Portugal é grande quando abre horizontes

04
Abr 19

O nosso quotidiano político está cada vez mais ao nível dos programas de divertimento das televisões generalistas que procuram adormecer o povo. É só conversa, entretenimento pela rama das coisas e a mesma tendência para ver os portugueses como gente tapadinha do toutiço. Não existem grandes sonhos mobilizadores do querer colectivo, não há estratégia, não se sabe quais são as ambições para o país.

publicado por victorangelo às 21:18

23
Mar 19

Nas nossas sociedades europeias, não há uma compreensão política clara do que significa a precariedade, apesar de ser uma situação vivida quotidianamente por muitas famílias. A política vive num mundo à parte. Deixou de ter raízes nos problemas dos mais pobres. Perdeu o contacto com quem se sente profundamente inseguro.

publicado por victorangelo às 16:57

17
Mar 19

Em todas as sociedades há quem empurre para baixo e quem puxe para cima.

O meu amigo Beto pertence ao primeiro grupo. Tem um prisma especial para ver o que se passa à sua volta. Um prisma que combina insucesso com inveja. É um apologista sistemático da igualdade pela mó de baixo, um crítico combativo, persistente e azedo, de quem vai além da cepa torta. Beto viveu a sua vida como quadro mais ou menos superior, sem mais, numa repartição do Estado. Sempre com razões de queixa. Sobretudo, dos políticos. Agora, recém reformado, encontra consolação na sua luta pela mediocridade generalizada.

Almocei ontem com ele.

E do outro lado da mesa estava a Isabel. Um caso completamente diferente. Isabel, mais jovem de quase vinte anos, trabalha numa empresa conhecida na nossa praça. Olha para o futuro pela lente das oportunidades. Para ela, o sucesso dos outros, quando honesto, é uma fonte de satisfação, de esperança e, mesmo, um motivo de inspiração. Isabel nunca baixa os braços, mantêm uma atitude positiva perante a vida. Acredita no futuro e luta por ele.

E ali estava eu, preso na teia estranha das amizades, a ouvir um e o outro, e a acreditar que com a sobremesa, ou já na altura do café, me seria dada a oportunidade de dizer que mais vale um bom café amargo que uma aguardente para esquecer.

 

publicado por victorangelo às 17:05

27
Fev 19

Andávamos como que hipnotizados nesse tempo, no ano da graça, dos abraços do senhor e das anedotas políticas de 2019.

A nossa paróquia tinha à cabeça o Mestre D. António, Prior de São Bento e do Mato. Ficou conhecido na história da terra como, o Sonso. Além de finório, D. António revelara-se como um líder cauteloso, capaz de se firmar quer na perna esquerda quer na direita, embora vagaroso e curto de vistas. Canhoto, não era. O horizonte, visto da capela-mor do Mestre, não o fazia sonhar com amanhãs que cantam. Sol, sim, na eira, mas também chuva no nabal. O ideal era manter o barco a flutuar, que é como quem diz, não perder a cabeça da paróquia.

Com o passar dos anos, o Sonso foi-se rodeando de um grupo de fidalgos, com o fim aparente de o ajudar na governação. Mas, era sobretudo uma questão equilíbrios entre famílias. E a escolha caía sempre nos mesmos. Ou era gente que ele conhecera, quando anteriormente à sua elevação a Mestre, havia servido como feitor dos serviços de higiene e limpeza do principal bairro da paróquia. Ou, então e sobretudo, gente das principais famílias, tudo bem aparentado entre si, um pequeno círculo de notáveis, em que o poder se transmitia de pais para filhos e entre cônjuges. Era uma espécie de corte à moda antiga. A corte do D. António.

Os paroquianos olhavam para essas movimentações com o sarcasmo suave de quem tem se preocupar, acima de tudo, com o tratar da vida. E também com o abandono de quem pensa que os Mestres são todos iguais. Todavia, nas entranhas do cidadão comum alojava-se a suspeita que a paróquia era um carrossel a duas velocidades, em que uns montavam nos cavalinhos e outros giravam agarrados às varas do destino.

