Portugal é grande quando abre horizontes

24
Nov 19

Com a cimeira de Londres à porta, a 3 e 4 de dezembro, tem-se escrito e falado um pouco mais sobre a NATO. Pena é que o debate, entre nós, tenha muita parra e pouca uva. Enchem-se colunas a repetir factos conhecidos, mas há uma carência evidente, quando se trata de questionar as nossas mentes sobre as dimensões estratégicas e os cenários prováveis, neste início da terceira década do Século XXI, em matéria de defesa do nosso espaço geopolítico. Sobretudo, quando se pensa na Europa Ocidental, um espaço que abarca, no essencial, as questões de defesa mútua dos países da UE.

A indefinição começa com a nossa incapacidade para chegar a um acordo sobre quais são as ameaças vitais que devem merecer uma atenção prioritária. A Aliança só faz sentido se houver um entendimento sobre o grau de perigo e de probabilidade dessas ameaças, bem como sobre a maneira de se precaver ou de lhes responder. Mais ainda, é necessário voltar ao conceito de respostas integradas, uma maneira multifacetada de responder a ameaças que há muito que deixaram de ser apenas convencionais. Pensar apenas em termos militares quando os ataques podem ser multidimensionais, e resultar de uma combinação de instrumentos de poder, é um erro. Procurou-se corrigir esse erro no início desta década. Estive ligado a esse processo durante vários anos. Vi, com o tempo, que os promotores de uma visão integrada da defesa foram cedendo terreno. Hoje, posso dizer que perderam essa batalha. Ganharam, de novo, os generais da velha escola, sobretudo os que tinham ligações mais íntimas com a velha tradição prussiana de ver a resolução dos conflitos. E tudo isto à margem da intervenção dos políticos, que, em matéria de defesa comum, só sabem cantar as velhas canções de um coro de outrora.

Aliás, um dos problemas mais sérios é o da falta de direcção política. É por aí que o Presidente Macron, Annegret Kramp-Karrenbauer e outros deveriam iniciar a reforma que tanta falta faz. Também é por aí que se deve entrar no debate que queremos fazer.

 

publicado por victorangelo às 19:54

31
Out 19

O grupo terrorista Estado Islâmico anunciou hoje o nome do seu novo “Califa”, bem como do novo porta-voz. Não sabemos ainda quem se esconde por detrás dos nomes anunciados, quem são de facto essas pessoas. O tempo dirá.

Mas haverá duas verdades que convirá ter em conta.

Por um lado, nos últimos meses, muitos dos seus principais líderes foram eliminados. Chama-se a isso “decapitar” a organização, destruir o seu núcleo dirigente. O impacto dessas acções de decapitação é difícil de medir. Existem várias dissertações sobre o assunto, com conclusões divergentes. Apesar disso, deve reconhecer-se que a morte desses dirigentes deve ter abalado profundamente a organização, sobretudo nesta fase de acumulação de derrotas. Creio poder dizer, sem grandes hesitações, que a estrutura existente na Síria e na fronteira com o Iraque está bastante esfarrapada.

A outra dimensão tem que ver como as ameaças futuras. Seria um erro pensar que, depois de todos estes assassinatos, a organização deixou de ter capacidade para planear e levar a cabo atentados terroristas. O perigo continua a existir, na Síria, à volta da Síria e para além da região. Existem células clandestinas e existe um meio social e político propício a este tipo de radicalismo extremamente violento, vingativo e fanático. Por isso, a luta contra o Estado Islâmico não pode, de modo algum, ser dada como ganha.

E aqui convém lembrar que os aliados mais efectivos na prossecução desse combate são os combatentes curdos na Síria. A Europa, e não só, tem que mostrar que é fiel à aliança que precisa de manter com essas milícias curdas.

 

publicado por victorangelo às 20:12

17
Set 19

Na minha opinião, o debate político das próximas semanas deveria opor os que apenas procuram gerir a situação, com mais ou menos folgas, mais ou menos simpatia e sorrisos, aos que poderiam ter um projecto para Portugal. Um projecto que nos levasse além da mediocridade, do deixar andar e do salve-se quem puder. Que pensasse no futuro, nas bases de uma economia mais moderna e sustentável, na protecção dos recursos naturais e do ambiente, num povo melhor preparado e com maior capacidade de intervenção cidadã, numa língua portuguesa que não fosse aviltada por uma incapacidade de a defender, num país mais seguro e mais amigo dos mais fracos. Também, um país mais capaz de contribuir para o fortalecimento da União Europeia e para o reforço da cooperação e da harmonia internacionais.

Só que isso parece um sonho. O debate político continua a ser entre gestores de contas correntes.

