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Vistas largas

Crescemos quando abrimos horizontes

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Uma Europa multicultural

Eis o texto que hoje publico na Visão:

 

            Ano novo em Paris

             Victor Ângelo

 

 

            A brutalidade do que ocorreu na semana passada em Paris e arredores deixou-nos em estado de choque. É verdade que as imagens do assassinato a frio de polícias, de jornalistas e de clientes de um supermercado não podiam deixar muita gente indiferente. Além disso, a cobertura mediática foi descomunal e terá ajudado a avolumar a rejeição coletiva.

            Pela positiva, a extraordinária envergadura das manifestações populares de domingo em França e a solidariedade expressa em vários cantos do mundo permitiram recuperar a esperança. As multidões lembraram-nos que a liberdade e a tolerância são valores pilares das sociedades democráticas. E que os desvarios de três ou quatro extremistas não podem servir de pretexto para discriminar uma parte da população nem para entrar em processos de derrapagem securitária.

            A Europa em que vivemos é multicultural. Os tempos em que parecíamos cópia uns dos outros e vivíamos à sombra de um cristianismo mais ou menos de fachada já não existem. Basta apanhar o metro em Londres, caminhar em Paris, percorrer os bairros de Bruxelas ou entrar em qualquer cidade da Alemanha para se perceber que comunidades vindas de outros continentes fazem agora parte da nossa vida. Vieram para ficar. E não tenhamos ilusões. Muitos mais, nas duas ou três décadas que se avizinham, se virão juntar aos que já cá estão. Mesmo se Marine Le Pen, Nigel Farage ou os radicais de Pegida – o movimento que começou em Dresden contra a “islamização do Ocidente” – chegarem perto do poder, não conseguirão evitar as migrações. Temos que aprender a viver com a diversidade. A minha neta, a fazer cinco anos em breve, já percebeu que na sua sala de aula há crianças de várias feições e com nomes próprios que o leitor e eu acharíamos estranhos e difíceis de fixar. Para ela, são nomes familiares.

            A diversidade é uma fonte de enriquecimento, de criatividade e, também, de conflitos e violências. Há que saber conter as tensões e gerir a agressividade. Após Charlie Hebdo, não precisamos de um polícia em cada esquina, nem do exagero securitário que se conhece em certos países. Essa não deve ser a resposta. O cidadão quer viver sem constrangimentos desnecessários. Sabe-se que quando se adota uma linha assente na primazia da segurança a tendência é para o acentuar das medidas restritivas, para o exagero e o absurdo. O que faz falta, em termos de contenção de futuras crises, é reforçar a capacidade de antecipação. As polícias devem poder dedicar mais recursos humanos à análise e à partilha das informações recolhidas. Precisam de mais analistas, para poderem prevenir. Devem reequilibrar os serviços, que têm investido excessivamente na reação, nas forças especiais, e pouco no tratamento e no seguimento das informações. Reconheço que a vigilância de um potencial terrorista pode mobilizar mais de uma dúzia de agentes a tempo inteiro. São custos que valem a pena: uma análise aprofundada dos indícios permite distinguir os riscos reais da fantasia.

            Finalmente, convém ter presente que estes atos continuam a ser obra de indivíduos isolados. Por detrás dos irmãos e do outro alucinado, não parece existir qualquer estrutura de apoio. Para além do treino que um deles possa ter recebido no Iémen, foi na prisão e no contacto com o mundo do crime que ganharam o jeito. Foi também aí que aconteceu a radicalização. Isto levanta uma outra questão: os sistemas penitenciários europeus precisam de uma grande reforma – a maioria não funciona como seria de esperar. E servem, por isso, como incubadoras de futuros terroristas e de outros bandidos de grande calibre.

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