Portugal é grande quando abre horizontes

09
Fev 19

Não vejo a saída do Reino Unido – o chamado Brexit – como uma tragédia, nem como um sinal de que a União Europeia está em crise. Considero que, no essencial, se trata de uma decisão britânica – dos 52% que votaram no referendo de 2016 contra a permanência do seu país na UE.

As razões que levaram esses cidadãos a decidir como decidiram serão várias. Já foram suficientemente discutidas. Muitas terão que ver com uma perspectiva saudosista da história do Reino Unido, da grandeza imperial de outrora. Ou seja, com uma ilusão que nada tem que ver com o mundo de hoje. Mas que continua a ser alimentada por certas elites aristocráticas ou com ligações a determinados colégios destinados a jovens das classes privilegiadas e, também, a instituições de ensino superior classistas. Na realidade, e é bom ter isso sempre presente, uma boa parte do voto Brexit baseia-se em fantasias vitorianas, exacerbadas por valores xenófobos e retrógrados. O Brexit é reaccionário.

Nessas circunstâncias, com uma elite política e intelectual dominante desse género, tão desancorada das realidades de agora, o corte com o resto do projecto europeu poderá ser visto como um momento de clarificação e uma oportunidade de progresso e de afirmação da ideia europeia. Dito doutra maneira, mais directa, a UE pode ganhar com a saída dos britânicos. Esse é o desafio que temos pela frente.

publicado por victorangelo às 12:06

03
Fev 19

Quando se diz “golpe de Estado”, toma-se posição. Golpe de Estado é um acto de força, ilegítimo, conspirativo e contra o líder legalmente constituído. Dizer que é um golpe significa julgar, tomar partido. Convém ter isso presente, quando se escreve e fala sobre a Venezuela e o desafio de poder em curso.

Mais ainda. Analisar a situação actual nesse país a partir da teoria política dos golpes de Estado faz assentar o raciocínio e as suas conclusões numa base errada. É ainda mais incorrecto quando se recorre a esquemas de análise e da teoria política dos anos 30 do século passado, agora, quase 100 anos depois e em contextos geopolíticos e societais que não existiam na altura. Trostky e outros fazem parte da história, estão pura e simplesmente fora do mundo de hoje. Não servem como guias para as crises de hoje.

O que alguns nos querem apresentar como um “golpe de Estado falhado” é, na realidade, um levantamento popular, uma convergência de rebeliões cidadãs. Nomeadamente, das populações que compõem o tecido social urbano que se situa no patamar dos rendimentos baixos e médio-baixos, embora acima da linha da pobreza absoluta e da miséria. Na verdade, são os “novos pobres” da Venezuela caótica e corrupta, que as políticas rasteiras e marcadamente incompetentes de Nicolás Maduro arrastaram para um quotidiano de desespero, de escassez absoluta de bens essenciais. Uma política que também levou à falência dos serviços básicos e fundamentais, sobretudo na área da saúde pública. Quando não há futuro, o presente traz os povos para a rua.

Por outro lado, para além do quadro negativo e sem saída que é a realidade nacional, há que analisar a situação a partir do contexto regional e internacional em que a Venezuela se insere. Primeiro, na América Latina, e também no contexto da produção de petróleo e do futuro do sistema político vigente em Cuba. Cuba depende da Venezuela, como esta depende de Cuba. Fazer cair uma acarreta consequências catastróficas para a outra. Depois, haverá que ter presente o confronto cada vez mais aberto entre os Estados Unidos, a Rússia e a China. Os três têm cartas em jogo no poker que se trama na Venezuela.

No meio de tudo isto, e para além da posição bilateral de meia dúzia de Estados europeus, a resposta da União Europeia é o que pode ser. Fraca, sem qualquer tipo de peso estratégico, digo eu, e assim poderá ser vista por vários governos na região a que pertence a Venezuela. A criação de um chamado “Grupo de Contacto” pode ter quatro leituras principais. Primeiro, que assim se evita dar a impressão que não há resposta nem iniciativa. Segundo, que não há acordo para reconhecer a urgência da situação actual, ao dar-se ao “Grupo de Contacto” um prazo de três meses para produzir resultados. Terceiro, que se ignora a existência do “Grupo de Lima” e a influência dos Estados Unidos no seio desse grupo latino-americano. Quarto, que não existe uma política comum em relação à América Latina e, em particular, em relação ao Brasil, Colômbia, México e Cuba, que são os países que contam na região, quando se trata da crise venezuelana.

