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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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O Estado da UE

https://www.dn.pt/opiniao/o-estado-da-ue-e-satisfatorio-15167309.html

Deixo acima o link para o meu texto de hoje no Diário de Notícias. 

Cito apenas o seguinte: "A intervenção de von der Leyen foi mais política e concreta, como seria de esperar. Deve ser considerada, no geral, como positiva. Seria um erro, neste momento de múltiplos desafios existenciais, procurar minar a autoridade da CE e, em particular, da sua presidente."

Falar sobre os desafios que a UE tem pela frente

Amanhã, a Presidente da Comissão Europeia irá discursar no Parlamento Europeu sobre o estado da União. Vou seguir com atenção o seu discurso. Mas diria, desde já, que o estado da União deve ser visto pela positiva. Os desafios têm sido imensos este ano, na sequência da instabilidade criada, primeiro, pela pandemia do coronavírus e depois, pela agressão russa e tudo o que essa política criminosa tem provocado como problemas e desafios para os diferentes países europeus, para além da destruição imposta à Ucrânia. No geral, os países da UE têm sabido responder de modo coerente. E os cidadãos têm mostrado um bom nível de solidariedade, apesar dos custos que isso implica. As altas taxas de inflação são o indicador mais visível desses custos. Mas têm sido aceites com alguma paciência. É verdade que o grande teste vai começar agora, quando chegar o período outonal. Esse deve ser um dos grandes temas do discurso de von der Leyen.

Falemos de petróleo

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE reúnem-se amanhã, no Luxemburgo, para discutir um novo pacote de sanções contra a Rússia. O embargo das importações de carvão é um tiro para o ar, sem qualquer peso real, para além do mero simbolismo vazio que poderá representar. A UE importa cerca 5,2 mil milhões de euros por ano de carvão russo. É valor relativamente insignificante. O que na verdade conta são as importações de petróleo e de produtos derivados do petróleo. Foram 74 mil milhões de euros em 2021. É aí que tem de se fechar a torneira. O petróleo poderá vir de muitos outros sítios. Não deverá continuar a ser importado da Rússia. É isso que se pede aos ministros que decidam amanhã. A pressão pública, a nossa pressão sobre os ministros e os governos europeus tem de incidir nessa área.  Se assim acontecer, a Rússia não terá condições financeiras para prolongar a agressão contra a Ucrânia por muito mais tempo.

 

Os inimigos da UE devem pagar pelos seus actos

O comportamento político de Alexander Lukashenko em relação à Polónia e ao resto da União Europeia é um acto de grande hostilidade. Na realidade, é uma agressão e uma tentativa descarada de desestabilizar a UE, utilizando a miséria de certos povos como arma de ataque. Tem, igualmente, uma dimensão de desumanidade inqualificável. Milhares de pessoas são atraídas, no Iraque e noutros sítios do Médio Oriente, a sua viagem para Minsk facilitada e depois são encaminhadas para a fronteira com a Polónia, onde as espera o frio, a fome e o desespero.

Este tipo de violência política e humana não pode ser tolerado. É um acto de guerra, casus belli, ao qual se deve responder com todo o arsenal de sanções existente na União Europeia. Sem demoras e visando directamente Lukashenko e os seus.

Marrocos e a Turquia estão a estudar o comportamento que será adoptado pela UE. Estes países têm tido comportamentos semelhantes aos praticados agora pela Bielorrússia, embora com mais moderação no caso de Marrocos. Precisam de receber uma mensagem clara da Europa: actos assim, o empurrar milhares de migrantes para as fronteiras europeias, acarretam respostas de muito peso. São acções praticadas por Estados inimigos.

A Europa não pode hesitar.

 

 

 

Os europeus face ao novo Afeganistão

Emmanuel Macron, Josep Borrell e outros líderes europeus vêem na situação afegã duas dimensões essenciais: a necessidade de proceder à evacuação dos europeus e dos afegãos que estiveram ligados às actividades da UE no país; e o risco de novos fluxos migratórios em direcção à Europa. Borrell vai um pouco mais longe e fala de ajuda humanitária, sem que se perceba bem como será possível fornecer apoio humanitário sem passar pelo poder talibã e pela apropriação que estes farão de tal ajuda.

