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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Crescemos quando abrimos horizontes

Tudo se sabe, nestas terras

Passei hoje por uma pequena localidade de Alentejo, onde tenho duas pessoas conhecidas. De manhã, dei uma volta a pé pela vila. A determinada altura, numa das praças, estava um homem a grelhar uma série de frangos, em resposta a encomendas que havia recebido. Parei para ver as suas artes. Olhou para mim e disse-me que sabia quem eu era e porque estava por ali. E sabia mesmo. Nestas pequenas terras não há segredos. Basta conhecer alguém e depois, o resto espalha-se. Com simplicidade, sem más intenções.

Respondi que sim e que era de Évora. Ser de Évora continua a ser uma mais-valia. E esta, não paga imposto

Devagarinho, no Baixo Alentejo interior

Ontem estive em Alvito, no distrito de Beja. É um concelho perdido na imensidão dos campos do Baixo Alentejo, pouco povoado – nas presidenciais de 2020, tinha pouco mais de 1.900 eleitores inscritos, tendo votado menos de 900. E como muitas localidades do interior do Alentejo, é uma terra que parou no tempo. Várias das casas grandes estão fechadas ou mesmo abandonadas e as actividades económicas não-agrícolas não existem. No domínio da agricultura, a água do Alqueva tem feito a diferença. Quem passa, vê muitas plantações novas, sobretudo de oliveiras, mas não só. Mas não se enxerga vivalma. E as estradas que levam ou fogem de Alvito estão em mau estado. Essa é, aliás, uma constante pelo distrito fora. A nacional que vem da A2 para Beja tem alturas que mais parece uma aliada das casas que vendem pneus para automóveis e das oficinas aperta-parafusos. A tão falada N2, que vem do Norte para o Sul de Portugal tem troços na zona de Ferreira do Alentejo que clamam por uma nova cobertura de alcatrão.

O lado positivo é ser-se obrigado a conduzir devagar. Devagar como a vida nestas terras.

Na Baixa em baixa

Hoje fiz algo que não fazia há quase um ano: ir à Baixa de Lisboa. E encontrei uma Lisboa a meio gás, ou mesmo menos. Os estabelecimentos comerciais que continuam abertos pouco mais fazem do que tentar sobreviver. E vários fecharam de vez, incluindo lojas que faziam parte da identidade da Baixa.

A única animação era a de um cidadão tresloucado, que percorria o Rossio de peito descoberto, a gritar palavrões e a assustar os poucos turistas que por ali andavam. Era óbvio que ninguém sabe o que fazer numa circunstância destas e que não há um tratamento oficial deste tipo de desgraças. Como em muitas outras coisas, deixa-se andar e finge-se que não se vê.

Havia também muita confusão sobre as novas medidas do governo sobre a covid, em particular sobre a necessidade de fazer valer um certificado de vacinação ou coisa equivalente, para ganhar acesso a um alojamento num hotel ou casa de Alojamento Local. Muitos dos poucos turistas que aparecem são jovens e, por isso, ainda não estão vacinados. Com as novas exigências, ficam numa situação embaraçosa.

Os engraxadores continuam a fazer parte da paisagem do Rossio. Mas não serão mais do que seis. E hoje já ninguém anda com sapatos que peçam graxa. Era o meu caso. Mas mesmo assim, sentei-me em frente de um deles. Limpou-me os mocassins por três euros e disse-me estar convencido que piores dias virão.

O quotidiano, ao som da harmónica

O meu amigo que toca harmónica perto do Padrão dos Descobrimentos raramente faz 10 euros por dia. É verdade que não é um grande músico. Mas está no seu posto todas as manhãs, à espera do turista que passa. E hoje já passavam mais. Também já se viam alguns turistas maduros de idade. Até agora, nas últimas semanas e desde que começaram a aparecer os primeiros visitantes, o que o meu amigo via eram casais jovens. O surgimento de gente mais velha deu-lhe alguma esperança.

Mas o movimento ainda é pouco e espaçado. Mais à frente, junto à Torre de Belém, um outro amigo habitual, o que vende óculos de sol e paus para selfies, continuava hoje a queixar-se. Disse-me que nota que as pessoas estão mais agarradas ao dinheiro. E fez toda uma leitura económica sobre esse tema. Nomeadamente que ainda estamos em tempos incertos.

Fica sempre feliz quando lhe presto alguns minutos de atenção. Na realidade, pessoas da sua condição não são ouvidas. São, quando muito, toleradas. Ora, precisam de fazer parte do diálogo.

Depois, já no final da nossa conversa, falámos do tempo. Também anda incerto.

Um domingo de vento

Hoje, ao longo do Tejo, entre o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém, já se viam mais turistas. Não são muitos, mas para quem não descortinava ninguém, há duas ou três semanas, o pequeno número nota-se e é bem bem-vindo. Alguns dos vendedores de rua, os habituais, também já voltaram a entrar em acção. Vendem pouco mais do que nada, segundo me dizem, mas voltaram optimistas, depois de uma longa pausa sem poderem meter as bugigangas nas mãos dos turistas. O seu grande receio é que Lisboa venha a conhecer um novo pico, que seria desastroso por coincidir com a época do verão.