Isso poderia dar cabo do ambiente, aquando das grandes missas habituais. Mas os idiotas da aldeia não sabiam como tirar partido do carrossel de altos e baixos.

Os jornalistas e outros croniqueiros das palavras e dos factos escreviam regularmente sobre isso, sobre as relações entre o parentesco e os cargos na sacristia. De longe, de muito fora da paróquia, esses desabafos intelectuais soavam a estranhos e de uma outra época, do século XIX, talvez. Pareciam meter dó, que pena que nessa terra, os grandes cérebros da escrita pública e da imagem televisiva passem dias e dias a tratar de coisas tão bizarras. Que intelectualidade tão banal! De perto, no seio da paróquia, essas jeremiadas da comunicação social eram vistas pelo povo com um sorriso de cinismo, crónico e manso, – uma das características definidoras da personalidade colectiva do lugarejo – e esquecidas no dia seguinte.

E o Mestre de São Bento e do Mato assim foi reinando. A história, que acaba sempre por reconhecer o valor de cada um dos seus protagonistas, não se esqueceu de lhe confirmar o cognome. O Sonso.

publicado por victorangelo às 14:59

25
Fev 19

Quando um novo partido político aparece, não nasce num estábulo vazio, como o Menino Jesus, nem no meio do deserto, mesmo quando certas iniciativas parecem ser apenas uma miragem. Vai inserir-se numa paisagem partidária já existente. Assim, uma das questões que de imediato surge é a de saber onde se vai situar, nesse quadro paisagístico. Ao centro, mais para o lado e de que lado?

A resposta tem que ser clara, tal como a pergunta o é. E deve ser repetida sucessivamente, para que fique na memória das pessoas.

Outra questão essencial: saber se há espaço político para a nova formação. À partida, dir-se-ia que não há, excepto junto dos que tradicionalmente se abstêm e de outros que a vida transformou em indiferentes da política. Mas a verdade é que essa gente é muito difícil de conquistar. As razões que levam à abstenção são diversas, difíceis de segregar e de medir. Um programa político, que tenha como objectivo captar uma parte dessa indiferença, precisa de definir claramente qual é a fatia que pretende mobilizar e, em seguida, fazer a campanha mais adequada. Aqui, a estratégia ter que ser muito fina.

Para além do campo dos abstencionistas, existe muito pouco espaço político onde ir à pesca. Não existem terrenos partidários vagos. O espaço tem que ser conquistado à força da persuasão, do argumento e da simbologia. Vai-se buscar votos e apoios aos que têm votado noutros partidos. Concorrência. Luta. Não é necessário dizê-lo na praça pública. Mas os dirigentes no novo partido devem ter uma estratégia, que vá nesse sentido e produza resultados. Uma estratégia que se traduza em três ou quatro propostas, que possam ser bandeiras políticas atraentes e indiscutivelmente credíveis. E que, quando mencionadas, façam de imediato pensar no novo partido. Serão, depois, constantemente repetidas pelas principais vozes públicas da agremiação.

Um terceira dimensão a ter em conta – a acrescentar à relativa ao posicionamento político e à relacionada com a mobilização dos eleitores – diz respeito à direcção do partido. Hoje, não basta ser-se uma personalidade conhecida da comunicação social ou da opinião pública para se conseguir criar um partido. Os cidadãos têm outro tipo de exigência. Querem perceber que existe uma equipa sólida à frente da coisa. E essa equipa terá que intervir na esfera pública frequentemente, sobretudo nos acontecimentos com projecção televisiva. Trata-se de mostrar que a nova organização tem um número de pessoas capazes no seu núcleo central. E que essas pessoas, homens e mulheres, pensam, pesam e sabem comunicar.

