A primeira fase da minha transição tem sido laboriosa e demorada. Ontem à tarde tive que ir comprar uns parafusos, brocas e outras quinquilharias à grande superfície que se situa ali para os lados de Alfragide. Quando lá cheguei, aquilo parecia um arraial popular. Havia mais gente na loja do que num comício de certos partidos políticos. Fiquei a pensar que os portugueses devem andar todos de berbequim na mão e de pincel em riste, a aproveitar o confinamento para reparar os trastes que têm em casa e para pintar o futuro a cor-de-rosa. O distanciamento social seria do tamanho de dois parafusos de rosca gasta.
O voo de Frankfurt para Lisboa estava a abarrotar. A bordo, a única diferença de monta era o porte de máscara. Todos a tinham, a começar pelos tripulantes. O resto, parecia um voo da época antiga, de antes da pandemia. O embarque fora feito sem qualquer tipo de controlo ou questionamento sanitário. É verdade que antes do embarque, na véspera, havia sido necessário responder a um breve questionário sobre o passageiro e a sua saúde, bem como sobre os motivos da viagem e mais nada. À saída do aeroporto, já em Lisboa, foi obrigatório passar por um sistema de controlo de temperatura. Depois, cada um foi à sua vida, que nestes tempos de recuperação não há tempo a perder.
O meu amigo passa os dias a dizer que somos os melhores do mundo. Respondo-lhe que isso é populismo barato. Não contribui um grama ou milímetro que seja para a resolução dos nossos problemas. Também não nos ajuda a ter uma visão mais equilibrada da nossa intervenção fora de casa. No fundo, andar a espalhar essa pretensão faz de nós uns meros bacocos. Badalamos o sino, olhamos para a nossa capela e acreditamos que estamos a competir com a Sistina.
A verdade é que uma aldeia de simplórios não voa muito alto. Sobretudo nestes tempos, que exigem muita argúcia.
O meu amigo presta-nos um mau serviço. Sendo quem é, poderia puxar-nos para a frente em vez de nos entreter com uma ilusão parola. Mas acha que fica melhor na fotografia se pintar um céu azul.
Estou a fechar um capítulo muito longo da minha vida de caminhante pelo mundo. Esta noite dormirei rodeado de mais ou menos 220 caixotes e cartões de papelão. É como se o passado estivesse preocupado com a pena do meu adeus e quisesse, assim, mostrar-me que 42 anos de andanças precisam de muita embalagem.
Na realidade, tem sido uma final cheia de imprevisíveis. Qualquer plano, no meio de uma pandemia, é um baralho de cartas que mistura tudo, complexidade, incertezas e ansiedades. Sempre lidei com confusão, indecisão e riscos. Mas nada se compara com o que muitos de nós têm experimentado ao longo destes últimos meses. Sobretudo os mais frágeis e pobres. Dizem que a morte é a grande niveladora. Mas o confinamento é o grande revelador das enormes disparidades sociais e da diferença que elas fazem. Esta verdade não necessita de uma caixa de cartão. Irá, no entanto, comigo, nesta nova viagem.
O sector da cultura não pode ser o grande esquecido, quando se põem em marcha os planos de recuperação da economia. A cultura é um sector importante da actividade económica e, em simultâneo, uma factor indispensável no nosso processo de enriquecimento emocional. Tem que estar activa. Não pode ser posta no fim da lista, como se fosse apenas um apêndice dispensável ou um luxo, para as horas vagas.
Uma parte dos subsídios que o governo está a conceder às televisões deveria ter como condição o compromisso de difundirem – e pagarem – espectáculos culturais, peças de teatro, representações artísticas, e não apenas as maluqueiras dos que passam horas a encher emissões de entretenimento sem substância.
