Portugal é grande quando abre horizontes

19
Jun 19

A televisão tem muita força. O que se passou ontem e hoje à volta do processo de candidatura a líder do Partido Conservador foi mais uma ilustração desse poder.

Os cinco candidatos participaram ontem num debate televisivo, organizado e transmitido em directo pela BBC One. Vi o debate. Rory Stewart, o candidato com mais cabeça e que era visto pela comunicação social e pelos analistas políticos como uma estrela montante, capaz de fazer frente a Boris Johnson, teve uma má prestação. Sentou-se mal, na ponta da cadeira, mostrou enfado e uma linguagem corporal que parecia dizer que os outros candidatos não sabiam o que estavam a dizer, tirou a gravata a meio do debate, e deixou os outros ocupar uma boa parte do tempo de antena. Em resumo, deu a impressão que não queria debater, que não estava ali a fazer nada e que tinha pouca consideração pelos outros candidatos.

No fim da emissão, a minha conclusão foi clara: Rory colocou-se fora da corrida. Não mostrou aquilo que se espera de um futuro líder e futuro Primeiro Ministro, atenção, argumentação e presença.

E assim aconteceu. Na votação de hoje, perdeu uma parte do apoio que havia conquistado entre os seus colegas parlamentares e foi eliminado. Brilhante, sim, mas incapaz de passar na televisão. E, nestas coisas, a imagem conta imenso.

 

publicado por victorangelo às 21:09

24
Mai 19

Theresa May anunciou hoje a sua demissão. A pressão vinda dos Brexiteiros mais duros, dentro do seu partido, acabou por derrubar a Primeira Ministra. Foram muito ajudados pelos jornais conservadores, que fizeram uma campanha diária contra May.

No fundo, como escrevi noutro lado, foi uma vitória da ala mais nacionalista, mais idealista e irrealista da classe política conservadora, que pensa que poderá restaurar a Grã-Bretanha do tempo da Rainha Victoria. Uma ilusão irracional que é muito difícil de combater com argumentos racionais, como a Primeira Ministra tentou fazer.

Boris Johnson será provavelmente o próximo líder do governo de Sua Majestade. Boris tem muitas facetas de alienado e pouca profundidade na compreensão dos problemas. É um confuso mental. A sua capacidade de mentir e exagerar é legendária. Mas fala bem, escreve à antiga mas de uma maneira que atrai algum público, é o menino querido da imprensa da direita tradicional. O principal trunfo que tem é ainda mais forte. Muitos membros do partido conservador pensam que Boris é o único líder que conseguirá derrotar Jeremy Corbyn, o dirigente trabalhista, em caso de eleições gerais. Boris irá cultivar essa crença e, por isso, deverá ser eleito chefe do partido. E, consequentemente, tornar-se o sucessor de Theresa May.

Vai também repetir, alto e bom som, que é o único capaz de fazer frente aos dirigentes europeus. Isso dar-lhe-á votos igualmente. Mesmo que se diga e repita que não há nada a que fazer frente, pois as negociações de saída estão terminadas.

Deve ficar claro que a escolha de quem manda na política britânica cabe aos cidadãos do Reino Unido. A Europa sentar-se-á à mesa com quem vier a ser escolhido. Não haja, todavia, ilusões. O lado britânico pode fazer o barulho que entender, mas isso não fará esquecer aos europeus que a saída da União tem regras e que os interesses da UE são a primeira preocupação de quem tem a responsabilidade de conduzir os destinos do projecto comum. Nós tratamos de nós, Boris ou qualquer outro que venha, que trate dos seus, se puder.

 

publicado por victorangelo às 20:54

12
Abr 19

Existem razões políticas suficientes para justificar a realização de um segundo referendo sobre o Brexit. Se acontecesse, o resultado desta nova votação poderia aparecer como uma confirmação da maioria obtida em 2016, ou ir no sentido oposto. Seria, em qualquer dos casos, um referendo com base numa melhor compreensão do que está em jogo.

Poderá vir a acontecer.

Penso, no entanto, que os dirigentes europeus não devem ficar à espera por muito tempo que os britânicos decidam se realizam ou não uma nova consulta popular. Por isso, defendo que se deve dar um prazo definitivo aos políticos que estão no governo de Theresa May e no Parlamento de Westminster. Uma data final e nada mais.

A participação britânica nas eleições europeias de finais de Maio é uma aberração política. Estou hoje convencido que a Primeira Ministra e o Líder da Oposição, Jeremy Corbyn, se apercebem desse absurdo e dos custos políticos que daí decorrem. Assim, acredito que estão cientes que as discussões entre eles têm que chegar a uma conclusão em breve, não muito depois da Páscoa.

Esperemos que sim.

