Portugal é grande quando abre horizontes

20
Abr 10

O aeroporto de Bruxelas estava às moscas. A maior parte dos voos haviam sido cancelados, uma vez mais. Coisas de gente que não está para arriscar. O avião da tarde, para Lisboa, foi um dos poucos a bater as asas e fazer-se às cinzas. Um dos meus companheiros de viagem havia passado quatro dias num dos hotéis do aeroporto. Ontem, um homem, com sentido de oportunidade, meteu-se à fala com ele, na recepção do hotel. Disse-lhe que por 2000 Euros o conduziria a Lisboa.

 

Há sempre um negócio possível, nos momentos de grande confusão.

 

Três patuscos, duas mulheres e uma coisa parecida com um homem, velho, barba de vários dias, e meio morto de não sei quê nem por que razão, viajaram igualmente. Gente com muitas décadas em cima das banhas. No aeroporto, enquanto as mulheres falavam, num daqueles vernáculos que faria corar um cabo velho da velha GNR, sobre pessoas suas conhecidas, gente da emigração, dura como as pedras e tosca como um carvalho dos antigos, primária na sua maneira de viver a vida, mas com sucesso financeiro, o farrapo ia emborcando umas cervejas, à falta de uma boa aguardente de aldeia das brenhas natais. Já a bordo, enfiou mais duas, para chegar à meia dúzia. Fora o gesto de levar a lata ao buraco da boca, pouco mais mexia, naquele corpo que já viu outros ritmos de energia. Quarenta anos de emigração dão umas coroas para um processo de embrutecimento alcoólico, a juntar ao resto.

 

Fora isso, o embaixador da Guiné, também previsto no trajecto, faltou à chamada. Anda escondido, ao que parece, nos becos mais escuros de Bruxelas, que Bissau não lhe envia meios há tempos que já não têm conta. Os credores devem andar loucos, à procura do senhor embaixador ou de quem responda por ele. Isto de ser o representante de um país que avança para o futuro em marcha atrás tem que se lhe diga. 

publicado por victorangelo às 22:24

19
Abr 10

De repente, as pressões políticas limpam os céus da União Europeia e os voos recomeçam. Mas há uma outra nuvem que continua a pairar sobre a Europa: a da confusão dos líderes, uma mancha escura que é composta por várias substâncias tóxicas, incluindo o medo de acarretar com as responsabilidades, a preferência pelas situações de facilidade, a falta de visão, as hesitações, o não te rales. 

 

Dito de outro modo, parece que não há piloto no cockpit europeu. É tudo ao sabor das erupções, das pressões e dos ventos fortes.

publicado por victorangelo às 22:15

18
Abr 10

 

Com os principais aeroportos da Europa Ocidental fechados há quatro dias, por efeito do vulcão perdido no Atlântico Norte, em terras da Islândia, os prejuízos económicos e os incómodos pessoais estão a tornar-se insuportáveis.

 

Numa altura de crise profunda, a paralisação dos transportes aéreos é mais uma acha para a fogueira da recessão.

 

Fica-se, agora, a pensar que a prudência é capaz de ter sido excessiva, que se não esteve com meias medidas e se foi directamente do oito para o oitenta. Decisões desta gravidade exigem uma ponderação muito fina de todas as suas consequências. Pedem muito cuidado, muita análise, muito trabalho técnico, antes de serem tomadas.

 

Terá acontecido assim? A dúvida paira no ar, como também pairam as cinzas vindas do Norte.

publicado por victorangelo às 22:01

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