A mensagem fundamental, que é preciso repetir várias vezes ao dia, é muito simples: o vírus continua presente nas nossas vidas e pronto para infectar quem não se precaver. É simples, na verdade, mas parece que alguns não a estão a entender. Pensam que, com a retomada das actividades económicas, a situação voltou ao normal. Longe disso. Estamos, para já, no que alguns chamam “o novo normal”, que exige comportamentos diferentes dos praticados até Março. Não se trata de viver com medo, mas sim com prudência e respeitando as regras sanitárias que os especialistas consideram essenciais.
Hoje, neste país que é a Bélgica, as barbearias voltaram a abrir. E eu lá estive, que bem precisava. Vim quase rapado, que o barbeiro não tinha mãos a medir nem tempo para grandes fantasias. Foi um cortar a eito.
Esteve, como todos os outros, dois meses e meio fechado. Perguntei-lhe quanto recebera como subsídio, por parte do governo. Disse-me, com um tom resmungão, que uns dias depois de ter fechado o salão, lhe deram 1200 euros, com a promessa de que a 4 de maio receberia um complemento. E recebeu, nesse dia, sem mais, 4000 euros. Ou seja, a subvenção total, a fundo perdido, por oito ou nove semanas de inactividade, chegou aos 5200 euros, sujeitos a impostos e às contribuições para a segurança social e para o fundo de pensões. Nada mal, pensei eu, para um empresário a título individual. Mas não lhe disse o que pensava, pois percebi que achou que foi pouco. E também, para não prolongar a conversa, o que faria correr o risco de acabar com um corte à soldado raso.
É fundamental que se saiba para onde se quer ir. Como também é muito importante ter sempre presente qual foi o ponto de partida.
Muitos de nós não temos uma ideia clara sobre o destino, nem mesmo um pouco de discernimento sobre o caminho que será mais apropriado escolher. Vamos andando, ao sabor dos ventos que sopram e das modas que outros inventam. Não temos agenda, temos apenas dias e um bom sopro de vida. Se nos perguntassem como justificamos o oxigénio que respiramos, a nossa pegada ambiental, ficaríamos incomodados com a questão mas incapazes de lhe dar uma resposta coerente.
Também nos esquecemos facilmente do ponto de partida. Ora, existem grandes diferenças entre nós. Há quem tenha nascido no andar de cima, com vista para a praça principal e para as avenidas largas, outros, na cave ou no telheiro. Gosto de perguntar a quem está no poder, seja que poder for, que faziam os seus pais e os seus avós. Uma grande parte dos que estão hoje em lugares cimeiros provêm de círculos sociais elevados. Nunca experimentaram uma situação de inferioridade social, não testemunharam o desespero de quem não se consegue fazer ouvir, não souberam o que é nascer e crescer na pobreza. Por isso, não entendem o que muitos lhes dizem, quando falam das dificuldades da vida.
Esse é um dos problemas do poder.
Por outro lado, convém lembrar que a liderança se aprende com o caminhar, sobretudo se o percurso vier de longe e tenha marcado pontos, deixado bandeiras que mostrem ao vento que passa que houve sucesso.
Quando o sistema informático diz que não, ficamos impotentes. Este é o mundo de agora. A Inteligência Artificial tem muitas vantagens e, do outro lado da medalha, grandes inconvenientes. Pode ser uma barreira. Quase intransponível. No meu caso, o sistema dizia que eu anulara todos os serviços de telecomunicações excepto um. Ficara registada como uma decisão final, não como um erro de entrada de dados do operador. Enquanto decisão definitiva, a IA do sistema não permitia voltar atrás. Para ter de novo o serviço a funcionar em minha casa, era preciso proceder a um novo contracto, respondia o robot que trata destas coisas. Um novo contracto que, nestes tempos de Covid e de vigilância apertada dos utilizadores da net, só ficaria operacional quando eu já não precisasse dele. Foram precisas várias horas de reprogramação por um humano altamente competente em questões de informática para que o robot mudasse de ideias. Deu para provar o que poderá ser o mundo de amanhã, dirigido em grande parte por máquinas “inteligentes”. Que estão programadas para ultrapassar e dizer que não a decisões tomadas humanos. Faz medo ou, pelo menos, pensar.