 

publicado por victorangelo às 20:23

10
Abr 19

Os líderes europeus decidirão, dentro de horas, que resposta dar ao pedido de Theresa May, que solicitou um breve adiamento da data de saída do seu país da União Europeia. O pedido formal da Primeira Ministra propõe 30 de Junho como o novo prazo para o Brexit.

Reconheço, como muitos outros, que esta é uma questão profundamente complexa. Aconselho, no entanto, que não se complique ainda mais o que já está desesperadamente enrolado.

Também, para evitar novas acusações de humilhação, os líderes deveriam aceitar a proposta britânica. É verdade que a Primeira Ministra está numa situação de grande fraqueza política. Não aceitar o seu pedido aumentará a sua fragilidade.

Uma extensão longa – que tem muitas hipóteses de ser a resposta que a noite irá dar –, e flexível, não me parece ser a mais acertada. Multiplica de modo significativo os riscos de instabilidade, do lado da UE. Só deveria ser aceite se do lado britânico houvesse abertura para um novo referendo.

publicado por victorangelo às 17:09

22
Mar 19

Theresa May termina a semana numa situação de grande fragilidade política. Noutros tempos e noutras condições, a Primeira-Ministra estaria às portas do pedido de demissão. Estamos, no entanto, a viver momentos excepcionais, em que nada do que era habitual acontece como seria de esperar.

Desta vez, creio que o pedido poderá acontecer. Estou convencido que Theresa May não que ver o seu nome associado pela História a um Brexit sem acordo. Se não houver uma reviravolta e se o acordo que está em cima da mesa voltar a ser chumbado, o que é muito provável, muito mesmo, May acabará por ir ver a Rainha.

A partir daí, quem sabe o que poderá acontecer?

publicado por victorangelo às 20:05

20
Mar 19

O discurso que Theresa May fez à nação esta noite foi absolutamente desastroso. A ideia central da sua mensagem pode resumir-se assim: a culpa é dos outros, dos deputados e dos procedimentos constitucionais.

Really?

Um erro absoluto.

Não sei quem a aconselhou a falar assim. Mas, a verdade é bem evidente: a Primeira-Ministra já não está à altura do desafio que é o Brexit. O seu prazo de validade terminou. Chegou ao fim.

publicado por victorangelo às 22:33

14
Mar 19

O estilo de liderança de Theresa May merece que lhe consagrem um par de investigações e teses de doutoramento. Pode dizer-se muita coisa má e também alguma coisa boa sobre esse estilo. Mas a verdade é que a Primeira-Ministra britânica tem uma tenacidade de ferro. E uma capacidade exemplar para fixar os olhos na bola, naquilo que verdadeiramente conta, sem se deixar distrair por tudo o que vai acontecendo à sua volta.

publicado por victorangelo às 20:48

13
Mar 19

Theresa May está mais fragilizada do que nunca. Vários membros do seu governo decidiram votar contra as instruções que ela lhes tinha dado. A tradição diz-nos que deveriam, esta noite ou amanhã, pedir a demissão, abandonar as suas funções ministeriais. Não sei se isso irá acontecer. O país atravessa momentos excepcionais, nada é como dantes. Mas a verdade é simples: a Primeira-Ministra tem que manter a sua autoridade, no que respeita aos membros do governo. Se o não fizer, dará um sinal de fraqueza que será considerado como final. Em questões de liderança política, a imagem de um líder fraco é fatal. Nas circunstâncias actuais, Theresa May não pode cair nesse erro.

publicado por victorangelo às 22:17

Ontem à noite surpreendi alguns, quando, depois do novo chumbo em Westminster do projecto de acordo de Brexit, falei da possibilidade de uma terceira volta. Ou seja, do regresso ao Parlamento do projecto, depois de mais um ou dois retoques cosméticos, para uma votação final, uma possível aprovação, nesse momento.

A verdade é que estamos a percorrer paisagens políticas inéditas, nunca dantes exploradas. Assim, pode-se imaginar tudo, todo o tipo de opções políticas, pensar no inimaginável. Não por diversão ou para dizer algo diferente do que outros dizem. Sim, porque é no interesse de todos encontrar uma solução a um processo particularmente complexo. Um processo em que o habitual deixou de fazer sentido.

publicado por victorangelo às 14:56

29
Jan 19

Segui com atenção o debate de hoje no parlamento britânico sobre o Brexit, bem como a votação das diferentes propostas de moção. No essencial, considero que foi, em grande medida, um exercício destinado a salvar a face dos membros do Partido Conservador e da Primeira Ministra, em particular. Também serviu para os preparar para engolir a pílula amarga. Ou seja, para que aprovem, dentro de duas semanas, a 13 ou 14 de fevereiro, o acordo de Theresa May sobre a saída do Reino Unido da UE.

O resto é espectáculo. Mas uma comédia triste, que vai sair cara.

publicado por victorangelo às 21:16

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