Esta é uma maneira curta de ver o que está a acontecer no Afeganistão. A realidade e as lições a tirar são muito mais complexas. Mais ainda, o xadrez estratégico naquela parte do mundo – e não só – mudou radicalmente desde domingo. Essa questão e as violações dos direitos humanos que o novo regime irá praticar são duas das maiores dimensões a ter em conta.

Reflectir sobre o futuro da Europa

"Aliás, o maior desafio que a UE enfrenta é exatamente o que decorre do fosso de desconhecimento ou de indiferença entre, de um lado, a política e as instituições europeias, e do outro, a vida quotidiana das pessoas. Mesmo em Bruxelas, quem vive uns quarteirões para lá do distrito europeu parece estar tão desligado da UE como uma qualquer família que viva numa pequena aldeia de Portugal. Ora, um projeto político que não seja entendido pelo comum dos mortais é frágil. Pode ser facilmente posto em causa pelos seus inimigos."

Este é um extracto da crónica de reflexão que publico hoje no Diário de Notícias. 

O link para o texto completo é o seguinte: 

https://www.dn.pt/opiniao/a-europa-e-a-turbulencia-que-ai-vem-13716800.html

O discurso europeu

O Estado da União Europeia, ou seja, o discurso que Ursula von der Leyen proferiu ontem no Parlamento Europeu é longo, mas vale a pena ler. A Presidente da Comissão Europeia fez uma análise positiva e progressista das várias questões que afectam a União Europeia e apresentou um programa de trabalho que deverá contribuir para o aprofundamento da agenda comum. As referências à economia digital e tecnológica, ao pacto verde, à soberania industrial da Europa, à cooperação em matéria de saúde pública, aos rendimentos mínimos, ao futuro dos Balcãs como parte do espaço europeu, à imigração, etc, bem como as observações sobre a Rússia, a China e os Estados Unidos são no essencial correctas. O problema estará na sua implementação. Primeiro, vários destes temas têm estado em cima da mesa há muito tempo, sem que haja acordo. Segundo, apesar da clara referência que faz aos valores europeus, a verdade é que estes valores não são entendidos da mesma maneira pelos diversos líderes europeus. Entre outros, Viktor Orbán poderá explicar-nos as razões de tais diferenças. Terceiro, ainda não saímos da crise provocada pela pandemia. O discurso deveria reconhecer esse facto e sugerir algumas medidas que tratassem da urgência que temos em frente de nós. Deveria, pelo menos, apelar a uma maior coordenação entre os Estados membros, para que se evitasse o que tem acontecido até agora, em que cada um decide à sua maneira, sem consultar o resto dos membros nem mesmo os vizinhos do lado. Quarto, Von der Leyen não menciona os perigos que existem no que respeita à continuação do projecto europeu. Ora, esses perigos são hoje mais reais do que nunca. Precisam que se fale deles com realismo. Creio que está aí o ponto mais fraco da sua intervenção. Não reconhecer que existem linhas de fractura muito fortes é um erro grave.

O projecto europeu é para continuar

Hoje, os ministros das Finanças do Eurogrupo voltam a reunir-se para discutir como custear os investimentos excepcionais que a pandemia vai exigir. Esta é uma questão muito delicada, que tem dividido a zona euro em dois campos. Também deu azo ao aparecimento de toda uma série de colunas de opinião, aqui na nossa praça, que se inspiraram mais no emocional e nas ideias feitas do que numa análise da realidade do que é o mosaico europeu.

A UE é o resultado de um equilíbrio de interesses diversos, de vários tipos, não apenas económicos, de modo a garantir um certo modo de vida, que tem na democracia, na segurança humana e na prosperidade os seus principais pilares. Este equilíbrio será mais forte se os diversos países membros conseguirem evitar grandes disparidades entre eles. Creio que em relação a isso não há dúvidas nas diferentes capitais e nas cebeças de quem pensa nestas coisas pela positiva. Como também não me parece que hajam dúvidas quando se trata de reconhecer as diferenças que existem e peso negativo que essas disparidades trazem para o projecto comum.