Lançar um movimento político novo não é apenas uma questão de fé, de entusiasmo e de protagonismo de uma pessoa conhecida. É um projecto de fundo, uma maratona, que pede muito sacrifício pessoal, uma grande dose de dedicação, muita estratégia e uma credibilidade que deixe pouco terreno para dúvidas.

publicado por victorangelo às 16:04

08
Fev 19

A impressão que fica da classe política portuguesa é negativa. A imagem que persiste é que os políticos não se interessam pelos problemas que preenchem o quotidiano da maioria das pessoas, que não têm a base moral necessária para se ocuparem do bem comum. E os poucos que procuram ir mais além do que os seus interesses pessoais fazem-no de uma maneira superficial, sem ouvir os cidadãos nem ter em conta as diversas dimensões que definem as questões de agora. Falta à nossa elite política algo que é fundamental na vida: a credibilidade.

publicado por victorangelo às 17:27

04
Fev 19

O problema central que mina a classe política portuguesa actual resume-se em poucas palavras: perdeu a confiança da maioria dos eleitores!

Não há confiança, não se acredita.

Sem confiança nos dirigentes políticos, não há esperança num futuro melhor. Passamos então a viver numa atmosfera onde reina a indiferença perante as causas comuns, o cinismo e, em muitos casos, o desespero.

publicado por victorangelo às 17:29

02
Fev 19

Vivo há mais de quarenta anos no estrangeiro. Durante esse período, conheci muitas situações de racismo, dos mais diversos sinais e sentidos. Incluindo o racismo do “Norte” da Europa contra os “brancos”vindos do Sul do continente. Por isso, vejo com um sorriso silencioso o que se tem escrito sobre o racismo em Portugal. Sobretudo quando são escrevinhadores que pouca ou nenhuma experiência têm de vida noutras sociedades. Mais ainda, quando essas pessoas pertencem aos círculos mais ou menos privilegiados da sociedade lisboeta ou similar. A visão que apresentam tem as suas raízes numa mera especulação sobre o que será o racismo. Ora, esta questão é muito complexa, bastante facetada, tem muito que se lhe diga. Aprendi isso quando visitei Bruxelas pela primeira vez, em 1968, e, dez anos mais tarde, quando me instalei em São Tomé, em 1978.

Mas enfim, para que não haja dúvidas, deixo aqui dito que é importante que se debata o tema. Sobretudo quando a sociedade portuguesa se torna mais multifacetada. E também é fundamental que se diga, alto e bom som, que o racismo é sempre inaceitável. Conviria, aliás, começar a dizê-lo com clareza nas escolas, nos diferentes graus do nosso sistema de ensino.

publicado por victorangelo às 21:33

01
Fev 19

Vista com alguma distância e sabendo o que se sabe sobre as imensas dificuldades do Sistema Nacional de Saúde, e também sobre a situação económica da maioria dos que têm que recorrer ao SNS, a greve dos enfermeiros parece-me situar-se para além do razoável. É certamente profundamente questionável, quer do ponto de vista da ética social quer ainda da lei da greve. Marcadamente excessiva.

Precisa de uma resposta política coerente. Essa resposta não pode ser dada apenas pela Ministra da Saúde. Deve competir ao Primeiro-Ministro. A gravidade das implicações desta iniciativa contestatória não permite que António Costa fique calado. De modo algum. É uma questão de liderança perante uma questão de interesse nacional.

PS: Depois de publicar este escrito, vi que o Primeiro-Ministro falou e foi claro. Só posso acrescentar, muito bem! Muito bem, na verdade! Apoio o que disse.  

publicado por victorangelo às 17:35

27
Jan 19

O racismo é uma questão muito delicada. Por isso, não pode ser tratada nem com ligeireza nem com alvoroço.

E, para além dos aspectos legais e institucionais, deve igualmente constituir uma interrogação pessoal: será que eu também tenho comportamentos racistas? Quando, por exemplo, comento a reacção de Serena Williams face à decisão do árbitro, como aconteceu há uns meses, caio no comentário racista? Quando me rio de uma piada que goza com a fisionomia e o aspecto físico de outros povos, estou a ultrapassar o risco? Quando oiço um amigo negro dizer que não foi recrutado para um emprego por ser preto, e eu deixo passar a afirmação, sem mais discussão, estou a ser rigoroso com a verdade ou a deixar-me simplesmente ir na onda?

E assim sucessivamente, que o combate contra o racismo começa em casa e por mim, pela minha coragem, pela minha tomada de consciência e pela minha abertura de espírito. O que torna a questão bem difícil de resolver, porque normalmente são os outros que têm as culpas.

publicado por victorangelo às 15:51

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