 

 

publicado por victorangelo às 21:10

29
Ago 19

O Reino Unido está muito pouco unido. Para além dos comentários que se façam – e vi um ou dois nas televisões portuguesas que assentavam em premissas incompletas ou na compreensão insuficiente dos mecanismos parlamentares e constitucionais britânicos – , a verdade é que a situação actual constitui um rico campo de estudo para quem se interessa por questões de estratégia política e de jogos de poder. E assim vai continuar nos próximos dias e na semana que vem. Para já, que depois se verá.

Entretanto, penso que os dirigentes que mandam na política externa europeia e que pesam na questão do Brexit devem continuar calados e deixar os britânicos decidir para que lado vai a bola. Neste momento, comentários oficiais europeus sobre a situação de confusão que se vive no Reino Unido só poderão complicar ainda mais uma situação que já é bastante complexa e profundamente emocional. O silêncio é, tantas vezes, uma poderosa arma política, sobretudo quando anunciado como silêncio activo, deliberado.

publicado por victorangelo às 23:08

05
Ago 19

Os ultraradicais brancos que apoiam o Presidente dos Estados Unidos têm estado em campanha contra Emmanuel Macron e Angela Merkel. No essencial, acusam estes dirigentes europeus de estarem empenhados no enfraquecimento da NATO, na promoção da imigração de gentes de fé islâmica e de colaboração com a Rússia e o Irão.

Estas acusações são meras armas de arremesso e de tentativa de divisão da liderança política europeia. No fundo, existem por esses dois dirigentes não se alinharem acefalemente com as posições que o Presidente Trump vem tomando, nessas e noutras áreas.

A verdade é que a Europa tem interesses estratégicos distintos dos americanos. Por outro lado, não pode seguir de modo acrítico políticas em que não acredita e que poderão levar a graves crises internacionais.

 

 

publicado por victorangelo às 22:54

02
Ago 19

Kristalina Georgieva é uma pessoa com muita experiência no que diz respeito às questões da economia internacional. É actualmente a directora executiva do Banco Mundial em Washington, ou seja, a número dois da instituição. Muitas vezes, nestas organizações, o “segundo comandante” tem pouco peso, servindo sobretudo para tratar de questões protocolares, assistir a casamentos e enterros, como se costuma dizer de muitos vice-presidentes. Não é o caso de KG. Ela tem poder efectivo.

Acaba agora de ser seleccionada como a candidata europeia para o lugar de cabeça do Fundo Monetário Internacional. A sua selecção revelou várias coisas.

Quem manda efectivamente na União Europeia é a França. Foi o ministro francês da Finanças quem coordenou e guiou todo o processo.

A Europa do Norte alinha-se cada vez mais por detrás das posições holandesas.

A UE apenas respeita as regras quando lhe convém. Neste caso, KG está fora do critério da idade – tem mais de 65 anos, o limite que até agora tem sido a regra. Esse critério serviu, no passado, para eliminar candidatos de valor. Neste momento, a UE quer mudar as regras de um jogo que já está a meio, porque a sua candidata não cabe nele.

A atribuição mais ou menos automática do cargo maior do Fundo a um Europeu é um anacronismo. A UE deveria mostrar modernidade e realismo, permitir que outros candidatos, de outras partes do mundo, pudessem igualmente entrar na corrida.

KG não se conformou com o insucesso da sua candidatura ao posto de Secretário-Geral da ONU. Na sua opinião, via-se com mais trunfos do que António Guterres. Vai, agora, receio bem, se for confirmada como Managing Director do FMI, mostrar alguma rivalidade em relação a Guterres. É verdade que essa rivalidade seria mais acentuada se ela tivesse sido nomeada para a cabeça do Banco Mundial, uma organização que tem na sua carga genética a competição com a ONU. Mas, mesmo assim…

No que respeita à nossa aldeia, o governo e os media andaram um par de semanas a tentar enganar-nos com as hipóteses que Centeno teria. Foi um misto de promoção política do governo de António Costa com a parvoíce habitual e patrioteira de certos jornalistas. Temos, na verdade, uma aldeia muito curiosa, de engana parolos e de fantasistas.

 

publicado por victorangelo às 22:33

19
Jul 19

Defendo que nova política da União Europeia em relação a África esteja intimamente ligada à resolução de três grandes questões.

Primeira questão: a segurança e a estabilização da zona do Sahel e da África Ocidental. Numa fase inicial, tratar-se de travar a tendência actual, que vai no sentido da deterioração. Em simultâneo, será necessário criar uma capacidade de resposta endógena, que neste momento não existe. Na fase seguinte, o foco da atenção deve estar numa resposta integrada, que veja a segurança pela perspectiva dos cidadãos e não apenas dos Estados.

Segunda questão: regularizar o fenómeno migratório, em particular o que se dirige para o Continente Europeu. A pressão demográfica continuará a alimentar os movimentos migratórios, quer no interior do Continente Africano quer para o exterior, sobretudo na direcção da Europa. Por várias razões, é fundamental estabelecer mecanismos que tenham em conta a estabilidade dos recebedores de migrantes bem como os direitos de quem procura uma vida melhor.