Mas estas coisas entre Estados constroem-se progressivamente. Em certas áreas e em dados momentos, é possível avançar mais depressa. Outras vezes, estaremos perante um trabalho penoso de discussão, de resolução das divergências. É nessa altura que é precisa muita diplomacia, ideias claras e argumentação inteligente.

Certos comentaristas caem na estupidez ou, então, no jogo barato e afirmam, por exemplo, que os Estados membros têm como modelo uma Europa desigual, com níveis de desenvolvimento diferentes. Esse afirmação soa bem, nos meios que querem destruir a união, mas não corresponde à verdade.

Uma União fragmentada

Estamos numa união muito estranha. Em caso de crise grave, como a que agora temos pela frente, cada um fecha-se em casa e procura esquecer-se dos outros. É uma resposta à antiga, com pontes levadiças e a desconfiança de tudo o que é estrangeiro. O mecanismo europeu criado para responder a crises de emergência não foi accionado e nem um ventilador enviou para a Itália ou para Espanha. Ao nível de vários Estados membros, o que se ouviu até agora foram as velhas carpideiras nacionalistas, que têm lugar cativo nos ecrãs de certas televisões e influenciam negativamente a opinião pública.

Entretanto, há dois ou três dias, a China enviou uma equipa médica para ajudar a Itália no seu combate desesperado contra o COVID-19. Não vieram com as mãos a abanar. Trouxeram trinta e tal toneladas de equipamento hospitalar adequado e caixas e mais caixas de medicamentos. Isto aconteceu dois dias depois da ajuda ter sido prometida pelas autoridades chinesas.

Quando a crise viral passar, vai ser necessário ter uma conversa muito séria sobre o significa a União Europeia.

O novo Boris Johnson

Boris Johnson ganhou as eleições legislativas britânicas. De uma maneira clara, seja qual for o prisma de análise dos resultados. Tem o poder nas mãos, de modo absoluto. É ele quem manda, no governo e no Parlamento. E isso poderá continuar assim, nos próximos quatro ou cinco anos de mandato. O que mostra que um líder forte, na chamada democracia britânica, usufrui de um nível incontestável de autoridade. Os outros poderão dizer o que entenderem, fazer o barulho que quiserem, no Parlamento ou fora dele. Mas quem manda é o Primeiro-Ministro, quando esse lugar é ocupado por uma personalidade como Johnson e, por outro lado, quando dispõe de uma maioria muito folgada, em Westminster.

Para além do Brexit, Boris Johnson irá propor uma série de medidas, incluindo uma que reduza o poder do Tribunal Supremo, que limite a sua capacidade de controlar os abusos de poder vindos da Primatura ou do Parlamento. Também aqui fica claro que a democracia de que se fala é mais cosmética do que uma beleza política de facto.

Boris Johnson ganhou porque soube mostrar determinação, clareza, foco e repetir constantemente as mesmas três ou quatro mensagens-chave. Prometeu a Lua e mais um ilusão, mas evitou prometer um catálogo sem fim de medidas, que por serem muito diversas, perdem-se na cabeça dos eleitores e arruínam a sua credibilidade. Mas ganhou, acima de tudo, por ter sabido bater a tecla do Brexit. A opinião pública estava farta do tema, das divisões que acarretava. Votar em Johnson significaria fechar esse capítulo.

Agora que tem o poder nas mãos, Boris Johnson poderá tentar a via da moderação. Sabe que essa é a única maneira de manter o reino unido. Terá, nomeadamente, que mostrar resultados na Escócia. Mas, não será fácil. O processo de desintegração do Reino Unido – agora com maiusculas – aprofundou-se com as eleições de ontem.

Do lado europeu, há que manter uma posição que mostre interesse na continuação de uma relação privilegiada com Londres e Boris Johnson. Creio que assim acontecerá.

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