ver.

publicado por victorangelo às 22:02

26
Jul 19

Recentemente, quando me preparava para discursar, numa reunião pública, o membro da mesa encarregado de fazer a minha apresentação teve a amabilidade de dizer umas coisas simpáticas sobre a minha pessoa. Ao fazê-lo, colocou uma parte do acento na minha condição de “estrangeirado”, de quem anda lá por fora, tem uma família híbrida, meio portuguesa meio outra coisa.

Foi um momento curioso, já que a audiência era muito patriótica. Depois percebi que se tratava de uma espécie de alerta, para que não houvesse surpresas face ao que eu iria dizer. Como quem avisa, ele tem umas ideias diferentes, mas terão que compreender, anda há décadas lá fora.

Que ando, ando. Que vejo certas coisas com outros olhos, os leitores habituais sabem que é assim. Que não percebo a política portuguesa, também é verdade e, por isso, pouco escrevo sobre ela. Não compreendo a falta de ambição de quem nos dirige, nem a incompetência que manifestam, como também não entendo que perante tal, não haja uma oposição bem mais forte.

Mas isso são outras histórias.

Penso, no entanto, que é importante dar uma visão diferente da corrente. As mentes brilhantes que por aqui andam, na nossa praça pública, saltitam pela rama das coisas, alimentam-se da zombaria, defendem capelinhas em vez de ideias, movimentam-se em círculos de compadres. Prevalece o habitat dos pensadores narcisos. Aí, quem está fora há muitos anos, não cabe nem se sente no seu ambiente, essa não é a sua selva de predilecção.

O grande problema é que o país é a capital, e pouco mais, e a capital é apenas uma aldeia grande, em termos de mercado e diversidade. Acaba, assim, por ser um terreno de caça guardada para poucos, atentamente protegida pelos druidas ao serviço dos nossos pequenos deuses.

Por isso, convém alertar quando os estrangeirados se aproximam da cerca.

O meu apresentador tinha razão.

 

publicado por victorangelo às 21:29

20
Jul 19

Ninguém lhe pergunta pelo nome. Há anos que passa o dia na esplanada da rosa-dos-ventos, junto ao Padrão dos Descobrimentos, em Belém. A vender óculos de sol. Durante alguns anos, foi o único vendedor. Agora, o sítio está cheio de “ciganos”, como ele diz, todos no mesmo negócio. Ele também é cigano, mas de outra estirpe, um verdadeiro senhor, sem sotaque e sempre bem apresentado. Elegante, à sua maneira, que quem vende deve inspirar confiança.

Para quem passa, hoje ou frequentemente, é apenas um velho cigano que por ali anda, 67 anos de idade, a tentar vender uns óculos que poucos compram. Na verdade, com a concorrência que por ali há agora, tem dias em que vende apenas um par. Diz que mesmo assim vale a pena, que isso o ajuda a passar o tempo, permite-lhe sair de casa, longe do rio, na zona de Loures.

Nestes últimos tempos, anda encostado a uma canadiana. Tantos anos de pé, à volta do mundo que está desenhado no chão da rosa-dos-ventos, deram-lhe cabo de ambos os joelhos. De vez em quando não se aguenta nas pernas e cai. Mas com a afluência de turistas, há sempre quem o ajude a levantar-se. Um vendedor de óculos de sol vive e sobrevive de pé.

Está inscrito no Hospital de Loures há muito mais de dois anos, para fazer a operação que os joelhos lhe pedem. No chamado Serviço Nacional de Saúde. Já o convocaram, há cerca de um ano, para falar com o anestesista. E depois, é só esperar. E lá continua à espera, talvez mais um ou dois anos. Nessa altura, já deverá andar de cadeira de rodas, sempre à volta do mapa do mundo. O SNS pode não funcionar, mas a vida de vendedor ambulante não pode parar.

Entretanto, vai-se consumindo na resignação revoltada de quem não tem nome nem acesso. E de quem sabe o que significa ter que esperar pelo SNS.

O Diamantino é, afinal, à sua maneira, como muitos de nós.

 

publicado por victorangelo às 21:58

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