Qual é a estratégia para os próximos tempos? Quer por parte de Nicolás Maduro, de Juan Guidó, e dos de fora? Isso seria tema para mais um longo texto, tendo sobretudo em conta que se trata de um conflito que só pode cair para um lado ou para o outro. Uma pergunta complexa, cujas respostas estão neste momento a ser ensaiadas por quem se ocupa desse tipo de cenários. E que não escreve blogs nem artigos de jornal. Dar a entender uma coisa e preparar outra faz parte dos próximos passos.

 

publicado por victorangelo às 15:09

29
Jan 19

Segui com atenção o debate de hoje no parlamento britânico sobre o Brexit, bem como a votação das diferentes propostas de moção. No essencial, considero que foi, em grande medida, um exercício destinado a salvar a face dos membros do Partido Conservador e da Primeira Ministra, em particular. Também serviu para os preparar para engolir a pílula amarga. Ou seja, para que aprovem, dentro de duas semanas, a 13 ou 14 de fevereiro, o acordo de Theresa May sobre a saída do Reino Unido da UE.

O resto é espectáculo. Mas uma comédia triste, que vai sair cara.

publicado por victorangelo às 21:16

28
Jan 19

Muitas vezes, os políticos acreditam mais nas suas palavras do que na realidade dos factos. Não conseguem ver o que lhes entra pelos olhos dentro e acabam por fiar-se nas ilusões que arquitectaram. Procuram, então, soluções para problemas que só existem na cabeça deles. E não aceitam as conclusões e as saídas de crise que se impõem.

O que se está a passar em Westminster, com o acordo sobre o Brexit, ilustra o que acima digo. Deveria ser claro para todos que nesta fase do processo, depois de dois anos de negociações, de discussão de todas as hipóteses e mais algumas, da passagem a pente fino de todos os prós e os contras, existem apenas três alternativas. Que nem serão bem três, mas sim duas e meia, porque uma delas tem poucas probabilidades de poder ser considerada. Mas, enfim, digamos que são três.

A primeira, que é a mais adequada neste momento, a única que faz sentido, passa pela aprovação pura e simples do plano que Theresa May acertou com a UE. Esta aprovação poderá vir a acontecer, surpresa, surpresa, cinco minutos antes da meia-noite. À última hora! Isso quereria dizer que uma maioria dos deputados teria finalmente percebido que o acordo de Theresa May seria, apesar de tudo, a melhor solução. Mas também poderá ser recusada até ao bater da meia-noite.

A segunda opção passaria por um No Deal. Não haveria acordo. Isso aconteceria no caso de falhanço da hipótese descrita no parágrafo anterior. Depois de 29 de março, o Reino Unido deixaria de pertencer à UE e as relações económicas e financeiras entre ambos ficariam por definir. Uma situação deste tipo traria imensas dificuldades para ambos os lados. Ter-se-ia que encontrar soluções caso a caso, no meio de muita improvisação e com custos económicos muito elevados. O maior perdedor seria, de longe, o Reino Unido.

A terceira via passaria pela realização de um novo referendo. É uma opção que não me parece realista. Uma nova consulta popular só viria a ter lugar em finais do ano ou na primeira metade de 2020, por razões legais e processuais. Ora, ninguém que ficar na incerteza por um novo período de tempo, tão longo e tão fracturante. Ainda por cima, por não ser claro qual poderia ser o resultado desse segundo referendo. O pêndulo da opinião pública poderia ir para um lado ou para o outro.

Veremos o que acontece amanhã e nos próximos dias em Westminster. Entretanto, a ampulheta continua a deixar a areia correr. O relógio do tempo não espera, nem parece agora poder ser parado. Há, por isso, que estar preparado, ao nível da UE, para a possibilidade de um enorme desafio e de muita confusão.

publicado por victorangelo às 22:12

22
Jan 19

Emmanuel Macron e Angela Merkel assinaram hoje um novo tratado de cooperação entre os seus dois países. A cerimónia teve lugar em Aix-la-Chapelle, na Alemanha, muito perto da fronteira com a Bélgica. Trata-se de uma cidade que significa imenso, na história das relações franco-alemãs. Uma cidade simbólica, que serve de última morada ao Imperador Carlos Magno (742-814), um líder que, no seu tempo, tinha uma visão unificadora da Europa.

Sugiro que se faça uma leitura positiva do que agora foi assinado. Ambos os dirigentes querem que os seus países contribuam mais efectivamente para a construção europeia, nas áreas da política, da economia e em matérias de defesa. Estão preocupados com os ataques contra a União Europeia que vários governantes e sectores populistas têm desencadeado. E que planeiam aprofundar, tendo em vista as eleições europeias de Maio de 2019.