Também houve filas, este fim-de-semana, à porta dos pastéis de Belém. Isso não acontecia há meses.

De um modo geral, os visitantes estrangeiros que aparecem são casais jovens. O turista da terceira idade, muito frequente nesta altura do ano, ainda não dá sinais de vida.

E o parque de autocarros frente ao Mosteiro dos Jerónimos continua tão vazio como durante toda a pandemia. Não há grupos nem visitas guiadas. Os motoristas de autocarros e os guias devem estar a viver grandes dificuldades.

Os condutores Uber estão novamente activos. A grande maioria dos seus clientes é agora o cidadão nacional. Quem continua parado são os taxistas. A crise aí é muito profunda e parece não ter fim à vista.

De resto, foi um domingo de vento. E neste momento, ninguém sabe o que o vento nos traz.

O tribalismo não tem miolos

A luta de classes morreu num estádio de futebol, ao que dizem. Já não se trata de capitalistas e proletários, mas sim de sportinguistas contra benfiquistas, portistas contra todos os outros. É uma luta sem tréguas nem fim. E como noutras guerras, não há dó nem piedade. Também não há juízo, como vimos esta semana. É fervor irracional.

Um anormal

Disseram-me hoje que não sou uma pessoa normal. E agora, à noite, ainda estou a pensar nesse diagnóstico que me foi feito. E na razão apontada: não é normal que eu não seja fã de nenhum clube de futebol. Quem não sofre, grita ou lança foguetes por uma equipa é simplesmente um anormal. 

Para atenuar a constatação acabei por felicitar o meu amigo pela vitória do seu clube. Fiquei, no entanto, com a impressão de que ele não viu as minhas felicitações como sinceras. E creio que isso ainda agravou mais a sua opinião sobre a minha perturbação da personalidade.

O que me vale é que não sendo normal, não estando a bater-me por um qualquer clube, isso leva os meus amigos a fechar os olhos quando aqui escrevo coisas que eles não entendem bem. Também podem fechar os olhos cada vez que eu critique este ou aquele partido. É que aí, também, não há nem uma sombra de fidelidade acrítica seja por quem for. 

O tempo das cerejas

O tempo das cerejas está a chegar ao Alentejo. E as caixas das ditas são todas de origem espanhola. Vendidas à beira das estradas, por particulares que enchem carrinhas com a mercadoria, não deu para perguntar qual é o circuito de comercialização que é seguido. Tudo parece seguir rotas informais. Só sei que 10 euros permitem levar dois quilos para casa. 

Tudo o que é da minha cor é bom

O meu amigo Zulmiro – que raio de nome fui dar a esse meu amigo – nem analisa nem reflecte. Reage, toma posição, sempre a partir do mesmo prisma ideológico. Por isso, é previsível. Quando há uma polémica, o Zulmiro opina de imediato segundo o prisma que o anima. E diz, por isso, que é politicamente coerente, sempre do lado dos bons, que a política para ele é uma questão de bons e de maus. Acha, por outro lado, que quem perde tempo a ver as diferentes dimensões do problema é um cata-vento, um meias-tintas, um fulano que não se define a preto e branco.

Conheço toda uma série de Zulmiros. Uns, pessoalmente, outros porque escrevem nos jornais, falam nas rádios ou, ainda, por se mostrarem nas televisões.

E, ao que parece, ser Zulmiro é o que está a dar. Por exemplo, o Zulmiro desta tarde subiu na carreira por ser coerente. Apoiou sempre os da mesma linha e fê-lo com voz alta e de modo visível. Na cabeça dele, nunca existiram interrogações. Se vinha dos da sua cor, estava correcto, era para dizer que sim. Se a origem da ideia estivesse na cor adversa, batia a sério na proposta, sem papas na língua, sem medo. E assim foi ganhando galões. Com todo o mérito de quem não tem hesitações.

Quando lhe disse que tinha uma certa admiração por ele, não viu qualquer ironia na declaração e ficou feliz. Os Zulmiros gostam de elogios.

O vendedor de óculos de sol e dador de esperança

Um dos meus amigos ciganos, que vende óculos de sol em frente à Torre de Belém, voltou agora ao seu posto de labuta, depois de meses de ausência. Não servirá de muito, porque não há movimento, não aparecem turistas pela zona. Mas, mesmo assim, ele voltou e lá anda com uma série de óculos na mão, à espera de um tempo novo, que decerto acabará por vir.

Disse-lhe esta manhã que a sua presença, o seu regresso me dá uma certa esperança. Se ele acredita que a vida vai recomeçar, ele que é também uma pessoa de idade como eu, quem sou eu para lhe dizer o contrário.

Se por lá passarem e virem um homem de fato preto e com um ar magricela e frágil, pronto para vos vender um par de óculos de sol – cinco euros fazem a festa, se o cliente for lusitano – pensem que ao comprar estão também a alimentar a esperança em dias melhores.

 

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