Terceira questão: a promoção de uma governação legítima e responsável. A democracia e a luta contra a corrupção no seio das estruturas oficiais são dois aspectos marcantes nesta área. Necessitam de um diálogo franco, de incentivos e condicionalismos.

Estes temas são centrais para que a agenda de cooperação possa ter um impacto transformador. Permitirão focalizar as acções de cooperação entre as partes, definir as prioridades programáticas e justificar, perante a opinião pública europeia, os recursos e a atenção que será dada, nos próximos anos, a África.

Para além da concentração temática, é essencial procurar sinergias entre as intervenções europeias e as provenientes de outras partes do mundo, incluindo da China. Poderá não ser uma tarefa fácil, mas isso não será razão para a deixar de lado. Também haverá que estabelecer parcerias especiais com os países do Continente Africano que têm um poder de alavanca no desenvolvimento de outros.

 

publicado por victorangelo às 17:54

15
Jul 19

Ursula von der Leyen vai a votos amanhã. O Parlamento Europeu decidirá se a confirma como sucessora de Jean-Claude Juncker ou não. Neste momento, é difícil de prever o sentido da votação. Mas a verdade é que Von der Leyen veio hoje a público para assumir uma série de compromissos em matéria ambiental, de Estado de direito e de política de igualdade entre os homens e as mulheres que fazem todo o sentido. Nessa base, e tendo presente a seriedade da candidata e o seu posicionamento ao centro do espectro político, penso que faz todo o sentido votar a favor da sua nomeação.

Há quem a acuse de fraqueza política, em termos de capacidade de liderança, e de um certo conservadorismo. Penso que não está correcto. E lembro-me de um certo Jacques Delors, que chegou a Bruxelas em 1985, para ocupar o mesmo posto que Ursula von der Leyen deverá assumir. Muitos diziam então coisas parecidas com o que se diz agora sobre a candidata alemã. Depois, aconteceu o que todos sabemos.

Espero que a votação de amanhã seja clara e favorável.

publicado por victorangelo às 22:07

07
Jul 19

Na Grécia, o Partido Syriza ganhou a batalha da austeridade mas perdeu hoje na luta pelos votos dos eleitores. Amanhã haverá um novo Primeiro Ministro, o líder da Nova Democracia, Kyriakos Mitsotakis.

A Nova Democracia é o rótulo do partido do centro-direita. Veremos o que consegue fazer, num país que precisa urgentemente de investimentos e de criação de emprego, enquanto prossegue o programa financeiro que Tsipras assinou com a União Europeia. Não vai ser fácil cumprir as promessas feitas durante a campanha eleitoral. A esperança que surgiu hoje poderá murchar muito rapidamente.

Entretanto, seria apropriado deixar um palavra de apreço pelo trabalho feito por Tsipras. Alguns dirão que traiu a causa popular que o levara ao poder. A verdade é que mostrou uma boa dose de realismo político. A política é a arte do possível, como todos sabemos. Foi o que ele tentou mostrar.

 

 

publicado por victorangelo às 21:03

01
Jul 19

O Conselho Europeu de ontem, que se prolongou até à madrugada de hoje, não conseguiu chegar a um acordo sobre quem deverá assegurar o bastão de comando da Comissão Europeia, no final do mandato de Jean-Claude Juncker. Havia outros lugares de topo em jogo, mas o bloqueio começa com a essa nomeação. Uma vez resolvida, será mais fácil encontrar consensos sobre quem irá ocupar os outros cargos.

Foi uma cimeira de fracturas. As posições defendidas por uns e pelos outros – falo dos Chefes de Estado e de Governo, que são quem se senta no Conselho Europeu – não eram apenas divergentes. Assentavam em todo um complexo conjunto de razões, que impediam a convergência. Eram questões políticas e pessoais.

Angela Merkel saiu da reunião com a postura de Estado que se impunha. Disse fundamentalmente que as discussões continuariam e que seria encontrada uma solução. Normal. Uma decisão a 28 não é fácil de tomar, sobretudo quando não há uma família política que tenha os votos necessários para fazer passar a sua agenda. Sem esquecer que há sensibilidades geopolíticas distintas, bem como visões do futuro da Europa que andam há procura de uma plataforma comum.

Compreendo a dificuldade.

Mas não compreendo os que saíram da reunião a queixar-se dos outros. O Conselho não pode funcionar assim, com sarcasmos, ataques frontais e arrogantes contra alguns dos seus membros. O Presidente francês precisam que lhe digam isso. E o Primeiro-Ministro de Portugal também.

Em política, e nomeadamente em política europeia, é preciso mostrar respeito e paciência. Cada país deve sentir que conta e que as suas preocupações são ouvidas com atenção.

publicado por victorangelo às 19:59

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