Mas o acordo não se limita ao curto prazo. Nem se limita aos interesses da França e da Alemanha. Os outros países da UE também ganham se houver um maior entendimento entre dois dos grandes Estados da União. Que estão, aliás, no centro da geografia e da política comum. E são as duas maiores economias do espaço europeu.

É esse impacto mais geral que deve ser sublinhado.

publicado por victorangelo às 20:59

18
Jan 19

Stefan Lofven vai continuar como Primeiro-Ministro da Suécia. Será o seu segundo mandato. Lofven é dirigente do partido Social Democrata, um partido do centro-esquerda, no panorama político nacional.

As eleições tiveram lugar em Setembro de 2018. A formação do novo governo foi demorada, quatro meses à procura de entendimentos. Esse foi o tempo necessário para que os diversos partidos dos dois principais blocos de opinião, a esquerda e a direita, pudessem chegar a um acordo de governação, que assenta em 73 medidas.

A principal preocupação, de um lado e do outro, foi a de impedir a entrada dos ultra-direitistas do partido Democratas Suecos na área da governação. Os Democratas Suecos, que seguem uma linha política cegamente nacionalista e xenófoba, haviam obtido nas eleições gerais de Setembro 17,5% dos votos. Um resultado surpreendente, que faz desse partido o terceiro mais votado.

A Suécia deu-nos, assim, um exemplo que convirá repetir noutros países europeus. Ou seja, ter a coragem política e a paciência para encontrar plataformas amplas, à esquerda e à direita, que excluam os extremistas e os ultra-nacionalistas e os deixem num canto do parlamento, isolados e a falar sozinhos.

Há quem chame a essa opção política “cordão sanitário”. Por mim, vejo aí apenas bom senso político. Os extremistas fazem parte da paisagem política das democracias europeias. Não deve haver dúvidas sobre isso. Mas abrir-lhes as portas do poder, como aconteceu num ou outro país da UE, está errado. Como também não é aconselhável o oportunismo de alguns do centro-direita ou do centro-esquerda, que, para estarem no poder a qualquer preço, fazem pactos e usam os extremistas como bengalas parlamentares.

 

publicado por victorangelo às 20:48

28
Dez 18

A fiscalidade europeia não pode ser uniforme. Não pode haver um regime único que se aplique a todos os Estados membros. Nem mesmo apenas aos da zona euro. O sistema europeu de impostos tem que reconhecer as diferenças existentes entre as várias economias e criar incentivos para atrair um maior volume de investimentos para os países menos desenvolvidos, na periferia dos grandes mercados europeus e geograficamente em desvantagem.

Dizer o contrário é fazer o jogo das economias mais desenvolvidas do centro da Europa. Economias que têm, num raio de duas centenas de quilómetros, dezenas e dezenas de milhões de consumidores, e um poder médio de compra muito superior ao de Portugal ou da Estónia.

Ou então, se não se faz esse jogo, trata-se de mera burrice política.

publicado por victorangelo às 11:39

27
Dez 18

Uma das razões políticas que justificam o projecto “União Europeia” tem que ver com o combate à xenofobia. A cooperação, a partilha, a livre circulação e a integração permitem aproximar os cidadãos das várias nações europeias. Contribuem para uma maior compreensão das diferentes culturas que constituem o espaço europeu. Permitem atenuar – e mesmo eliminar, esse será o objectivo – os sentimentos racistas e xenófobos que durante séculos tantos conflitos provocaram entre os diversos povos.

publicado por victorangelo às 17:12

05
Mai 18

http://portugues.tdm.com.mo/radio/play_audio.php?ref=10359

O link para o meu programa desta semana na Rádio de Macau, um trabalho semanal de equipa com Hélder Beja, um homem de letras, e a jornalista Catarina Domingues. Ambos vivem em Macau há vários anos.

publicado por victorangelo às 17:16

26
Fev 18

Seria um risco enorme se a opinião pública europeia deixasse de entender a UE como um projecto de cooperação entre os Estados membros, indispensável para salvaguardar os valores que regem a nossa vida colectiva e para garantir a continuação da nossa prosperidade. Se a UE passasse a ser vista como um mero espaço de viagens sem passaporte ou, pior ainda, como uma burocracia sem alma, apenas capaz de satisfazer certos oportunismos políticos e ambições pessoais, entraríamos então num processo de destruição a prazo da unidade europeia. E perderíamos todos, excepto os nossos inimigos exteriores.

publicado por victorangelo às 16:24

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