Hoje era dia de terminar o texto sobre o Sul Sudão e a "Elipse de Insegurança", que define as zonas de fronteira do Chade ao Congo (RDC), do Sudão ao Uganda. Mais de 19 000 palavras para analisar uma das zonas mais perigosas do globo, mas que é, igualmente, uma zona fascinante, onde tive a oportunidade de trabalhar ao nível do terreno.
A China é, agora, o país que mais investe nessa zona de África. Tudo se passa com o apoio directo das embaixadas chinesas na região. É a diplomacia económica em movimento. Lá, como no caso da EDP, o estado chinês apoia as decisões das grandes empresas, que embora estatais, têm uma grande autonomia de decisão. Lá, como por estas terras, há quem critique. Mas o investimento chinês é um facto e, em muitos casos, é a única opção viável. Há que aproveitá-lo.
O resto é connosco. Sem palhaçadas, nomeações ridículas ou conversas com a imprensa que são disparatadas, numa conjuntura de mal-entender e de populismo manhoso, que é o que impera em certos órgãos da comunicação social.
Amanhã, bem cedo, viajo para Entebbe, na margem Norte do Lago Vitória. A região é linda, com as enseadas recortadas a servir de pano de fundo aos jardins floridos e às árvores equatoriais de grande porte. O país mudou muito, nos últimos vinte anos. No final da década de oitenta, o Uganda era um caos, a sair da loucura de uma guerra civil . Actualmente, está em progresso rápido. Museveni, o presidente, não abre as portas da democracia, mas consegue convencer os doadores e vai sendo apaparicado pelo Ocidente. Contradições.
Vale a pena falar inglês, ter um bom clima, residências agradáveis, jardins magníficos. Os Ocidentais gostam e ficam menos críticos. Mas também é verdade que nalgumas áreas do desenvolvimento os progressos são visíveis. Como o são igualmente no domínio da luta contra a sida.
Há, neste momento, uma paranóia na região. Diz-se que os guerrilheiros do Lord's Resistance Army (LRA), o Exército da Resistência do Senhor (Deus), conhecidos pelo número de crianças que raptaram até hoje, andam por estas paragens.
Os meus serviços de informação e análise de dados confirmam apenas a presença de pequenos grupos dispersos, fugidos do Norte do Uganda. Actualmente, estarão nas florestas do Sudeste da RCA, longe da capital centro-africana. Comportam-se como loucos de Deus, são violentos e primitivos. Mas não representam uma força a sério. São, no entanto, uma ameaça para os habitantes das aldeias da zona.
É preciso combatê-los. Como raptam crianças e escravizam mulheres, são alvo de uma atenção especial. São procurados sob a perspectiva da prática de crimes contra humanidade.
O chefe é Joseph Kony. Um iluminado. Um antigo menino de coro. Um inimigo jurado de Museveni. Que quer ver os dez mandamentos como base da governação política. O homem tem amigos em Cartum. Amigos muçulmanos. Parece que é apoiado pela liderança sudanesa, tendo em conta a sua capacidade para criar instabilidade no Sul do Sudão, uma região que se quer separar do resto do país.